quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Esperando o novo acordo ortográfico

Difícil é gostar do acordo ortográfico, e eu nunca vi uma única pessoa que o defendesse além dos gramáticos que o fizeram. É como se esses gramáticos tivessem inventado um imposto que beneficiasse o próprio ego, sabendo que, graças a uma imposição, milhões de pessoas no mundo inteiro agora poderão cometer novos erros ou policiar-se para não cometê-los. A súbita mão do fantasma oculto de Evanildo Bechara quer guiar-nos.

Eu mesmo não gosto do acordo ortográfico porque acho que a estabilidade da língua escrita é um bem que facilita a comunicação entre as gerações. Gostaria de mostrar a meus netos edições facsimilares de Os Lusíadas e deixá-los espantados com o fato de que séculos nos separam de Camões, mas não o idioma. Gostaria de não ter de "transliterar" Camões, ou de transliterar o mínimo. E se eu fosse escolher uma ortografia, seria aquela, a etimológica, que Fernando Pessoa usou para escrever Mensagem.

Também me parece evidente que não serão algumas mudanças ortográficas que vão ajudar a “unificar” o idioma. Não há como não sentir o gosto do português europeu quando lemos que alguém está a fazer alguma coisa, e não fazendo, e isso é só o começo. Há as diferenças de vocabulário – um amigo meu foi morar em Portugal quando criança e nunca se esqueceu da primeira vez que um adulto se referiu a ele como “o putinho”.

Eu trabalho com tradução e tenho de entregar meus textos com o acordo ortográfico. Comprei o corretor da Priberam e tudo bem. Mas só sei enunciar uma regra: não se acentua mais ditongo aberto em posição paroxítona. O resto é o corretor que faz. Ou então consulto o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, vulgo VOLP, vôupi (circunflexo pode?). Não posso deixar de pensar naquele diálogo de Platão (Fédon? Fedro?) em que Sócrates recusa a escrita porque vai acabar com sua memória. Nesse caso específico, eu poderia alegar que, pelo menos no que diz respeito à colocação de hífens, eu nunca jamais soube colocá-los, e não é agora que vou saber.

João Pereira Coutinho vem dizer na Folha que não se muda a língua por decreto. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, digo eu que se muda sim, e eis a experiência a demonstrá-lo amplamente. As editoras adotam o acordo, a imprensa adota o acordo, os concursos públicos adotam o acordo (e o brasileiro que não escreve profissionalmente só escreve em prova de concurso), o ENEM adota o acordo e por isso a escola adota o acordo etc. etc. etc. É duro admitir, mas a maleabilidade da língua portuguesa no Brasil a decretos está intimamente ligada à fraqueza da sociedade civil.

Complemento ainda com o seguinte, que já devo ter dito por aqui. Você entra numa Faculdade de Letras e lá estão os linguistas. Há lá os linguistas que só estudam as estruturas e o uso e tal, e são gente boníssima. Nunca falam da prescrição gramatical e aprendi um bocado com essas pessoas, que me mostraram que o que Chomsky tem de palhaço falando de política, tem de gênio falando de linguagem. Mas há também um bom grupo de professores que passam o dia falando mal da Nomenclatura Gramatical Brasileira, vulga NGB, e do ensino nas escolas. Ora, a NGB foi instituída por uma portaria do então Ministério da Educação e Cultura em 1959. Logo, a questão é de fato jurídica. Claro que alguém pode se perguntar se é função do Estado decidir regras de acentuação ou definir o que é um substantivo, mas isso, enfim, é uma questão de como as coisas deveriam ser, e não de como elas são.

Então, como diriam os paulistas, esses professores que só fazem falar mal da NGB (e eles nem estão errados no que dizem) também fazem outra coisa, que é falar de como as coisas deviam ser. E esse processo já deve ter algumas décadas. O establishment linguístico, digamos assim, não tem defensores ideológicos, não tem seus intelectuais orgânicos. Quem dá aula em cursinho e ensina a língua tal como cobrada em provas também tem lá suas críticas e não fala disso porque, bem, ganha-se por hora, e se o aluno fosse fazer Letras não precisava de cursinho.

Esses professores ainda não estão satisfeitos com o acordo atual. Eu sei que antes de morrer verei novas modificações. Há quem queira acabar com todos os acentos, há de tudo. O mesmo fantasma que há alguns anos subitamente lançou sua mão voltará, apenas com outro nome. Não se trata, como falei, de um fantasma oculto, mas de um espírito de permanente reforma, animado por aquele progressismo ressentido que acha que a “ciência” é a maneira mais elegante de esconder uma sensibilidade pobre e a sensação de estar “excluído”, mesmo que o governo dê escola, professor, lanche e transporte. Só não dá – espero que alguém se eleja prometendo isso! – a vontade de estudar e de passar mais tempo na biblioteca do que na cantina.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Imigrantes e indústrias

Temos alguns milhares de imigrantes haitianos entrando pela fronteira no Amazonas. E o que seria isso para, rufem os tambores, soem as trombetas, a sexta maior economia do mundo? Aparentemente é demais, porque o nosso querido governo quer fechar a fronteira e só deixar entrar quem já recebeu visto no Haiti. Hoje alguma autoridade dizia que “o Brasil não pode assumir o Haiti”. Diria eu: pode sim. Claro que sob algumas condições.

