sábado, 6 de março de 2010

Português culto, idioma esotérico

Acabo de ver um artigo cuja manchete fala na “vista dramática” de um hotel. O pior não é ver a língua portuguesa, no Brasil, assumindo cada vez mais anglicismos; o pior é ver que esses anglicismos vêm de usos toscos e publicitários do inglês.

A reclamação a respeito da influência estrangeira em uma língua neolatina, por sua vez, pode soar perfeitamente ridícula. Não era o português de sessenta anos atrás perfeitamente afrancesado, cheio de “coisas as mais diferentes”? Mais ainda, sendo o latim e o grego línguas mortas e estrangeiras, não seria absolutamente arbitrário apreciar a influência delas, e detestar a influência de outras? Nesse caso particular, eu diria que a resposta é que não, porque são línguas que estão na base da nossa, e conhecê-las nos recorda de que o português não existe no ar, voando, como um absoluto sem relativos, uma coisa-em-si auto-originada.

O que me causa ressentimento, isso sim, é gostar do português e ver que, cada vez mais, as classes mais escolarizadas do Brasil só utilizam o idioma para executar as tarefas mais comezinhas do dia-a-dia, sem que o português seja efetivamente uma língua de cultura, de que se possa valer para expressar o que há de (ao menos um pouco) mais sutil no pensamento. Fôssemos bárbaros a fundar o Condado Portucalense, sem que tivéssemos na bagagem Camões, Sá de Miranda, Alexandre Herculano, Gonçalves Dias, Camilo Castelo Branco, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Bruno Tolentino etc. etc. etc., vá lá; mas nem sequer estamos trocando Machado de Assis por Shakespeare, e sim Machado de Assis por Friends — e não é nem o caso de dizer que eu desgoste de séries americanas — e por literatura de avião. Não é, de fato, o caso de dizer que os brasileiros menos incultos têm sido atraídos para a alta cultura de língua inglesa, mas apenas para a cultura de massas de língua inglesa, que de fato é melhor do que a nossa.

O que me causa temor, por fim, é que um dia o português rico se torne, no Brasil, uma espécie de idioma esotérico, falado por cultores vetustos, uns nos corredores do Itamaraty, outros em torno das mesas da livraria Leonardo da Vinci, outros ainda em antigos sebos, e que seja preciso um Dante que escreva “em língua vulgar” uma grande obra, para que só então a posteridade, ou uma mínima parte dela, veja o que perdeu.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Livraria Leonardo da Vinci

Aproveitando uma lacuna de três horas no Centro do Rio nessa terça, saí debaixo de chuva à procura de um livro — O processo, de Kafka, na tradução de Modesto Carone. Um insight matinal me fizera querer lê-lo imediatamente. Era preciso ir a uma livraria, coisa que, admito, raramente faço. Ou vou sempre ao mesmo e idêntico sebo, ou compro na Livraria Cultura pela internet. Não é que eu seja um apologista da comodidade, nem que seja refratário a sair para comprar livros. É que eu quase sempre já sei exatamente o que pretendo comprar. Nunca fico clicando a esmo nas lojas da internet.

Passei por duas megalivrarias. Uma parece um shopping e só vende best-sellers. Outra, apesar de bem melhor, parece feita para pessoas que acham que letra de música é poesia e têm opiniões politicamente corretas. Então, sabendo que teria de andar mais um pouco, decidi ir até a livraria Leonardo da Vinci, pensando que, se a da Vinci não tivesse, então não haveria esperanças; isso seria um sinal de que Deus mesmo considerou o insight que me fez querer O processo uma futilidade, e me puniu com uma vã caminhada na chuva.

A Leonardo da Vinci não me desapontou. Mas algo mais me chamou a atenção. Fazia tempo que não entrava na loja. Nas prateleiras perto da porta vi dois livros de Michel Serres — não sabia que ele tinha sido publicado no Brasil. Nas mesas, diversas coisas interessantes, como o livro que namoro desde a última vez que fui lá, La mort volontaire au Japon. Um livro de Roger Scruton. Livros de editoras acadêmicas, aqueles que custam fortunas — importá-los para o Brasil e apostar na sua venda me parece um dos atos mais aristocráticos imagináveis (não sei se são sensatos comercialmente). Mentira romântica e verdade romanesca, de que fiz a orelha. E a sensação de que a livraria Leonardo da Vinci é o único lugar do Rio que transmite, na falta de expressão melhor, intensidade intelectual. Não falo, decerto, do fetiche do livro, nem enquanto objeto, nem enquanto, oh!, Cultura com C maiúsculo; falo do interesse pelo livro enquanto portador de idéias bastante específicas pelas quais se tem muito interesse. A Livraria não tem um café; ninguém vai lá para sentir que faz parte da classe culta. Você vai lá para deixar suas economias, sentir-se culpado, rasgado, torcido, mas feliz por ter encontrado um pequeno tesouro.

Além disso, eu diria que a Leonardo da Vinci é, sob um aspecto muito particular, uma espécie de anti-internet. Paul Claudel teria dito que a leitura do jornal matinal lhe dava “a sensação do presente em sua totalidade”. A tentação de dizer que isso foi muitíssimo superado pela internet é grande, mas é preciso fazer a ressalva de que a internet, por maravilhosa que seja, dá a impressão de ser uma vasta máquina de palavras ociosas, exatamente daquele tipo repudiado por Jesus Cristo (ver Mateus, 12, 36).

Note o leitor que não estou opondo a indústria editorial à internet, nem a era do livro à era digital. Estou opondo a Livraria Leonardo da Vinci à internet. Porque cada um daqueles livros novos, recentes, que ali folheio não parecem ser compostos de palavras ociosas, e sim de de palavras preciosas, como se ficasse muito bem ressaltado que cada um deles é um pequeno tesouro, composto dos pensamentos idos e vividos de alguém. É muito fácil passar o dia no computador, pulando de site em site, e ao fim sequer conseguir recompor o pensamento que me fez sair de A e chegar a B, além de, é claro, ter a sensação de esmagamento informático, causado pelo excesso e pela fragmentação. Ao entrar na Leonardo da Vinci, tem-se a sensação de entrar numa sala de maravilhas, sabendo que você pode carregar para fora da li algo na sua medida, de que você pode desfrutar de maneira continuada, intensiva.

Não sei se a Leonardo da Vinci enfrenta dificuldades nessa era de Amazon e de AbeBooks. Mas sei que, se algum dia ela fechar, aí poderemos dizer que, no Rio de Janeiro, a possibilidade de uma certa experiência foi definitivamente perdida.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Liberdade, ordem e violência

Com atraso, respondo ao bom Diogo Costa:

Começo pelo factual. Se o compreendo corretamente, Sette-Câmara define como causa eficiente para coesão social originária o deslocamento terminal da violência cíclica para um agente externo (ou interno, desde que isolável). A lógica pode ser válida, mas a história não confirma o aspecto empírico desse enunciado. A melhor explicação para a gênese do estado está nas teorias de superestratificação, que esclarecem como a formação de uma estrutura política geralmente ocorre quando o inimigo externo passa a dominar uma cultura pacífica. Conforme Karl Mannheim:

Thanks to the investigation carried out by ethnologists and sociologists we know… that all the highly developed cultures in history originated from the forcible conquest of autochthonous communities, mostly peaceful peasantries, by nomadic peoples. This element of coercion penetrated so deeply into the otherwise pacific peasant society that it dominated its entire structure.


