Os aeroportos de Guarulhos, Viracopos e de Brasília são “privatizados” com recursos que vêm do BNDES. 80% dos recursos vêm do BNDES. E vão para fundos de pensão de estatais. Que compram os aeroportos do governo. Se eu entendi bem, é mais ou menos como um cidadão privado usar um cartão de crédito para pagar a fatura do outro cartão de crédito. Essa analogia me parece muito boa: no fim, é o cidadão privado que paga.
O presidente do BNDES e outras otoridades celebram a confiança na economia brasileira. Mas se os recursos vêm do BNDES, isso parece confiança no BNDES. Que tem aquela linha direta com o Tesouro Nacional. Parece mais confiança nas capacidades de o governo de arrecadar e de imprimir dinheiro. Por outro lado, eu não consigo lembrar de atividades econômicas no Brasil que não envolvam o BNDES. O Brasil é o país dos incentivos, não das recompensas: em vez de enriquecer um empresário comprando seu produto ou serviço, o povo brasileiro o enriquece incentivando seu trabalho. Como diria Clarice Lispector, se a burguesia fede, é porque seu PowerPoint é uma navalha.
Mas de repente eu me lembro de que a independência do Brasil aconteceu assim. Houve uma revolução “liberal” em Portugal, que ordenou a volta do rei e o aperto da colonização sobre o Brasil. Então o regente brasileiro libertou o Brasil do liberalismo português e logo depois implementou uma espécie de ditadura.
Não é que depois de lembrar disso tudo comece a fazer sentido. Mas é que, quando liberalismo significa manutenção do exclusivo (pacto) colonial, por que privatização não pode significar uma compra com recursos do governo por consórcios de entes paraestatais?
Pedro Sette-Câmara
The blessed will not care what angle they are regarded from — W. H. Auden
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Sobre a privatização dos aeroportos, ou: O seu PowerPoint é uma navalha
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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Sempre a polícia de preços
Talvez seja possível dizer que O Globo é um jornal mais pró-mercado, pró-liberdade econômica, do que o contrário. Estou dizendo isso dessa maneira porque provavelmente o jornal ecoa a opinião geral, de que “deve haver limites à liberdade econômica”. No entanto, volta e meia o jornal resolve encarnar o papel de polícia dos preços. Fiscais do Sarney, o quarto poder (se você é muito jovem, vá procurar o que são os, ou as, “fiscais do Sarney”).
Hoje acordo e lá está aquela matéria que sempre retorna sobre preços “abusivos” de estacionamentos. O pior é que estacionamento não é nem mesmo, digamos, um bem essencial sobre o qual alguém exerça alguma espécie de monopólio. Não é, digamos assim, como a renovação da carteira de motorista, que aqui no Rio custa uns 100 para o Detran, mais a taxa da clínica, e mais um monte de aporrinhação só para você poder continuar fazendo o que sempre fez. Estacionamento em certos lugares é um bem totalmente opcional.
De todo modo, o que não dá é ficar reclamando que o Brasil está sempre mal nos índices de liberdade econômica e depois ficar chamando a polícia do preço nos estacionamentos. O pior é que não consigo dizer que estacionamento é um negócio e compra quem quer sem sentir aquela vergonha idiota por estar dizendo o óbvio. Se eu fosse marxista, diria que isso é apenas uma estratégia do grande capital (que não há de se incomodar com o alto preço de um estacionamento) para aliciar a classe média (que sofre com o alto preço de um estacionamento).
Hoje acordo e lá está aquela matéria que sempre retorna sobre preços “abusivos” de estacionamentos. O pior é que estacionamento não é nem mesmo, digamos, um bem essencial sobre o qual alguém exerça alguma espécie de monopólio. Não é, digamos assim, como a renovação da carteira de motorista, que aqui no Rio custa uns 100 para o Detran, mais a taxa da clínica, e mais um monte de aporrinhação só para você poder continuar fazendo o que sempre fez. Estacionamento em certos lugares é um bem totalmente opcional.