O que sucede não é diferente do que já sucede desde… sempre? Temos um péssimo ambiente de negócios, e é por isso que toda hora o governo em todas as suas esferas fala em dar incentivos. Os Sacerdotes do Templo de Syrinx se reúnem em Brasília e decidem: vejam, este é um setor “estratégico”, vamos desviar a grana do pessoal que paga impostos para cá, ou vamos dispensar os empresários desse ramo desse ou daquele imposto. É claro que esse processo jamais é influenciado por lobbies ou por doações financeiras, por isso nem vou discutir a idoneidade dos Sacerdotes do Templo de Syrinx.

Nosso governo então olha os imigrantes e pensa: não estamos querendo incentivar a vinda daquilo que parece uma peãozada sem diploma que nem português fala. Preferimos dar incentivos para empresas milionárias.

Preciso agora concluir dizendo o óbvio? Não é preciso conter quatro mil imigrantes, nem ficar dando shakes de proteína para Setores Eleitos da Economia. Basta – caramba, sinto-me tão democrático ao dizer isso – melhorar o ambiente de negócios para todos. E aí, quem sabe, algum haitiano poderá virar milionário no Brasil.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Epidemia de censurite

Uma coisa que definitivamente une esquerda e direita é o gosto por denunciar a censura. Estão todos sendo censurados. Agora é a fotógrafa Nan Goldin, que vem ao Diário do Balneário dizer que foi censurada porque o Oi Futuro, cá no Balneário, cancelou sua exposição. Mas, dona senhora, madame fotógrafa, o Oi Futuro é uma instituição privada. Instituições privadas não censuram. Só quem censura é o governo. Já repeti isso mil vezes, mas fazer o quê? A lenga-lenga em torno da censura parece imortal.

Se um artigo não é publicado na imprensa, isso não é censura. É exercício do direito de propriedade, o mesmo que garante que eu não tenha de ouvir na minha casa nada que eu não queira. Se uma exposição é rejeitada ou cancelada, isso pode até ser deselegante, mas não é censura. Mesmo que uma exposição ou um artigo sejam rejeitados por órgãos estatais, isso não é censura. Para que fosse censura, o Estado teria de vetar a exibição daquele material em qualquer lugar, ou proibir a circulação do texto. É tão difícil? Será que estarei me revelando um insensato ao dizer estas palavras? Ou será que devo bater na porta do sr. Otávio Frias Filho e dizer, socando a mesa, que eu tenho o direito de publicar meus textos na Folha de São Paulo?

Claro que o discurso dos que sofrem de censurite tremens é puro sensacionalismo. Mas não está aí o pessoal a dizer também que “ideias têm consequências”? Do jeito que a coisa vai, da próxima vez que eu pedir para tirarem a azeitona da minha pizza, já vou me preparar para ler no jornal um artigo do pizzaiolo: “Nossas receitas estão sendo censuradas. É nossa arte que está sendo sufocada!”

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O capitalismo tem conserto?

Recife, 3 de novembro de 2011.

Antes mesmo de começar a discutir a questão, creio que é preciso fazer uma espécie de limpeza retórica, porque a primeira coisa que me chama a atenção é que uma crise financeira dos países capitalistas parece ser suficiente para condenar a ideia mesma de capitalismo, ao passo que os genocídios da China, da URSS, do Camboja, do Vietnã e até do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães não parecem suficientes para questionar a viabilidade, para nem falar da moralidade, do que seria o sistema rival, o socialismo. Hoje em dia você pode dizer que o socialismo deu errado na URSS por causa de Stálin, mas, francamente, isso me parece um tanto similar a dizer que foi Hitler que estragou o nazismo, que o nazismo merece credibilidade apesar de Hitler. E o mais engraçado é que defender Lênin, que também não era nenhum anjinho, é de certo modo defender a liberalização econômica, porque era isso que ele estava fazendo quando teve de abandonar o poder por causa da saúde.

A segunda observação importante é que o termo “capitalismo” foi criado por Karl Marx. É um termo pejorativo, que indica a dominação do capital. Isso não é muito diferente do que acontece com a palavra “neoliberal”. Eu nunca vi, e já trabalhei em duas organizações explicitamente dedicadas à defesa do liberalismo econômico, alguém que dissesse: “eu sou neoliberal”. Também não é muito diferente do que eu vejo as mulheres fazerem com o termo “periguete”. Nenhuma mulher se diz vulgar, nenhuma mulher se diz periguete. Vulgares e periguetes são as outras. Ninguém se autodenomina neoliberal nem periguete. Mas é verdade que existem pessoas que se dizem “capitalistas”. A diferença é que quando uma pessoa se diz “capitalista”, ela não está se dizendo a favor da dominação do capital, mas a favor de um sistema de trocas livres. Quer dizer, o termo “capitalista” muda de sentido dependendo de quem está falando. Eu mesmo não defenderia a dominação do capital, que sob muitos aspectos efetivamente existe, ainda que não na forma parcial imaginada pelos manifestantes lá de Wall Street, mas um capitalismo mais livre, que seria melhor denominado simplesmente de liberalismo. Esse liberalismo, sobretudo como posição ética, é que provavelmente ajudaria a consertar o capitalismo e a conter suas crises.