Essas afirmações na verdade não corroboram nem desmentem a idéia de que a ordem nasce da violência unânime contra um inimigo externo. Os nômades precisavam primeiro não estar matando a si mesmos antes de dominar as populações agrícolas, assim como as populações agrícolas precisavam não estar competindo entre si para poder sonhar em se defender ou simplesmente para continuar existindo.

Dizer que “a ordem nasce da proteção contra o inimigo externo” é focar em elementos acessórios da superestratificação política (vale lembrar também que as empreitadas nômades contra os produtores não bastavam para os elevar a uma ordem social), ou tomar por regra casos excepcionais como a formação da confederação Suíça.


Acho que falta explicar mais a “superestratificação política”.

Depois, ao dizer que “a violência é o estado natural do ser humano”, Sette-Câmara está, na melhor das hipóteses, cometendo um descuido perigoso. Que não somos anjinhos corrompidos pelas instituições malvadas, não tenho dúvidas. Mas não segue daí a necessidade de costurar no lombo da humanidade a pele do lobo hobbesiano. A violência é natural, mas também é natural a cooperação. Só existe vida em sociedade porque se percebe que a cooperação humana satisfaz melhor nosso interesse próprio do que o estado de guerra.


Para ser sincero, meu conhecimento de Hobbes é muitíssimo superficial, por isso não me classificarei como hobbesiano ou deshobbesiano.

Minha tese, ou minha hipótese, é que a cooperação só surge depois que a violência competitiva entre rivais próximos é contida pela violência unânime. Porém, segundo o próprio Adam Smith, essa cooperação não nasce de um instinto de caridade, mas do interesse próprio.

É preciso clarificar um pouco o uso da palavra “natural”. Podemos falar de uma natureza do homem “feito à imagem e semelhança de Deus”, um homem essencialmente bom, mas acidentalmente corrompido, ou de um homem filho de Caim, um homem essencialmente corrompido, mas acidentalmente mau.

Tendo a fechar com Dostoiévski e acreditar que a maldade do homem vem do seu desejo de autonomia, e que esse desejo freqüentemente se torna mais forte do que um interesse próprio positivo. Creio que a melhor fala escrita na TV na última década veio no primeiro episódio da primeira temporada de 30 Rock, em que Liz Lemon pergunta a seu novo chefe Jack Donaghy por que ele reformou um escritório que não precisava de reforma nenhuma: Sometimes you have to change things that are perfectly good just to make them your own, “Às vezes você tem de mudar coisas que estão funcionando perfeitamente bem só para que elas fiquem com a sua cara”.

30 Rock

Aliás, é esse desejo doentio de autonomia que faz com que as pessoas sintam que o Papa / o governo / a burguesia / George W. Bush / Antonio Gramsci está dominando suas consciências e venham a público pedir uma medalha por suas demonstrações de autonomia intelectual. Porque, como Dostoiévski mostrou em Memórias do subsolo, as pessoas não querem ser autônomas, mas querem ser vistas como autônomas. Ser autônomo (aliás, autônomo = aquele que faz a própria lei), na solidão do seu apartamento, da sua consciência, longe do aplauso dos homens... Não, obrigado.

Agora, podemos dizer que esse desejo não só não é a natureza do homem, como é até contrário a ela; e, no entanto, é tão comum que sua contenção por meio da violência unânime foi o fundamento mesmo da cultura humana.

Memórias do subsolo

E a cooperação não ocorre apenas no interior de uma sociedade. O direito internacional privado ocidental emergiu das cooperações voluntárias fora das cidades européias. Se a cooperação não fosse percebida como mutuamente benéfica (ou seja, vantajosa para o agressor), ciclo de violência algum seria interrompido. A grande sociedade decorre da compreensão de que cooperar vale mais a pena (é mais produtivo, lucrativo, benéfico) do que a violência ou o isolamento.


O direito internacional privado e a grande sociedade decorrem do fato de que no direito interno e na pequena sociedade já havia contenção suficiente da violência. Mesmo no direito internacional público as primeiras salvaguardas são contra a violência física: não matarás o embaixador.

Depois disso, as entidades concordam sobre quais condutas seriam violentas e prometem não as praticar.

Mesmo o comércio mundial é hoje regulado pela OMC, que possui muitas regras para atos percebidos (ou justificados) como violentos. Salvaguardas, tarifas, protecionismos. Não gosto dessa realidade, mas o caminho para o livre comércio terá passado pela via política, isto é, de contenção do que se percebe como violência.

Talvez o que mais me intrigou no texto foi um positivismo jurídico velado, detectável quando Sette-Câmara define ordem como “a possibilidade de aplicar uma violência unânime — isto é, ‘legítima’ — contra aqueles que praticam a violência individualmente, em revide ou de motu próprio“; ou quando ele define assim a propriedade de um objeto: “ele é meu porque se alguém tentar tomá-lo de mim a lei brasileira me autoriza a reagir e, em última instância, promete jogar o aparato violento do Estado contra essa pessoa.”

A primeira parece indicar que a dominação permanente se legitima por substituir a violência esporádica. A segunda, que o poder dominante é a fonte do direito. Tenho dúvidas que Sette-Câmara corroboraria uma dessas duas posições, mas seu texto se abre a uma interpretação que afunda a filosofia da justiça na concepção de poder, de que might is right.


Acredito que existem direitos naturais, mas que no mundo terreno eles só podem ser aplicados por um aparato repressivo.

Aí é que está o paradoxo terrível. Quando você, ocidental, acredita em direitos naturais, em direito à vida, a não ser forçado a adotar uma religião etc., você não acredita mais em aplicar a violência contra o seu inimigo externo, que não acredita nisso. Ele, no entanto, não tem problemas em ser violento. The best lack all conviction, while the worst are full of passionate intensity. Você vai ser razoável, e ele vai esfolar você vivo e pendurar a sua pele na parede.

Sobre a dominação interruptora do ciclo de violências legitimar um arranjo institucional é algo que me parece intuitivamente falso. Deve a guerra ser menos legítima que o campo de concentração? Não é melhor morrer como soldado do que como prisioneiro? Mesmo que se prove a necessidade da dominação, ainda é possível imaginar um grande espectro de arranjos institucionais que vai do melhor ao pior. A legitimidade, ainda assim, dependeria do critério de hierarquia entre melhores e piores.


Bem, é algo que me parece intuitivamente verdadeiro.