De todo modo, o que não dá é ficar reclamando que o Brasil está sempre mal nos índices de liberdade econômica e depois ficar chamando a polícia do preço nos estacionamentos. O pior é que não consigo dizer que estacionamento é um negócio e compra quem quer sem sentir aquela vergonha idiota por estar dizendo o óbvio. Se eu fosse marxista, diria que isso é apenas uma estratégia do grande capital (que não há de se incomodar com o alto preço de um estacionamento) para aliciar a classe média (que sofre com o alto preço de um estacionamento).
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Ó, Lordessa Ánax
Na antiga civilização micênica, anterior até àquela de que fala a Ilíada, havia uma figura chamada ánax. O ánax era mais do que um rei. Fundia autoridade espiritual e poder temporal e em seu palácio se fazia a contabilidade geral do “reino”. Era, em suma, uma mistura de ditador socialista com pajé. Vodu macroeconômico e planejamento espiritual. Provavelmente, aquilo que Julius Evola queria ser quando crescer.
O ánax foi substituído na Grécia pelo basileus, que normalmente traduzimos como “rei”, e por isso coloquei aspas em “reino” no parágrafo anterior. Cada rei da Ilíada era um basileus, como Agamêmnon e Ulisses. Ele estava mais próximo da nossa ideia de rei: basicamente um sujeito que se impõe pela força e que, em troca de uns tributos, promete segurança. Uma espécie de máfia em grande escala, com mais prestígio e rapapés.
Mas o sonho do ánax, é claro, permanece. E, como em muitas esferas, vigora uma dessas regras jamais mencionadas: se você ficar falando que quer ter os poderes do ánax, você é maluco. Se você agir como se fosse o ánax, mas sem falar nada, pode passar por alguém perfeitamente normal.
É no velho ánax micênico que penso quando leio que nossa presidente tem a intenção de romper um acordo comercial com o México porque, veja só, o Brasil está comprando mais do México do que vendendo para o México. Na verdade, perdoem: é preciso ainda desmistificar essa frase. Brasileiros, ou pessoas residentes no Brasil, estão comprando mais produtos que vêm do México do que os mexicanos e residentes do México estão comprando produtos que vêm do Brasil.
Talvez eu seja liberal porque, ao ler uma afirmação como essa, só consigo pensar: “E daí? Bom pra eles.” Eu nem sei se tenho algum produto mexicano. Chego até a pensar assim: “Então o gay pode casar mas o brasileiro tem de pagar mais imposto para comprar produto mexicano? Eu, hein.”
É claro que eu conheço aquelas histórias de “proteção à indústria nacional”. E só consigo imaginar essas palavras ditas por alguém parecido com o Fofão, todo vestido e maquiado, com a autoridade sacerdotal de um Jedi fariseu. Porque elas são inteiramente mistificadas. E podem ser derrubadas por outra mistificação, ou outra metáfora tratada como substância: o bolso nacional. Presidenta Ánax, proteja o nosso bolso, se quiser proteger alguma coisa. Não nos faça comprar algo ruim e caro só para enriquecer um empresário daqui. Eu sei que os mexicanos não contribuíram para a sua campanha, mas mesmo assim, ó, Lordessa Ánax, livrai-nos do nacional caro e ruim, amém.
Fico imaginando um filme. Está lá o ánax em Micenas. Cheio de plumas e pintado de azul. Aparece um sujeito de paletó e gravata, com uma pastinha, e fala com aquele sotaque paulistano que já aboliu todos os sons nasais: “Lorde Ánax, Majestade Macroeconômica, espero não ofender vossa sapiência ao apresentar a teoria das expectativas racionais.” Teoria essa que, hoje, leva a algumas decisões: se não posso comprar o importado barato, prefiro não comprar nada a comprar o nacional caro e ruim. Pode ficar com seu imposto sobre o nada.