O “capitalismo” no sentido positivo ou liberalismo seria basicamente um sistema de trocas baseado na especialização de cada participante. Eu traduzo, você faz pontes, nós vendemos nossos serviços uns aos outros. Esse sistema é tão natural que nem mesmo o socialismo conseguiu destruí-lo. O sistema coletivista da URSS apenas criou um mercado negro paralelo cujos preços eram artificialmente elevados. Por isso também eu mesmo defendo menos interferência dos governos, e acho que eles devem proteger mais os consumidores do que as empresas. Proteger os consumidores e não as empresas seria, por exemplo, não aumentar o IPI de carros importados não sei de onde para que você possa pagar mais caro por um carro só porque ele foi gloriosamente produzido no Brasil. O nacionalismo está sempre ligado à ideia de que enriquecer os empresários locais é de algum modo moralmente superior a enriquecer um empresário estrangeiro, mesmo que o estrangeiro tenha um produto melhor e mais barato.

Os manifestas de Wall Street até me despertam alguma simpatia. Mas existe um grave equívoco, que é a parcialidade do movimento. Não faz sentido ocupar Wall Street sem ocupar também Washington e sobretudo o Fed, o Banco Central americano. A crise americana não foi produto exclusivo de gananciosos especuladores, mas a obra conjunta de especuladores e de burocratas. De um lado, o Fed combateu crises aumentando a liquidez da economia; ainda desse mesmo lado, o governo federal americano estimulou o crédito imobiliário para pessoas que não poderiam pagar. Do outro lado, os financistas aproveitaram os incentivos que tinham. É o efeito do multiplicador bancário: o banco empresta o seu dinheiro a partir da crença de que você não vai sacá-lo. Ter um banco é gerenciar esses riscos e de fato os bancos americanos chegaram a emprestar, em alguns casos, 200 vezes aquilo que efetivamente possuíam. Aqui no Brasil isso não aconteceria, é verdade, por causa da regulamentação, que não permite uma alavancagem tão elevada. Além disso, ao contrário do que ocorre nos EUA, aqui os sócios dos bancos têm de responder pelas perdas com seus patrimônios pessoais. Mas, voltando ao caso americano e à participação do governo, metade das dívidas podres estava nas mãos de dois bancos imobiliários do governo, e já havia a ideia de que qualquer perda seria compensada com as famosas injeções de liquidez: o governo ia botar mais dinheiro na economia.

Nesse ponto eu devo observar que ao menos um manifestante de Wall Street foi direto ao ponto, até de maneira um pouco filosófica, exibindo um cartaz que pedia o fim da moeda fiduciária. É verdade que essa crise só poderia acontecer num sistema de moeda fiduciária sem lastro. E por quê? É só olhar o nome da moeda: ela é fiduciária, baseada em fé, em credibilidade, em crédito. Mas devo me interromper a mim mesmo para dizer que não vou defender aqui o padrão-ouro. Primeiro, até onde eu sei, o sistema do padrão-ouro também tem seus problemas. Tudo tem suas vantagens e desvantagens próprias. Segundo, porque eu não acredito que o ouro tenha um valor intrínseco. Nada tem valor por si; todo valor é atribuído. Mas esse valor também não é aleatoriamente atribuído; daí é que vem a credibilidade. Você dá credibilidade ao emissor da moeda e à sua capacidade de honrar suas dívidas. Isso não é tão distinto da experiência comum de um profissional do setor privado. Eu mesmo sou tradutor. O valor que cobro dos meus clientes depende da minha credibilidade, isso é, de eles estarem convencidos de que eu vou entregar um bom trabalho num prazo razoável e sem apresentar dificuldades. Não vou enviar um texto cortado, dizendo que não consegui traduzir uma parte – isso é, não vou ficar dando desculpas. Do mesmo modo, qual moeda tem mais valor? A moeda emitida pelo governo que tem mais credibilidade. Essa credibilidade, no caso de um governo, não vem só das agências de rating, que aliás reduziram a credibilidade do governo americano enquanto pagador de dívidas de super ultra deluxe premium plus para apenas super ultra deluxe premium. A credibilidade vem de diversos fatores. Da segurança jurídica americana. Da facilidade de fazer negócios. Não vou dizer que os EUA sejam perfeitos, até por causa das crises. Mas o fato de que, há quinze dias, uma Europa em crise por causa da Grécia fazia o dólar subir de preço mostra quanta credibilidade os EUA têm. A politização da moeda começa aí mesmo, ela é emitida por um governo e as pessoas vão ver como esse governo se comporta. Aliás, não apenas os EUA recebem os maiores fluxos de dinheiro, como também recebem os maiores fluxos de imigrantes. Quando a coisa aperta, você confia em ir para os EUA. Os EUA em crise, com duas guerras, com Wall Street ocupada, parecem melhores do que todos os demais países do mundo, na opinião da maioria dos imigrantes, porque lá é fácil trabalhar, empreender, ter um negócio, ser muçulmano, ser ateu, e até comprar um busto barato de Stálin para colocar na sala de jantar se você quiser. É muito engraçado que o país que representa o capitalismo no mau sentido de Marx, inclusive num mau sentido justo, devido às estripulias financeiras, seja o país para o qual as massas oprimidas do mundo fogem assim que têm chance. Credibilidade é isso. Você não vai me contratar porque eu prometo uma tradução boa, vinda do mundo melhor. Você vai me contratar porque veja, aqui está a tradução, ela pode ter erros (todas têm), mas ela é bem melhor do que as alternativas realmente existentes. Com toda a sua perversidade financeira, o capitalismo realmente existente é melhor do que todas as outras alternativas que existem no mundo concreto, isso na opinião de investidores e de imigrantes.