A beleza da teoria do bode expiatório está no seguinte: não é que seja preciso “provar a necessidade da dominação”. Ela acontece naturalmente. Os liberais se unem todos os dias para fazer da esquerda bode expiatório e assim ganhar unidade de identidade. A esquerda faz a mesma coisa com os liberais. A teoria do bode expiatório liga as gêneses de Estado, rito e cultura enquanto sistema de diferenciações.

A questão sobre ser melhor morrer como soldado ou como prisioneiro, em abstrato, sugere que a resposta cristã e ocidental é: como prisioneiro, porque Cristo foi um prisioneiro e porque Sócrates diz no Górgias que é melhor sofrer a injustiça do que praticá-la.

De todo modo, quando foi mesmo que um liberal defendeu uma boa guerra?

No que diz respeito ao “realismo” do direito de propriedade, quero apenas levantar um problema econômico inevitável que se enfrenta ao tomar o estado como causa necessária (mesmo que não suficiente) da existência dos direitos. No dia a dia, a garantia da maior parte de nossas transações e interações sociais depende primariamente de mecanismos de reputação, moralidade, e de segurança pessoal, e apenas secundariamente de mecanismos de coerção estatal. Se alguém entrar em sua casa e furtar o computador do Pedro, a probabilidade do “aparato violento do Estado” ser jogado contra essa pessoa é minúscula. Basta contar a porcentagem de casos de furto resolvidos pela polícia carioca. Os positivistas não compreendiam os custos reais de execução da lei e de organização da ação coletiva. Se a definição de Sette-Câmara estivesse correta, um objeto deixaria de ser seu quando esses custos superassem o valor do bem.


Creio que é a própria idéia de custo de oportunidade que resolve a questão. Os ladrões estimam que entrar no meu prédio (ok, ele fica na quadra da delegacia) e roubar meu computador não vale o possível custo dessa ação. Aí você pode dizer que eu sou um privilegiado, que moro numa área mais protegida etc. E você terá toda razão. Um dos principais problemas do Brasil é que o crime compensa, que o custo de oportunidade de não ser criminoso é muito alto. Há pouca punição para a transgressão. A competitividade violenta (“o computador era do Pedro; agora é meu”) está alastrada pela sociedade.

Em qualquer arranjo institucional, a violência, ou a dominação, será uma peça central, mas que não encerra o quebra-cabeça. As teorias sociológicas da violência não podem ignorar a importância das contribuições da economia e da filosofia da justiça para o estudo da sociedade.


Concordo. Creio que o arranjo liberal é mais eficiente para a prevenção da violência competitiva entre os membros de uma sociedade, e que cabe ao Estado administrar os interditos à violência. Quando existe ordem, as pessoas podem afirmar sua autonomia lendo Richard Dawkins e dizendo ao mundo que o Papa é bobo e chato e feio, e não batendo com clavas na cabeça de outras pessoas.

Um exemplo claro disso está na tragédia dos comuns. O que falta para resolvê-la? Um interdito eficiente contra a competição violenta. Não sei quem inventou o nome “tragédia dos comuns”, mas acertou em cheio: o nome é muito, muito mais profundo e correto do que sonham os economistas.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O estilo baço




Enquanto não encontro o tempo devido para retomar as discussões do momento, deixo aqui um trecho de um ensaio de Auden que diz respeito a uma antiga preocupação minha, e que também vai como um acréscimo a um antigo post de Érico Nogueira. Interessante é observar que Érico fala em "poesia dramática", que Ezra Pound decerto diferenciaria de "teatro em versos". O encontro entre a poesia e o drama, senhores, é mais raro do que se imagina (ou quiçá impossível).

Uma outra observação, lamentando que no momento eu só possa mesmo fazer observações, é que a solenidade parece ter-se tornado inviável. As tragédias contemporâneas — penso em Tennessee Williams e Nelson Rodrigues — não têm personagens "elevados", mas pessoas comuns. Creio que isso se deva à própria dessacralização da política. Hoje é impossível não imaginar uma aula de literatura em que não se diga que a promessa feita por Édipo no início de Édipo Rei de livrar a cidade da peste é uma espécie de "populismo". Não esqueçamos ainda de que é mais fácil um rico entrar no Reino dos Céus do que um comentarista conseguir não reduzir Antígona a uma espécie de dissidente política. Sempre tenho a impressão de que ainda vão querer julgar Creonte na Corte de Haia por violações de direitos humanos. Se você acha que estou exagerando, pode ficar sabendo que o nobelizado Seamus Heaney, ao ser convidado para fazer uma versão de Antígona , declarou ter encontrado a motivação para o trabalho em George Bush...

(Não digo isso para reclamar da dessacralização da política, pelo contrário. Prefiro mil vezes o Lula a um sujeito que se ache descendente dos deuses ou ungido por Deus. O que não posso é fingir que isso não tenha conseqüências para a literatura.)

Agora que escrevo, percebo que essa versão de Heaney provavelmente encarna tudo aquilo a que Auden se refere; e que provavelmente os tragediógrafos gregos já evidenciam essa dessacralização, ao menos em suas atitudes (Ésquilo sendo "mais sacro" e Eurípides menos). Mas a arte é longa, a vida é curta, e vou deixar vocês com Auden.

A julgar pelos poemas que escreveram, todos os poetas modernos que admiro parecem compartilhar minha convicção de que, na época atual, a poesia que pretende ser falada ou lida não pode mais ser escrita em estilo elevado, nem precioso, mas apenas em estilo baço [drab], usando esses termos no sentido com que C. S. Lewis os usava. Por estilo baço refiro um tom de voz calmo, que deliberadamente evita atrair atenção para si, enquanto Poesia com P maiúsculo, e uma certa modéstia nos gestos. Sempre que um poeta moderno levanta a voz, ele, como se fosse um homem usando peruca ou sapatos de plataforma, me causa um certo desconforto.

Tenho as minhas teorias — e imagino que meus colegas também tenham as deles — sobre por que as coisas são assim, mas não vou entediá-los infligindo-as a vocês. Para a poesia não-dramática, isso não cria nenhum problema; mas, para o drama em versos, cria. Ao escrever suas peças em versos, Eliot tomou, creio, o único caminho possível. Excetuando alguns momentos peculiares, manteve o estilo baço. Não consigo acreditar, porém, que ele tenha ficado muito feliz por ter de fazer isso, pois atuar em público é, como dizemos, “fazer cena”; isso é coisa que um estilo elevado pode fazer despudoradamente, mas um estilo baço é obrigado a fingir que não está “fazendo cena”. O que tentei mostrar foi que, enquanto forma de arte que inclui palavras, a ópera é o último refúgio do estilo elevado, a única arte para a qual um poeta nostálgico daquelas épocas passadas, em que os poetas podiam escrever de modo grandiloqüente por si próprios, ainda pode contribuir, desde que se dê ao trabalho de estudar o métier e tenha a sorte de encontrar um compositor em quem acredite.