Penso ainda no primeiro governador britânico da província de Hong Kong, uma terra em que plantando nada dá, do tamanho de… Bem, digamos que seriam necessárias 7700 Hong Kongs para preencher um Brasil. Esse governador renunciou ao papel do Ánax e decidiu não coletar dados macroeconômicos, para evitar a possibilidade do planejamento. E hoje essa faixa de terra 7700 vezes menor do que o Brasil tem um PIB apenas 9 vezes menor.
O ánax foi substituído na Grécia pelo basileus, que normalmente traduzimos como “rei”, e por isso coloquei aspas em “reino” no parágrafo anterior. Cada rei da Ilíada era um basileus, como Agamêmnon e Ulisses. Ele estava mais próximo da nossa ideia de rei: basicamente um sujeito que se impõe pela força e que, em troca de uns tributos, promete segurança. Uma espécie de máfia em grande escala, com mais prestígio e rapapés.
Mas o sonho do ánax, é claro, permanece. E, como em muitas esferas, vigora uma dessas regras jamais mencionadas: se você ficar falando que quer ter os poderes do ánax, você é maluco. Se você agir como se fosse o ánax, mas sem falar nada, pode passar por alguém perfeitamente normal.
É no velho ánax micênico que penso quando leio que nossa presidente tem a intenção de romper um acordo comercial com o México porque, veja só, o Brasil está comprando mais do México do que vendendo para o México. Na verdade, perdoem: é preciso ainda desmistificar essa frase. Brasileiros, ou pessoas residentes no Brasil, estão comprando mais produtos que vêm do México do que os mexicanos e residentes do México estão comprando produtos que vêm do Brasil.
Talvez eu seja liberal porque, ao ler uma afirmação como essa, só consigo pensar: “E daí? Bom pra eles.” Eu nem sei se tenho algum produto mexicano. Chego até a pensar assim: “Então o gay pode casar mas o brasileiro tem de pagar mais imposto para comprar produto mexicano? Eu, hein.”
É claro que eu conheço aquelas histórias de “proteção à indústria nacional”. E só consigo imaginar essas palavras ditas por alguém parecido com o Fofão, todo vestido e maquiado, com a autoridade sacerdotal de um Jedi fariseu. Porque elas são inteiramente mistificadas. E podem ser derrubadas por outra mistificação, ou outra metáfora tratada como substância: o bolso nacional. Presidenta Ánax, proteja o nosso bolso, se quiser proteger alguma coisa. Não nos faça comprar algo ruim e caro só para enriquecer um empresário daqui. Eu sei que os mexicanos não contribuíram para a sua campanha, mas mesmo assim, ó, Lordessa Ánax, livrai-nos do nacional caro e ruim, amém.
Fico imaginando um filme. Está lá o ánax em Micenas. Cheio de plumas e pintado de azul. Aparece um sujeito de paletó e gravata, com uma pastinha, e fala com aquele sotaque paulistano que já aboliu todos os sons nasais: “Lorde Ánax, Majestade Macroeconômica, espero não ofender vossa sapiência ao apresentar a teoria das expectativas racionais.” Teoria essa que, hoje, leva a algumas decisões: se não posso comprar o importado barato, prefiro não comprar nada a comprar o nacional caro e ruim. Pode ficar com seu imposto sobre o nada.
Penso ainda no primeiro governador britânico da província de Hong Kong, uma terra em que plantando nada dá, do tamanho de… Bem, digamos que seriam necessárias 7700 Hong Kongs para preencher um Brasil. Esse governador renunciou ao papel do Ánax e decidiu não coletar dados macroeconômicos, para evitar a possibilidade do planejamento. E hoje essa faixa de terra 7700 vezes menor do que o Brasil tem um PIB apenas 9 vezes menor.
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Política
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
De Marcel Duchamp a Damien Hirst
A polêmica em torno das telas de bolinhas de Damien Hirst me faz pensar em Marcel Duchamp, aquele incompreendido. Nunca esqueço de chegar ao MoMA em Nova York e ver pessoas aglomeradas em torno de uma roda de bicicleta virada para cima. Claro que, ao ver o nome do autor, lembrei do episódio do mictório no museu, e das garrafinhas com “ar de Paris”.