Num certo sentido, perguntar se o sistema financeiro internacional realmente existente tem conserto é pedir por duas respostas. A primeira, filosófica demais, é: claro que não, porque nada que é humano tem conserto, estamos fadados à nobre arte de empurrar com a barriga e minimizar as perdas. Nesse ponto, aliás, o sistema econômico descentralizado se mostrou tão mais eficaz em poupar vítimas que compará-lo com o sistema de economia planejada, ou socialismo, me parece até patológico num sentido dostoievskiano. Há cem anos um marido alcoólatra espanca a mulher e você quer lhe dar mais uma chance só porque ele toca “Imagine” do John Lennon no piano e você se derrete. A segunda resposta de certo modo decorre da primeira: algum ajuste será feito, mas não necessariamente será positivo. Claro que poderia ser feito algum ajuste positivo. Mas acho que se eu soubesse elaborar um ajuste convincente, específico, que fosse além do feijão com arroz que os liberais sempre repetem, meu nome estaria na lista de indicados ao Nobel. De todo modo, imagino que diminuir a alavancagem dos bancos seja importante, ainda que isso talvez viesse a custar em termos de prosperidade e nenhum político quer enfrentar a dureza de um ajuste deflacionário. Nenhum presidente ou candidato a presidente vai querer bater no peito e dizer que no governo dele vamos tomar o remédio amargo e cortar despesas. Além disso, considero fundamental que bancos e banqueiros respondam com seu capital privado. Assumir um risco não é em si um mérito que pede recompensa; é preciso arcar com os prejuízos. Até porque sempre somos mais prudentes com o nosso próprio dinheiro.

Por isso é que o capitalismo, tomado como a associação perversa de bancos centrais e financistas para manipular riscos e moedas, pode ser amplamente melhorado pelo liberalismo, por um governo mais estável, que tenha regras mais claras, que dê segurança jurídica, que não impeça a iniciativa individual (eu mesmo preciso de um alvará da prefeitura para traduzir em casa, isso é, eu preciso de um documento do governo para escrever no meu computador), que não queira planejar nem dirigir a economia, que não favoreça os grandes empresários. É claro que existe algo de utópico nisso no sentido de que nunca haverá um país perfeitamente liberal, mas esse é um ideal mais realizável, ou ao menos é um ideal ao qual se pode tender. Tanto é que os países que mais tendem a ele são os mais prósperos, em que, novamente, os imigrantes do mundo escolhem morar. Aqui mesmo no Brasil poderíamos ajustar nossa estrutura tributária, melhorar a facilidade de fazer negócios, de empreender, cortar subsídios diretos e indiretos a grandes empresas, derrubar as alianças entre o setor privado que vive de dinheiro fácil do Estado e o Estado que vicia o setor privado por meio de grandes projetos, e criar um capitalismo mais liberal, que seria melhor para todos, e não só para meia dúzia de políticos, de banqueiros e de empresários.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Rumo a Recife

Nesta quinta, dia 3 de novembro, estarei com o pessoal do OrdemLivre.org em Recife, para encerrar a caravana Liberdade na Estrada.

3/11/2011 às 14h

Local: Universidade Federal de Pernambuco – Anfiteatro CCSA

Debatedores:

Diogo Costa
Mestre em Teoria Política pela Columbia University e professor de Relações Internacionais do Ibmec-MG

Claudio Shikida
Doutor em Economia pela UFRGS e professor do Ibmec-MG

Pedro Sette-Câmara
Formado em grego clássico pela UFRJ

André Regis
Doutor em Ciência Política pela New School for Social Research

Pierre Lucena
Doutor em Administração de Empresas pela PUC-RJ

Alessandra Uchôa Sisnando
Douturanda em Filosofia pela UFPE.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Políticos viciam a juventude em crack

Tenho lido no Diário do Balneário que agora querem dar meia passagem para todos os estudantes de 14 a 29 anos em transportes intermunicipais e interestaduais. O governo subsidiaria isso.