W. H. Auden, “The World of Opera”. Secondary Worlds. Faber and Faber: Londres, 1968. p. 102


Leia o trecho no original.

Para um breve resumo do que C. S. Lewis quis dizer com drab style, ver este trecho do livro de Arana sobre Auden.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Mob rule

Eu mesmo defendo até a redução da maioridade penal para 16 anos, mas creio que fico mais assustado ao ver que a justiça brasileira cede ao desejo de vingança (também conhecido como "indignação") da população em vez de manter decisões tomadas dentro do processo legal. Isso, como diziam os lordes ingleses d'antanho, não é lei, é mob rule.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Liberdade, ordem & paz

Li os artigos de Olavo de Carvalho e de Diogo Costa sobre ordem e liberdade e devo dar uma terceira opinião — talvez mais próxima da opinião de Olavo de Carvalho, por fazer com que a ordem de certo modo anteceda a liberdade. Minha opinião, porém, depende de um certo entendimento de “ordem” e de um certo entendimento de “liberdade”. No momento, não tenho os meios de reunir o que os dois disseram e procurar um denominador comum. Esperemos que alguém possa fazê-lo. Quiçá o Bruno Garschagen.

Num texto anterior, falei de como um dos problemas do Brasil era o excesso de competitividade: competimos no trânsito, nas ruas, nas pequenas transações cotidianas, partout. Como o espaço de não-competitividade é muito pequeno, não concentramos nossa inclinação para competir em nenhum terreno em particular — nos negócios, por exemplo — e por isso parecemos dispersivos. Gastamos nossa alma com raiva do sujeito que andou no acostamento, que contou uma mentira para tentar ganhar uma esmola, que simplesmente brandiu a lei e cobrou um imposto abusivo. Estamos nos defendendo o tempo todo, sempre cientes de que o gafanhoto pode vir e comer o pouco que acumulamos. Temos a sensação de ter pouca liberdade.

Por isso é que vou definir “liberdade” como a possibilidade de ação sem revide violento, observando que, por “revide violento”, entendo atos contra a vida, a saúde e as propriedades, e “ordem” como a possibilidade de aplicar uma violência unânime — isto é, “legítima” — contra aqueles que praticam a violência individualmente, em revide ou de motu proprio. Nesse sentido, “garantir a ordem” e “garantir a liberdade” seriam a mesma coisa: aliás, a função primária do Estado. Se existe a possibilidade de ação sem revide violento, posso inventar um produto que destrua indústrias inteiras e acreditar que não serei assassinado. Posso dizer o que penso sem ser linchado; posso até dizer o que não penso e supor que não serei linchado, ou ao menos que os linchadores sofrerão sanções violentas legítimas.

Uma vez que o Estado cumpra a sua função de conter e gerenciar a violência — aquilo que Adam Smith chamou de “uma administração tolerável da justiça” — , as pessoas podem competir de modo frutífero, e não sanguinário. Essa contenção da violência, porém, pressupõe a possibilidade perene de administrar a violência contra o transgressor interno e contra o inimigo externo. Não se pode fingir que os vizinhos não cobiçam o território que se ocupa; eu mesmo creio que os vizinhos do apartamento ao lado ocupariam rapidamente o apartamento onde moro se acreditassem que a minha resistência seria insignificante.

Nesse ponto, é preciso explicitar um pressuposto. Todo o meu raciocínio depende de crer que a violência é o estado natural do ser humano. Sim, eu creio nisso. Falo em garantir a ordem como se isso fosse igual a garantir a liberdade, e creio que as duas coisas estejam muito próximas de garantir a paz. Se você julga que o ser humano é naturalmente pacífico e não violento, um verdadeiro Adão recém-criado, não um filho de Caim, então de fato não temos bases comuns.

Retornando, e aproveitando para recomendar um post de Mencius Moldbug que toca no assunto, é preciso salientar que a ordem nasce da proteção contra o inimigo externo. A manutenção de qualquer sociedade depende de que seus membros efetivamente acreditem em certos mitos. Ser americano não é simplesmente acreditar na liberdade e no princípio de no taxation without representation, mas acreditar nisso contra o Rei George III. Houve, num dado momento, a possibilidade de atribuir o mal a um inimigo e combatê-lo; se antes ele não era exatamente externo, depois passou a ser. Foi “morto”, banido, sacrificado como bode expiatório. Foi a vitória das colônias na Guerra de Independência que criou a land of the free and home of the brave. Assim, parafraseando Adam Smith, o padeiro e o açougueiro americanos não estão apenas seguindo o seu interesse próprio ao vender pão e carne, estão também seguindo seu interesse comum de manter os ingleses longe e de viver segundo o esquema de diferenciações — a ordem jurídica, com todos os seus títulos de propriedade — que nasceu da violência que os expulsou.

O surgimento da ordem após a violência contra o bode expiatório é perfeitamente “espontâneo”. É um fenômeno universal. Não sei se é desse tipo de “espontaneidade” que Hayek está falando, mas tendo a suspeitar de que ele se refere às ordens espontâneas que surgem uma vez que existam proteções eficazes contra a violência, e a mais eficaz destas é o direito de propriedade. Nunca consegui aceitar a idéia de uma qualidade “metafísica” da propriedade, como se este computador em que escrevo fosse meu por alguma configuração intrínseca à minha pessoa e à natureza deste objeto individual. Não: basicamente, ele é meu porque se alguém tentar tomá-lo de mim a lei brasileira me autoriza a reagir e, em última instância, promete jogar o aparato violento do Estado contra essa pessoa. A propriedade é uma diferenciação social.

***

Reparem em como parecemos ter chegado a uma crítica marxista. Marx dirá que as proteções contra a violência, aquilo que eu e você entendemos como “direitos humanos” — o direito de não ser torturado, escravizado etc. — são meros direitos burgueses. Reduzindo a crítica marxista a termos girardianos, entendemos que há nela a noção de que a proteção contra a violência precisa ser estendida a outras áreas, sobretudo a área do trabalho. Eis a disputa do século XX a respeito da elaboração entre uma Carta de Direitos Humanos no âmbito da ONU, com os países ocidentais querendo incluir os direitos humanos “tradicionais” e a URSS querendo incluir direitos econômicos, sociais e culturais. Liberais (ou conservadores) podem crer que a sociedade é “justa” se os direitos humanos e os direitos de propriedade e igualdade perante a lei estiverem assegurados; marxistas dirão que isto é muito pouco e, na verdade, é apenas uma manipulação da burguesia para assegurar seu status (vide a importância do direito de propriedade). Talvez, aliás, possamos dizer que a diferença entre direita e esquerda é justamente que a direita tem um entendimento limitado da violência e pretende contê-la até um determinado ponto (por exemplo, não seria violência uma empresa vencer outra sem usar roubo e assassinato), e a esquerda tem um entendimento muito mais amplo do que seja a violência e de como ela deve ser administrada. A idéia de que a “história acabou” com a consolidação das democracias liberais seria a idéia de que todos os direitos que deveriam ser assegurados já foram assegurados; a idéia de que a história não acabou é a idéia de que é preciso continuar lutando para assegurar mais direitos e, com isso, uma certa espécie de ordem, “mais justa” que a atual.