Falar do mictório no museu é explicar uma piada. É óbvio que a piada diz respeito a “o que é arte” x “o que é socialmente aceito como arte”. Mas também é óbvio que, se você quiser mesmo indagar o que é arte, o melhor meio para isso é um ensaio filosófico, ou um diálogo, ou uma questão disputada. Não vou entrar nessa discussão para não me alongar e para não perder de vista o que quero dizer. Se você quer falar do que é socialmente aceito como arte, é óbvio e tautológico: é aquilo que é socialmente aceito como arte, isso é, aquilo que as pessoas falam que é arte. Por “as pessoas” você deve entender o grupo ao qual você atribui prestígio.
E é pela questão do prestígio que chegamos à questão do socialmente. Toda a sociedade é organizada em torno do prestígio. Não estou dizendo que isso é bom ou ruim, devido ou indevido, estou dizendo que é assim. Ter diploma dá mais prestígio do que não ter diploma. Ter seu livro publicado por uma editora dá mais prestígio do que publicá-lo por conta própria. Os detentores do prestígio são sempre, e por definição, os outros. Assim, quem tem autoridade para dizer que você é artista, isso é, para conferir-lhe esse prestígio? Os outros. Assim como conhecedor de um assunto é quem é formado nele, poeta é quem tem seu livro publicado.
Você acha que é imune a isso? Que nada. Você está mais disposto a olhar com bons olhos o que você nas livrarias do que aquilo que lhe chega por e-mail. Você não contrataria um engenheiro que não fosse formado para construir sua casa. E, por favor, é claro que, em última instância, isso é uma generalização. Não venha com essa de, ao ouvir que todo mundo gosta de chocolate, vir com aquela serelepice mentecapta de dizer: “Eu conheço uma pessoa que não gosta de chocolate!”
A piada de Duchamp, então, é a seguinte: vamos colocar qualquer negócio no museu, de preferência algo escatológico, para ver um bando de manés (desses que refutam generalizações) adorando o ídolo, falando que ele “levanta questões”, enchendo a boca para discursar e para filosofar etc.
A reação a isso, que hoje é amplamente conhecida como conservadorismo, tem alguma razão: é muito melhor quando aquilo que recebe prestígio parece merecê-lo. Por exemplo, quando os museus exibem obras, e não objetos cuja função é tripudiar do público. Ou quando os diplomas concedidos pelas universidades correspondem a algum conhecimento mínimo verificável. A defesa disso, quase sempre associada ao esquerdismo, é aquele elitismo inconfessado que quer dizer: “ah, deixa, vamos rir desses otários”.
(Aliás, e eis um tema a ser desenvolvido, tendo a crer que uma diferença entre esquerda e direita está nisso: a direita defende um elitismo aberto, e a esquerda um elitismo esotérico. O sentimento de superioridade da esquerda vem de ela esconder melhor o fato de praticar aquilo que condena.)
Voltando a Damien Hirst, o que sucede é bastante simples. Após um século de confusão duchampiana & prosperidade capitalista, o público está disposto a pagar bastante pelo prestígio da arte. Existe a demanda. Por que deixar de aproveitá-la?
Falar do mictório no museu é explicar uma piada. É óbvio que a piada diz respeito a “o que é arte” x “o que é socialmente aceito como arte”. Mas também é óbvio que, se você quiser mesmo indagar o que é arte, o melhor meio para isso é um ensaio filosófico, ou um diálogo, ou uma questão disputada. Não vou entrar nessa discussão para não me alongar e para não perder de vista o que quero dizer. Se você quer falar do que é socialmente aceito como arte, é óbvio e tautológico: é aquilo que é socialmente aceito como arte, isso é, aquilo que as pessoas falam que é arte. Por “as pessoas” você deve entender o grupo ao qual você atribui prestígio.