Acho que a melhor maneira de olhar o problema é pensar na meia entrada para espetáculos. Em que medida ela é defensável? Ora, na medida em que boa parte da produção cultural brasileira não dá prejuízo. Graças à Lei Rouanet, só tem prejuízo quem quer. O empresário pode estrear seu espetáculo com tudo pago. Dali em diante, é lucro. Eu acho, nesse sentido, que meia entrada talvez seja até pouco... Mas o mais interessante é que, do ponto de vista do estímulo que a meia entrada representaria para que o público saísse de casa, ao menos no teatro (a área que mais me interessa especificamente) ela nem funciona. Diversas peças vendem ingressos abaixo da meia em sites de compras coletivas e nem assim a casa fica meio cheia. Ou seja: o problema do teatro brasileiro certamente não é o preço do ingresso. (Até porque uma pessoa de classe média não paga 10 reais para ir ao teatro no Rio mas paga 100 dólares e passagem para os EUA para ver um espetáculo na Broadway.)

E agora a meia-entrada para transportes. É a contrapartida do lobby das empresas de transportes? É o preço da proteção concedida pelo Estado aos feudos de consumidores sem alternativas? Se for, então...

Mas, no meu caso, só posso dizer uma coisa. Eu trabalho com tradução. No dia em que o governo inventar que o estudante pode pagar apenas meia lauda, eu, que não tenho dinheiro no banco nem amigos importantes, vou dobrar meu preço, ou mudar de ramo.

Fico pensando na velha lenga-lenga de “o Brasil não vai para frente”. Se não vai, é porque o estudante quer pagar meia, o empresário quer subsídio, e o governo, para gerenciar tudo isso e dar ares de respeitabilidade à coisa, cobra também a sua taxa, naturalmente de quem não paga meia em nada nem recebe subsídio nenhum.

Os jovens políticos de hoje prometem meia, contribuem para esse esquemão, e vão lembrando de dois em dois anos àqueles seus eleitores que desde os 16 anos já votam quem foi que sempre garantiu seu vício em benesses estatais. Tudo sempre circundado daquele discursinho piegas que vai dizer que meia passagem, meia entrada etc. é a proteção da civilização ocidental, da nossa identidade, nossas raízes etc. Igualzinho a um empresário pedindo proteção estatal a seu feudo contra aqueles malditos empreendedores que vendem coisas mais baratas que os consumidores preferem.

Isso tem fim? Ora, como disse Alan Greenspan, we can always print money.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Food for Thought / Thought for Food

Um amigo me manda uma foto de um estabelecimento na Tijuca:



Um bom lugar para pedir um café e começar a ler seu exemplar de Rematar Clausewitz.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Xoxó x Pedro, a cólera de Érico

1. O lendário Caribó Xoxó fez-me umas perguntas e, vejam só, eu as respondi. Como diz Brás Cubas, "cousa é que admira e consterna".

2. Érico Nogueira, aliás jabutizável, denunciou a trapalhada e Denise Bottmann anunciou que a denúncia teve efeito.

Trocar "Odisseu" por "Ulisses" e "atrida" por "átrida" num texto de poesia e achar que nada vai mudar. Isso é que dá as faculdades de Letras terem 20 matérias de masturbação mental teoria literária e 2 de literatura.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Fósseis sonâmbulos

Num país que ainda tem uma cultura “de elite” tão uniforme quanto o nosso, pergunto-me quanto tempo vai levar para que a cultura da transgressão finalmente vá embora. Não estou falando da transgressão como estrutura, isso é, como transgressão real, porque nada pode se manter nessas bases. Falo da transgressão como tema, como conteúdo.

Fiquei pensando nisso depois que, na fila do estacionamento de um shopping, ouvi um diretor de teatro e uma atriz de TV conversando sobre A árvore da vida, de Terrence Mallick. E eles só sabiam falar sobre como o garoto do filme tinha um pai “repressor, católico”. Lá vamos nós de novo: a imaginação de quem nasceu a partir de 1950 e trabalha com artes às vezes não consegue sequer conceber, supor, imaginar, devanear que alguma ordem estabelecida e realmente existente possa ter alguma razão de ser.

Eu entendi o filme (para além de gostar ou não gostar, porque acho que no caso de Terrence Mallick já nascemos predispostos a gostar ou a não gostar) como uma narrativa proustiana de recuperação do tempo perdido, a rememoração pessoal que um homem faz dos aspectos da sua vida, de certos acontecimentos, e como isso não só faz dele aquilo que ele é, mas também o liga ao resto da humanidade. Há uma progressão no filme: eu vejo o mal de um lado só, depois reconheço o mal em mim, depois vejo que há o impremeditado e que o mal faz parte dele, e depois relaciono isso com a estrutura mesma da espécie, da ordem do mundo.