É nesse sentido que o esquerdismo parece uma paródia do Cristianismo, um verdadeiro anti-Cristianismo: por esperar que as condutas não-violentas (como oferecer a outra face) que Cristo pediu a cada indivíduo sejam realizadas por lei, por um sistema jurídico, que, com a abolição da propriedade, instalaria uma situação violentíssima, porque aquilo que é de todos não é de ninguém, e pode ser usado de qualquer maneira sem temor de sanção violenta e legítima porque unânime.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Breve nota sobre a primazia do passado

Em “The World of the Sagas”, o segundo ensaio de Secondary Worlds, W. H. Auden propõe a tese de que as sagas islandesas são uma forma de realismo social.

Fiquei imaginando que a investigação dessa tese valeria um ensaio interessante, que teria de primeiro encontrar alguma definição socialmente aceita de — redundância inevitável — realismo social. Essa definição deveria ter surgido ou como uma proposta que deu origem a certas obras, ou como uma reunião de características de certas obras que passaram a ser classificadas como “realismo social”. Nos dois casos, porém, o aspecto convencional, isto é, daquilo que é socialmente aceito, teria de prevalecer. Inventar uma definição de realismo social para dizer que as sagas islandesas pertencem a esse gênero seria um mero truque retórico, que se aproveitaria do interesse gerado pelo contraste improvável entre algo tão aparentemente moderno quanto “realismo social” e algo tão aparentemente arcaico quanto “sagas islandesas”, sem, na realidade, demonstrar a semelhança entre os dois elementos.

Logo depois de imaginar isso, recordei que esse é um dos principais métodos de determinação do dogma católico: a determinação daquilo que é aceito há mais tempo e por certas pessoas, de modo a assegurar uma continuidade de crenças. Uma pergunta fundamental, diante de uma dúvida sobre a existência ou a inexistência de uma crença, é se um determinado grupo de pessoas — os apóstolos, os Padres da Igreja — a compartilhariam ou não. Assim, o método para saber se as sagas islandesas são uma forma de realismo social teria alguma semelhança com o método para saber se o Papa é mesmo infalível em questões de doutrina.

A principal diferença, é claro, é que, nesse nível, os gêneros literários só têm existência social, isto é, realismo social é aquilo que for aceito como realismo social. Assim como os autores literários têm de capturar seus leitores, também os críticos têm de convencer o público de suas definições. O dogma católico, porém, se refere a um objeto que existiria independentemente de sua formulação dogmática: se o Papa é infalível, é infalível mesmo que a Igreja nunca formule a doutrina da infalibilidade.

Permanece entretanto a semelhança do método de como chegar a uma determinada tese: a investigação histórica e a comparação literária, com o passado servindo de modelo (isto é, sendo mais do que mera informação) e de perspectiva.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Uma base estratégica para a retórica liberal

Meu texto propondo causas liberais teve uma boa repercussão:

As pautas liberais, de um autor cujo nome não identifiquei;
10 ações de minha agenda política, de Igor Taam;
Quais devem ser nossas prioridades?, de Diogo Costa;
Propaganda governamental, de Luciana Lopes.
Três propostas — e muitos debates, de Flamarion Daia Júnior.

Julgo que ainda preciso me estender sobre a primeira das causas que defendi, e que é, para mim, a mais importante: a discriminação obrigatória entre preço e imposto em todas as notas fiscais.

Muitos liberais querem dar uma de imaculados e equacionam as coisas erradamente. Não creio que exista a escolha de Sofia entre ser um perdedor cheio de razão e um vencedor que precisou corromper-se. Existe, pelo contrário, a escolha entre ficar num mundinho de sonhos, achando-se puro e lindo, e entender a situação imediata e questionar-se sobre o liberalismo possível. Na primeira opção, temos boa parte da situação atual, em que a defesa do liberalismo não passa de um passatempo burguês relativamente inconseqüente, que assume a nobre pose de “defesa de idéias”. Defender idéias é fácil, veja só: a verdade é boa e a mentira é má. Pronto, está defendido. O difícil é convencer as pessoas, e o sucesso da retórica depende da adesão da platéia.

Há muito tempo me pergunto, e não sou nada original nisso, por que posturas liberais não encontram mais interesse no Brasil. As pessoas gostam da prosperidade que o mercado traz, mas por que não juntam A com B? Penso que existem razões diferentes para isso, e agora vou explicar uma delas (e, posteriormente, outra razão).

Aristóteles explica na Retórica que o entimema é o mais poderoso recurso persuasivo. Ok, ele estava falando de discursos dirigidos aos homens livres de Atenas, isto é, uma pequena elite altamente educada. Hoje parece haver uma preferência pelo exemplo enquanto instrumento de persuasão, mas até o exemplo me parece estar baseado num entimema. Explico. O entimema é um silogismo de premissa maior oculta, com a qual o ouvinte já concorda de antemão. Se eu digo “aquele cara é nazista”, você já acredita que o nazismo é mau e você mesmo tira a conclusão de que “aquele cara” deve ser preso ou punido de alguma forma. Os guetos ideológicos, os grupos de amigos e todos os meios relativamente homogêneos compartilham essas premissas maiores de modo implícito. As estratégias de manipulação ideológica, por sua vez, tentam operar no terreno dessas premissas implícitas, e não no terreno das premissas menores e das conclusões. Agora você pode estar pensando que chegamos ao ponto em que vou defender a manipulação ideológica em favor do liberalismo. Nada disso.

Quando escrevi defendendo a discriminação obrigatória entre preço e imposto nas notas fiscais, meu objetivo era sugerir que isso contribuiria para explicitar e questionar uma premissa maior que parece onipresente no Brasil: a idéia de que o Estado é uma espécie de força mágica, movida a “vontade política”, capaz de resolver qualquer problema. Você não tem essa sensação em relação à sua vida privada. Você sabe que tudo tem um custo. Mesmo que você seja muito rico, tudo tem um custo de tempo: fazer algo é não fazer outro algo. Ainda assim, você pode acreditar que o Estado, como Deus, é capaz de abolir a fome, a doença, o crime e a pobreza, e ainda promover o turismo, criar filmes e programas de TV, tudo ao mesmo tempo. As pessoas que defendem esse grande e sensacional Estado onipresente nunca são obrigadas a responder à seguinte pergunta: “Tudo isso é muito lindo, mas quanto você quer pagar por esse Estado que já existe? Ah, você não sabe que já paga um bocado? Acha pouco? Quer pagar mais? Mas além de você querer que o Estado acabe com a fome no Brasil, você não achava que ele ainda deveria pagar operações de mudança de sexo? Acha que isso não custa nada, é?” E assim as pessoas começariam a medir o quanto pagam por ruas esburacadas, por segurança deficiente, por burocracias infindas, e saberiam que cada uma de suas idas ao cinema com jantar depois poderia custar talvez metade do que custa... Mais importante, talvez elas entendessem que achavam que o Estado era uma força mágica e, quando vissem na TV que agora o governo vai dar isso ou aquilo, perguntassem: “E quanto custa esse negócio?”