Pretensioso, sem dúvida. Mas a imaginação do espectador autístico brasileiro nunca sai da mesma clave: a identificação do mal de um lado só. Mal esse que é vagamente identificado com os aspectos mais duros da ordem estabelecida, ordem essa que portanto merece ser transgredida. E a transgressão nada mais é do que uma reafirmação autoconsciente daquilo que o sujeito transgressor sempre teria desejado. Algo como uma criança que quer comer biscoito, um desejo deveras inofensivo, até que alguém lhe diz que é feio comer biscoito durante a missa. Começa então a slutwalk: “Se eu comer biscoito te ofende, problema seu.” “Tenho direito de comer biscoito sem ser incomodado.” “Como biscoito para mim e não para você.” “No fundo você quer é comer o meu biscoito.” “A culpa não é de quem come biscoito.”

Lá em cima eu falei que era transgressão como tema e não como estrutura. Claro que há nisso um aspecto estrutural, porque pode ser aplicado a qualquer tema, digamos. Mas a estrutura vira tema na medida em que se fecha, em que não há progressão de níveis. Há o transgressor e o transgredido, e nunca há mudança de papéis, nem multiplicidade de aspectos, porque não há consciência trágica. (Naturalmente, não há consciência trágica no espectador brasileiro por causa do Ministério da Educação. Isso poderia ser ensinado em aulas de literatura.)

Se houvesse consciência trágica, as coisas teriam de ser levadas às últimas consequências. O garoto come biscoito durante a missa e é reprimido. Ele reage. Há outra reação. O garoto é expulso da missa e se vinga junto com outros garotos. Eles vencem e toda autoridade é abolida. O que vem depois disso? É só lembrar da Revolução Francesa: eles começam a brigar entre si, e vão matando uns aos outros, até que a história acabe por falta de personagens ou que surja uma força ainda maior que os domine.

Como A árvore da vida é uma narrativa de memória seletiva, a ordenação estética de uma tomada de consciência esparsa e demorada, a consciência trágica aparece como percepção da possibilidade do mal e da violência. É o garoto “oprimido” pelo pai que percebe que ele mesmo não é nenhum anjinho. Mas os meus colegas da fila do estacionamento, aqueles dois artistas famosos, não pareciam enxergar nada além de um menino oprimido pelo sistema representado pelo pai que começa a se revoltar. Não enxergam nada além disso porque provavelmente até hoje creem num sonho geracional sessentista, e, como Arnaldo Jabor, têm a amplitude imaginativa de um fóssil sonâmbulo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Funarte diz que libera o brioche

Chega-me por e-mail uma "nota de esclarecimento" em Caps Lock da Funarte. Mentira ou incoerência, cabe a algum bom jornalista descobrir. O que eu posso atestar por experiência é que a Funarte é totalmente coerente com seu passado de fornecedora de pulseirinhas vip para Nomenklatura & amigos, e que portanto não é incoerente que ela se manifeste com incoerências, porque, enfim, certas coisas só funcionam se não forem desnudadas. Não sou da Funarte; pago imposto para a Funarte; não posso pedir meu dinheiro de volta.

NOTA DE ESCLARECIMENTO

A pedido do presidente da Funarte, Antonio Grassi, o Centro de Artes Cênicas se desculpa pelas falhas ocorridas durante a emissão de ingressos para o espetáculo 'Uma flauta mágica'. Conseguimos viabilizar uma sessão extra no dia 8, com todos os lugares à venda. Além disso, disponibilizamos cerca de cem ingressos extras para as demais sessões, à venda a partir de
segunda-feira.

Primeiro, guardemos o número de "cem ingressos extras". O Teatro Dulcina tem 429 lugares; na última terça, foram vendidos 100 para cada dia; logo, não foram vendidos 329 lugares. Essa informação de que eram apenas 100 para cada dia veio da própria bilheteria, dos funcionários do teatro. Eu ouvi e vos reporto.

Agora, considerando que a Funarte começou vendendo o balcão e depois as galerias, onde nem há lugar marcado, só podemos concluir que os "cem ingressos extras" significam que Maria Antonieta resolveu liberar um pouco do brioche.

No entanto, alguns esclarecimentos se fazem necessários. Diferente das outras atrações da reabertura do Teatro Dulcina, o espetáculo de Peter Brook não foi viabilizado apenas pela Funarte, mas por uma parceria entre a Instituição, a Secretaria Municipal de Cultura e o Consulado Geral da França no Rio. Os 360 convidados, no total das sessões, não receberam ingressos, mas sim vouchers que dão acesso ao espetáculo somente com o comparecimento antes do início da sessão. Os lugares que não forem preenchidos estarão disponíveis para o público, meia hora antes do espetáculo, como ocorreu durante toda a temporada de reabertura.