O fato é que não é possível discutir a sério como é o Estado que se quer, mínimo, médio, empresário, regulador etc. enquanto existe a possibilidade de um Estado máximo e divino que depende apenas da boa vontade para nos levar aos vales onde jorra o leite e o mel. É claro que esse Estado divinal é preferível, e é sua impossibilidade que precisa ser sentida, mais do que demonstrada, para que as pessoas excluam as opções inviáveis de suas mentes. Querer o Estado divinal é como recusar as mulheres que existem porque só Helena de Tróia seria uma opção aceitável. Esse é o sentido político imbecil da frase "sejam realistas, peçam o impossível". (E Helena de Tróia não apenas não existe como, se existisse, ainda fugiria com outro sujeito.)

Não creio que haja jeito mais eficaz de promover o questionamento dessa premissa, que na verdade seria o primeiro passo para a maturidade do eleitorado em geral, do que tornar obrigatória a discriminação entre preço e imposto nas notas fiscais. Porque o povo brasileiro pode ter pago um trilhão de reais em impostos, mas isso me dói muito menos do que os poucos reais que deixei hoje em impostos no supermercado.

Os movimentos revolucionários em grande parte opuseram a religião ao Estado, fazendo daquela o bode expiatório a ser sacrificado pelo grande herói do secularismo. A questão política que se coloca é saber se temos maturidade para duvidar do Estado, questionar sua divindade, e ainda assim mantermos a ordem. A experiência americana sugere que isso é possível. A consciência de estar pagando muitos impostos, sempre, aumentaria o desejo de autonomia e, espera-se, de responsabilidade própria. Aqui, me parece, está o início de um programa liberal possível, a causa que pode abrir espaço para outras causas, as mais variadas, e para uma cultura política mais adulta, menos poluída pela crença no Estado-babá.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Canção do Narciso maduro

Qual Narciso maduro prestes a vingar-se,
abre os olhos, enxerga nada além do espelho,
e pergunta ao chão, teu destino e teu disfarce,
se aquilo na parede é um escaravelho.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.


Coisas há que apenas se praticam, jamais
são mencionadas; nem são feitas escondidas,
mas sempre à plena luz, e sem quaisquer sinais
que as apontem, perpetuamente protegidas.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.


Eis que vai sumindo a cidade na distância;
o caminho, somos nós que o vamos inventando;
nós podemos; sim; não queremos ambulância;
a certeza, somos nós que a vamos inventando.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Because I do not hope to turn again

ἄφες τοὺς νεκροὺς θάψαι τοὺς ἑαυτῶν νεκρούς

Ainda falta republicar muitos textos de 2007 e 2008, mas isso acontecerá nos próximos dias.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Peleguismo contra o caos

No dia 29 de janeiro, O Globo trouxe um artigo de Thamy Pogrebinschi que era, como direi?, um primor de entrelinhas, tão rico que o senso de prioridades me fez desistir de analisá-lo. Hoje o mesmo Globo traz a notícia de que o PT pretende criar um Conselho Nacional de Política Externa, paralelo ao Itamaraty. E há, entre o conteúdo dos dois textos, uma interseção interessante demais para não ser observada.

Thamy Pogrebinschi falava sobre as conferências de direitos humanos, todas “convocadas pelo Executivo”. O Conselho Nacional de Política Externa teria a mesma liderança do Executivo, que pagaria as contas, estabeleceria a pauta, redigiria as conclusões e, mais uma vez, diria que tudo foi um “processo democrático”, no grau máximo de ternura sem endurecimento.

Agora, o governo não é burro e sabe tanto quanto seus opositores que sua estratégia contém o uso de elementos caóticos e desestabilizadores, como o MST. Suponho que pouca gente de terno e grava em Brasília realmente acredite que os movimentos radicais sejam uma fonte de ordem. No entanto, são uma excelente arma de intimidação, que pode ser contida e, portanto, utilizada, por meio do velho peleguismo de Vargas.

Getúlio Vargas, presidente da república, criou sindicatos e neles colocou seus aliados, os “pelegos” para “conter o avanço do comunismo”. Aliás, até senti a tentação de dizer que somente a perspectiva de uma estratégia de contenção do comunismo é que pode explicar a formação de sindicatos pelo próprio governo, mas uma vista mais ampla me lembrou que, no Brasil, nada nunca sucedeu de baixo para cima, da pequena comunidade para o país, e que o peleguismo de Vargas assume uma proporção mais razoável quando visto contra esse fundo.

Revivendo Vargas, o PT se vale desses “movimentos sociais” e os controla por meio de iniciativas que nascem no Executivo e são pagas pelo Executivo. Faz-se um documento, que, se for aprovado por omissão ou distração, agradará a todos. Se não for, é sempre possível culpar a sociedade conservadora, o próprio jornal O Globo etc. De todo modo, meia dúzia de líderes radicais ganham viagens internacionais em comitivas, ficam em bons hotéis, fazem apresentações e assim passam a achar-se líderes revolucionários celebrados pelas pessoas inteligentes do mundo inteiro. Trocam a sua revolução pelo prato de lentilhas do afago, e ainda se acham muito espertos. De volta à casa, eles seguram as forças caóticas que têm nas mãos e as alinham ao programa oficial.

Quando isso era feito por Vargas, era chamado “peleguismo”. Hoje é “democracia”, “socialismo do século XXI”.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Fosse eu o marqueteiro do PSDB...

...diria que Dilma Roussef vai trazer de volta a inflação. Para ser bem sincero, eu acho que a inflação era o grande flagelo do Brasil, que a única coisa que traz satisfação a todos os brasileiros (até uma certa idade) é o controle da inflação. A inflação era a peste negra, a praga do Egito. Sei que essa percepção também faz de FHC uma espécie de herói que matou o dragão (ah, era o Collor que falava em “matar o dragão da inflação”), mas consigo suportar com a maior boa vontade com o culto da figura de um ex-presidente se isso ajudar a manter a inflação controlada. Afinal, muitas liberdades foram preservadas nos EUA graças ao culto das figuras de meia dúzia de senhores de escravos que tiveram o apoio da monarquia absolutista francesa. Bem-vindos ao mundo real, amigos liberais idealistas. E não me chamem de cínico, que eu creio em Deus, não no homem.