O uso do adjetivo "diferente" com valor adverbial pode sugerir que o concurso que aprovou o burocrata que redigiu a nota não tenha sido lá muito rigoroso; isso é confirmado por suas palavras posteriores: "360 convidados, no total das sessões". Inclino-me para entender que isso significa que houve 120 convidados para cada uma das três sessões originais. Mas 100 ingressos vendidos por dia mais 120 convidados num teatro de 429 lugares sugerem 209 lugares vazios. Por isso me pergunto se são 360 convidados por dia, algo mais próximo dos 329 lugares não vendidos. De 329 convidados, também seria mais fácil tirar 100 ingressos do que tirá-los de 120; afinal, é mais fácil limar menos de um terço dos convidados do que quatro quintos. O funcionário que escreveu isso é concursado mesmo? Porque, bem, Antonio Grassi foi apenas nomeado pela ministra. De repente ele também nomeou a pessoa que ignora a aritmética e algo do português para escrever essa nota. De repente ele deu para ela um ingresso. Na fila de trás. E ela ficou até satisfeita, olha só.

Recebemos uma reclamação de que no primeiro dia de vendas a bilheteria foi aberta com atraso, mas a equipe responsável afirma que iniciou às 14h10, ou seja, apenas dez minutos após o horário divulgado. Tampouco é verdade que os melhores lugares foram separados para convidados: a exemplo do Theatro Municipal, o balcão nobre do Dulcina é uma área de ótima visibilidade e muito disputada pelo público.

Ou seja: "é verdade, não vendemos a platéia, porque, Deus do céu, que horror, misturar-se com público". Plateia só para convidados do governo é algo tão emblemático de tudo que existe de errado no teatro brasileiro que realmente é melhor eu evitar a tentação de começar a falar disso, porque preciso me dedicar às minhas atividades remuneradas.

Esperamos que os esforços empreendidos para disponibilizar ingressos para as quatro sessões do espetáculo, a preços populares, atendam a um número maior de espectadores. Comemoramos o sucesso e o interesse do público por 'Uma flauta mágica'.

CENTRO DE ARTES CÊNICAS DA FUNARTE

Que esforços? Quem se esforçou foi quem pagou imposto para isso. Vocês, burocratas, só alocaram o dinheiro dos impostos para pagar a produção e depois alocaram três quartos dos ingressos para vocês mesmos, depois liberando um pouquinho o brioche por causa desse sentimento que Marx não estudou, a vergonha nomenklaturesca. O burocrata privatizou para si próprio e depois ficou com vergonha porque hoje as pessoas se organizam na internet. Vergonha; não sentimento de culpa.

Eu poderia jogar um tomate em vocês. Mas infelizmente as minhas cinco horas de espera só me garantiram um ingresso na última fila do balcão, e eu sou péssimo atirador: não quero correr o risco de acertar alguém que está na primeira fila do balcão porque esperou durante oito horas num calor de 35 graus.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Fundação Nacional da Pulseirinha VIP

No dia mais quente do inverno carioca, cerca de duzentas pessoas foram à bilheteria do Teatro Dulcina comprar ingressos para as três apresentações de Uma flauta mágica, de Peter Brook. A bilheteria abria às duas da tarde, e eu mesmo cheguei ao meio-dia.

Após uma confusão relacionada a ingressos que não teriam chegado da gráfica, e que levaram a uma ameaça de suspensão de venda, veio outra notícia: dos 429 lugares de que dispõe o Teatro Dulcina, apenas 100 estariam à venda para cada apresentação, todos no balcão e na galeria. Em todas as noites, a plateia estava integralmente reservada para convidados.

Foi nesse momento que me lembrei de que o Teatro Dulcina era da Funarte, e que seu presidente era Antonio Grassi. Como esquecer do Festival de Teatro Russo em 2006, em que apenas metade das entradas eram disponibilizadas para o famoso público em geral, esta gente sem amigos importantes? Lembro das horas de pé para conseguir ingressos, sempre coroadas por um encontro com Antonio Grassi, então presidente da Funarte, já feliz e pimpão no teatro, confortavelmente sentado em meio a seus convidados, nos melhores lugares.

Enquanto eu contemplava a mesma situação se repetindo, apareceu um senhor e me perguntou há quanto tempo eu estava ali. Eu já estava na fila havia quatro horas. E ele me falou que também tinha ficado na fila quatro horas para comprar um ingresso no mesmo Teatro Dulcina, alguns dias antes, para o espetáculo de Bibi Ferreira.

Impossível não enxergar na situação um retrato da cultura de "só a diretoria" que impera no Brasil. De um lado, o Ministério se põe a subvencionar com dinheiro dos impostos obras que ninguém quer ver. De outro, privatiza para a própria Nomenklatura aquilo que todo mundo quer ver. Se o espetáculo de Peter Brook passasse num teatro privado, ou ao menos distante da alçada da Funarte, haveria a oportunidade de comprar ingressos. Estes poderiam talvez ser inacessíveis para alguns, mas ao menos estariam acessíveis num mercado legal, quiçá até recolhendo impostos, em vez de ser exclusivamente financiados por eles.