Enfim. Eu mostraria filmes com pobres tendo perda real de renda por causa da inflação, sem poder pegar ônibus, sem poder fazer nada. O governo diz que vai desenvolver e transforma o país em paraíso de especuladores. O governo é cúmplice dos especuladores e vai trazer a peste de volta, para aniquilar o povo. Entra então uma cena de Dilma Roussef rasgando a “Carta ao povo brasileiro”, do próprio PT. Pronto, aí está o bode expiatório, o Judas Iscariotes.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Invictus e as causas liberais

Fui ver Invictus. É um filme excelente. É um filme que segue o princípio que enunciei ontem: os inimigos se unem em torno de um outro inimigo que lhes seja comum. Mandela une brancos e negros na África do Sul por meio da vitória da seleção nacional de rugby contra as seleções estrangeiras. A vitória esportiva é uma espécie de violência de mentirinha que tem um efeito similar à violência coletiva verdadeira. As competições esportivas se baseiam nisso. Os torcedores delegam sua identidade aos jogadores e, por meio da vitória destes, sentem sua identidade coletivamente afirmada. Creio, aliás, que os jogos da seleção brasileira exerçam tanto efeito sobre a população exatamente porque não temos a memória de uma violência real que nos unisse contra um inimigo externo. Por isso, de quatro em quatro anos os brasileiros vão em busca de afirmação.

Tornando à história do filme, que vou presumir que é fundamentalmente verídica, um liberal como eu poderia pensar que não é função do presidente da república ficar apertando mão de jogador, nem pedindo a capitão de time que vá vencer a Copa de rugby, mas uma pessoa sensata como eu espero ser não pode negar que o primeiro problema da África do Sul pós-apartheid e pós-eleição de Mandela era evitar uma tensão racial permanente que se transformasse numa guerra civil ou numa violência alastrada à la Zimbábue. A questão não é abstrata, não é decidir se cabe a um presidente fazer isso ou aquilo, mas entender que se o governo, os representantes da violência legítima (isto é, unânime, como a violência contra criminosos), não apaziguar as tensões internas da África do Sul não vai haver federação, não vai haver direitos, não vai haver nada. Seria o apogeu da idiotice dizer que as manobras de Mandela não passam de um abuso de seu cargo.

E aqui chego às causas que propus ontem. Elas seriam causas, não exatamente “idéias”. Não seriam maneiras de fazer com que os liberais concordassem entre si, porque não creio que isso seja possível, e não tenho muito interesse no impossível. Elas não devem ser analisadas pela ótica da competição pelo Maior Grau de Pureza Libertária. Elas representariam apenas um passo estratégico, de retórica coletiva, e ficaria feliz se elas fossem discutidas assim. Acho que a discriminação entre preço e imposto traria às pessoas uma consciência de que carecem imenso: a consciência de que o governo lhes custa muito mais, individualmente, do que imaginam. Na hora em que todo mundo começasse a sentir no bolso o quanto as coisas custam, talvez começassem a achar excelente que o governo não oferecesse tantas coisas. A supressão de propagandas estatais, além de economizar muitos recursos (por que não perguntar, ainda que de modo pouco libertário, quantos doentes deixam de ser atendidos a cada vez que passa um comercial na TV?), daria ao cidadão uma percepção mais seca do governo, cuja função, certamente, não é a de seduzir as pessoas. A adoção de algo como a probable cause melhoraria até as relações raciais — o policial seria obrigado a dizer que está parando um sujeito porque ele tem excesso de melanina e pensaria duas vezes.

Talvez estas não sejam as melhores causas (talvez sejam infactíveis), nem as mais prioritárias. Mas a questão não é essa. A questão é que alguma causa é prioritária, e sua prioridade vem do mero fato de estar entre as opções disponíveis, aliado ao fato de ser aquilo que mais contribui para uma estratégia de longo prazo. Não vai existir uma vanguarda leninista liberal que tome o poder, dissolva o governo e grite: “Privatizai o mundo!” Todavia, há algo que se pode fazer. Um belo dia foi possível optar entre o Plano Real e o desenvolvimentismo à antiga. Será o Plano Real um sonho libertário? Essa questão é menos relevante do que escolher entre aquilo que o cardápio oferece, a relativa estabilidade e a inflação galopante associada a maluquices do governo. Ficar no sonho é entrar no restaurante e não comer nada, indignado, esperando que o pé-sujo em que você se encontra se transforme na alta gastronomia que você só consegue imaginar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Causas importantes para os liberais brasileiros

Fico pensando se não há causas prioritárias para o movimento liberal no Brasil, prioritárias porque ajudariam na consecução de outros objetivos. Os liberais nunca vão se unir positivamente, os retardados sempre vão achar que eu sou socialista só porque sou católico (já vi isso, mas quem falou também já tinha escrito que a existência de uma hipótese valia como refutação, então ele está protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e não deve ser mencionado), os rothbardianos vão achar que eu sou socialista porque acho que o Estado deve existir, e os sociais-democratas mais liberais sempre vão achar que eu sou um maluco radical anarquista.

No entanto, somos unidos por aquilo que sempre une as pessoas que têm desavenças e discordâncias e diferenças de identidade: um inimigo comum. O que será que é mais urgente, e traz menos discordâncias, até mesmo entre não-liberais, e que poderia servir para dar norte ao movimento? Aqui vão três propostas, selecionadas por esse critério. Não coloquei coisas como “liberdade de expressão” porque até agora não temos nada de muito relevante sendo proibido ou “fim do alistamento militar obrigatório” porque o número de pessoas que não quer servir às forças armadas e vai contra a vontade é pequeno demais (até onde sei).

São só três causas. Vejamos.

1. A instituição obrigatória da discriminação entre preço e imposto em todas as notas fiscais, em todas as instâncias. Claro que não estariam discriminados os impostos em cascata, mas apenas os impostos que incidem sobre aquela operação. Digo isso porque saber que o Estado brasileiro consome 37% do PIB tem muito menos impacto sobre a minha vida do que saber que, ao gastar R$50 no posto de gasolina, deixei uns R$26 na mão do governo. Isso é o que podemos chamar de “efeito da piada do mineiro”:

Dois mineiros caminhavam pela estrada.

— Cumpadi, se ocê tivesse seis fazenda, ocê me dava treis?
— Dava, cumpadi, claro.
— E se ocê tivesse seis boi, ocê me dava treis?
— Dava sim, cumpadi.
— E se ocê tivesse seis camisa, ocê me dava treis?
— Não, camisa eu num dava não.
— Pur quê, cumpadi? Fazenda, boi cê dava...
— É que seis camisa eu tenho!


Por isso, bem, eu não tenho bilhões de reais, mas R$50 eu tenho.

2. A abolição de toda e qualquer propaganda estatal, inclusive de empresas estatais. A razão é simples. Propaganda é parte de uma estratégia de concorrência. Governo não concorre. Logo, não tem de anunciar. Não posso escolher morar no Rio e usar a prefeitura de São Paulo, nem morar no Brasil e me submeter às leis americanas. Logo, anúncio de governo é sempre, invariavelmente, e em 100% dos casos um mero instrumento de favorecimento de empresários. Tem de acabar. Eu até acho meio curioso que a direita brasileira não perceba que há uma ligação estreita entre um ex-editor e um ex-prefeito de São Paulo que, quando deixou a prefeitura e foi disputar o governo, secou a fonte publicitária de uma certa revista...

3. Uma emenda constitucional que fale, à americana, em probable cause, isto é, algo que acabe com o poder da polícia de parar pessoas a esmo e extorqui-las, ou, como preferem dizer, procurar criminosos. Isso é importante por uma razão simples: para que o país funcione melhor, os cidadãos não podem odiar a polícia, ao menos não tanto assim. Antes de ser parado pela polícia, o sujeito tem de ao menos exibir algum comportamento claramente suspeito (como dirigir erraticamente).

domingo, 31 de janeiro de 2010

As bacantes da Lei Seca

O processo pelo qual uma política pública ganha legitimidade aos olhos de ao menos uma parte da população pode ser inteiramente distinto do processo pelo qual uma política pública tem legitimidade perante as leis maiores de um país. Na frieza e na calma, as leis maiores são elaboradas com o princípio de evitar a perseguição a bodes expiatórios, e a sociedade ganha uma certa paz porque cada indivíduo acredita que ele mesmo não será vitimado para satisfazer os anseios de ninguém. Assim surge a idéia de delimitar a violência e de uma punição proporcional ao crime. A lei é, ou deveria ser, uma autoconsciência de nossa natureza violenta: é por sabermos que queremos o sangue dos bodes expiatórios que criamos o princípio constitucional de que ninguém será obrigado a produzir provas contra si mesmo. Para sacrificar o bode expiatório, precisamos acreditar na sua culpa; coagi-lo a admitir-se culpado é uma forma tão perversa de maldade que sua negação é mesmo um dos princípios basilares da justiça.

Esta é uma questão de Estado. O problema é que o Estado fica nas mãos de governos, e os governos são comandados por políticos. Os quais são eleitos pelo voto direto. E, para eleger-se e legitimar-se, eles precisam sacrificar bodes expiatórios. Collor era o “caçador de marajás” que ia “matar o dragão da inflação com um único tiro” — acho que nenhuma outra campanha presidencial que eu tenha presenciado se baseou tão fortemente no poder do herói para eliminar o Mal, e decerto isso tem a ver com a transformação posterior de Collor em bode expiatório. (Talvez só a legislação brasileira, com seus direitos de imagem etc. etc. etc., tenha impedido até agora a utilização desse material histórico em obras dramáticas — francamente, poucos episódios são tão interessantes, tão abertamente míticos, tão legitimamente trágicos, mas isso é outro assunto.) O fato é que todo político, para ganhar e manter apoio, precisa criar um bode expiatório e matá-lo, e ajuda muito na criação de um bode expiatório se ele já tiver cara de culpado.

Aí entra o motorista embriagado. Sem bater o carro, sem causar acidentes, sem matar ninguém, ele já tem mais cara de Caim do que o motorista sonolento, do que o motorista que dirige devagar demais. O motorista embriagado causa acidentes — eis uma afirmação que desperta a nossa fúria vingativa e legitima a violência contra ele. Acabamos por esquecer que no Brasil já existem legislação e jurisprudência bastante duras, e, creio, bastante sensatas, contra o motorista embriagado que causa acidentes. Sim, eu mesmo acho que, se você dirigir bêbado e matar alguém, você merece o mesmo tratamento que uma pessoa que tenha saído de casa de revólver na mão, e o Estado brasileiro (corrijam-me, abogados), com a idéia de “dolo eventual”, tem uma opinião semelhante.

O detalhe, nada pequeno, é que você pode dirigir embriagado — e não esqueçamos que, para os padrões draconianos da Lei Seca, ter feito uns bochechos com um produto com álcool para limpar a boca e ter tomado 10 doses de uísque não são coisas substancialmente distintas — e não causar acidente nenhum. O argumento de que, ao beber, você aumenta o risco, também é válido para o sono, para a empolgação com a música no som do carro, para a raiva do motorista que, num Honda ou num Toyota (as pessoas em Hondas e Toyotas sempre dirigem devagar), admira a 40 km por hora o fétido mangue da Linha Vermelha, com sua pitoresca casa flutuante, para a mera imprudência que pode haver em sair de carro no Rio em dia de chuva, para qualquer grande preocupação que perturbe a mente. A escolha do motorista embriagado, ou simplesmente do motorista que bebeu e continua tão capaz de dirigir quanto antes, demonstra a arbitrariedade da escolha e, com isso, a natureza da perseguição ao bode expiatório. Não são as ruas que estão ficando mais seguras: é o prefeito Eduardo Paes que está ficando mais bonito aos olhos das pessoas que, em vez de assumir suas responsabilidades e entender que há um risco em meramente sair de casa de carro, querem transferir o mal para aqueles de quem não gostam.

A fúria vingativa provocada pelo ressentimento difuso leva ao desprezo pelos princípios constitucionais. “Vamos encurralar de surpresa esse bando de bêbados e coagi-los a incriminar-se.” O Estado fica nas mãos do governo. A Lei fica na mão de aproveitadores. A sociedade fica à mercê dos políticos, que dirigem os recursos da polícia para a sublime causa de, indiretamente, angariar para eles votos e a reputação de justiceiros.

Um jornal como O Globo pode posar de razoável ao defender as blitzes da Lei Seca, e qualquer pessoa pode afetar indignação diante deste meu texto que as condena. Essa indignação é estruturalmente idêntica àquela que sentimos ao ver alguém afirmar a inocência do bode expiatório de nossa preferência. “Você defende o capitalismo? Então você é a favor da fome!” “Você defende a religião? Então você é a favor da dominação das consciências!” E no entanto, neste caso aqui, o raciocínio é simples: se você acredita que ninguém deveria ser obrigado a incriminar-se, então deveria defender, ainda que a contragosto, que ninguém seja coagido a usar um bafômetro. Isso sim é ser razoável, usar a razão, e não posar de razoável, que é o que o Globo faz e é aquilo que qualquer um faz, rico ou pobre, sofisticado ou tosco, quando quer praticar a violência e ainda assim parecer limpinho e ponderado. Aliás, a diferença entre a sociedade chique e a sociedade feiosa muitas vezes está apenas nos bodes expiatórios que uma e outra escolhem, e na clareza da arbitrariedade da escolha, com a ressalva de que sempre percebemos que os bodes expiatórios escolhidos pelos outros são arbitrários, e muito raramente chegamos a perceber essa arbitrariedade em nós mesmos. Por isso, não nos espantemos: uma gangue de apedrejadores pode ir de terno para o sacrifício, e outra pode ir em farrapos. O que vão fazer, porém, é a mesmíssima coisa.