Dessa vez, porém, Antonio Grassi e a Funarte cometeram um grave erro tático, reservando à plateia que os sustenta as partes superiores do teatro. As promessas de reação com as mais clássicas armas do público – ovos e tomates – não eram nada incomuns.

E se o ator Antonio Grassi merece ovos e tomates, confesso que não sei. Mas o presidente da Funarte merece vários.

Ou quem sabe uma CPI dos ingressos.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Bolsa-Empresário Editorial

Hoje leio no Globo sobre o programa Livro Popular (o texto só aparece na edição impressa). O governo vai encomendar edições populares às editoras, que vão vender os livros "para livrarias e afins", e estas repassarão os livros às bibliotecas. O objetivo é estimular a leitura.

Mais uma intenção nobre com resultados provavelmente adversos? Vejamos.

1. O governo jamais vai "estimular a leitura" desse jeito. O governo não tem prestígio para estimular diretamente esse tipo de coisa.

Uma medida do desinteresse por livros é o seguinte. Assim como nos tumultos recentes de Londres as livrarias foram poupadas, o mesmo já aconteceu no Brasil. Tenho muitos amigos no mercado, que sempre recordam o arrastão que passou pela na Rua Francisco Sá, aqui em Copacabana, poupando integralmente os livros que o sebo Mar de Histórias colocara na rua. Creio que a maioria das pessoas no Brasil preferiria beber um copo de detergente a ler 100 páginas. Agora contrate a melhor agência de publicidade do mundo para ver se alguém sabe como mudar essa situação.

E aqui vai, de graça, que eu tenho espírito cívico, uma pequena ideia. Se o objetivo fosse mesmo fazer uma campanha que funciona, o ideal seria fazer uma operação totalmente por baixo dos panos. Personagens de novela, atores, jogadores etc. falariam de romances e de poemas. Afinal, um jogador com um corte de cabelo ridículo tem mais chance de estimular as pessoas a mudar esse tipo de comportamento do que o governo.

Agora, eu não sei quanto ao público, mas eu mesmo tenho uma aversão instintiva a tudo que é ou que parece campanha para qualquer coisa. Sempre que dizem: "vou te convencer", já me armo para não ser convencido.

2. Quero só ver que livros serão escolhidos pelo governo. Nosso grande agente de demanda vai enriquecer muita gente. Mas assim é o Brasil: rentista até nos livros. Não competimos pela atenção do público, competimos pela atenção e pelo dinheiro do governo. Hoje, aliás, eu tendo a crer que essa bomba só pode ser desarmada desde dentro. Mesmo que os títulos escolhidos sejam de domínio público, os editores vão ganhar rios de dinheiro. Você pode achar isso ruim, mas lembre-se de que se o governo fosse ele mesmo cuidar da impressão dos livros eles sairiam 100 vezes mais caros.

3. Por que os intermediários? Ah, sim, isso me faz voltar ao que acabo de dizer. Pagamos impostos e o governo redistribui. Para os intermediários. Amigos do rei, agora escolhidos por licitação e edital; eis a suposta diferença que dá ares de democracia a uma "aristocracia" burocrático-burguesa.

Não sei se é ilegal no Brasil as editoras tratarem diretamente com as bibliotecas (não ficaria surpreso). Mas essa escolha de intermediários para um negócio que realmente não precisa deles tem todo o cheiro do tipo favorito de redistribuição de renda praticado pelo nosso governo. Creio que esse é o sentido profundo do que disse o presidente Lula no início de seu primeiro mandato: "Neste país, a direita está no poder há 500 anos." E ele, é claro, não foi bobo de mexer em algo tão tradicional.

É importante eu fazer um aparte aqui para aqueles que acham que estou assumindo uma postura de "neutralidade" ou sei lá o quê. Estou questionando uma estrutura, não um grupo de favorecidos. Uma estrutura perversa movida numa certa direção não deixa de ser perversa. Favorecimento de empresários do ramo editorial não é diferente de privilégios para grupos minoritários ou majoritários.

4. Se é inevitável que o governo faça alguma coisa, prefiro que dê iPads para todo mundo. Pelo menos assim as pessoas poderão vender os iPads e comprar algo que efetivamente querem.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Seminário Internacional René Girard

Sexta e sábado agora, 2 e 3 de setembro, acontece em São Paulo um seminário que comemora os 50 anos do lançamento de Mentira romântica e verdade romanesca, de René Girard.

No evento serão lançados diversos livros, inclusive duas traduções minhas: Rematar Clausewitz, de René Girard, e Violência e modernismo, de William Johnsen.

As inscrições são gratuitas e você pode participar do evento pela internet.

Eu mesmo estarei lá como mediador da primeira mesa.