E é pela questão do prestígio que chegamos à questão do socialmente. Toda a sociedade é organizada em torno do prestígio. Não estou dizendo que isso é bom ou ruim, devido ou indevido, estou dizendo que é assim. Ter diploma dá mais prestígio do que não ter diploma. Ter seu livro publicado por uma editora dá mais prestígio do que publicá-lo por conta própria. Os detentores do prestígio são sempre, e por definição, os outros. Assim, quem tem autoridade para dizer que você é artista, isso é, para conferir-lhe esse prestígio? Os outros. Assim como conhecedor de um assunto é quem é formado nele, poeta é quem tem seu livro publicado.
Você acha que é imune a isso? Que nada. Você está mais disposto a olhar com bons olhos o que você nas livrarias do que aquilo que lhe chega por e-mail. Você não contrataria um engenheiro que não fosse formado para construir sua casa. E, por favor, é claro que, em última instância, isso é uma generalização. Não venha com essa de, ao ouvir que todo mundo gosta de chocolate, vir com aquela serelepice mentecapta de dizer: “Eu conheço uma pessoa que não gosta de chocolate!”
A piada de Duchamp, então, é a seguinte: vamos colocar qualquer negócio no museu, de preferência algo escatológico, para ver um bando de manés (desses que refutam generalizações) adorando o ídolo, falando que ele “levanta questões”, enchendo a boca para discursar e para filosofar etc.
A reação a isso, que hoje é amplamente conhecida como conservadorismo, tem alguma razão: é muito melhor quando aquilo que recebe prestígio parece merecê-lo. Por exemplo, quando os museus exibem obras, e não objetos cuja função é tripudiar do público. Ou quando os diplomas concedidos pelas universidades correspondem a algum conhecimento mínimo verificável. A defesa disso, quase sempre associada ao esquerdismo, é aquele elitismo inconfessado que quer dizer: “ah, deixa, vamos rir desses otários”.
(Aliás, e eis um tema a ser desenvolvido, tendo a crer que uma diferença entre esquerda e direita está nisso: a direita defende um elitismo aberto, e a esquerda um elitismo esotérico. O sentimento de superioridade da esquerda vem de ela esconder melhor o fato de praticar aquilo que condena.)
Voltando a Damien Hirst, o que sucede é bastante simples. Após um século de confusão duchampiana & prosperidade capitalista, o público está disposto a pagar bastante pelo prestígio da arte. Existe a demanda. Por que deixar de aproveitá-la?
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Esperando o novo acordo ortográfico
Difícil é gostar do acordo ortográfico, e eu nunca vi uma única pessoa que o defendesse além dos gramáticos que o fizeram. É como se esses gramáticos tivessem inventado um imposto que beneficiasse o próprio ego, sabendo que, graças a uma imposição, milhões de pessoas no mundo inteiro agora poderão cometer novos erros ou policiar-se para não cometê-los. A súbita mão do fantasma oculto de Evanildo Bechara quer guiar-nos.
Eu mesmo não gosto do acordo ortográfico porque acho que a estabilidade da língua escrita é um bem que facilita a comunicação entre as gerações. Gostaria de mostrar a meus netos edições facsimilares de Os Lusíadas e deixá-los espantados com o fato de que séculos nos separam de Camões, mas não o idioma. Gostaria de não ter de "transliterar" Camões, ou de transliterar o mínimo. E se eu fosse escolher uma ortografia, seria aquela, a etimológica, que Fernando Pessoa usou para escrever Mensagem.
Também me parece evidente que não serão algumas mudanças ortográficas que vão ajudar a “unificar” o idioma. Não há como não sentir o gosto do português europeu quando lemos que alguém está a fazer alguma coisa, e não fazendo, e isso é só o começo. Há as diferenças de vocabulário – um amigo meu foi morar em Portugal quando criança e nunca se esqueceu da primeira vez que um adulto se referiu a ele como “o putinho”.
Eu trabalho com tradução e tenho de entregar meus textos com o acordo ortográfico. Comprei o corretor da Priberam e tudo bem. Mas só sei enunciar uma regra: não se acentua mais ditongo aberto em posição paroxítona. O resto é o corretor que faz. Ou então consulto o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, vulgo VOLP, vôupi (circunflexo pode?). Não posso deixar de pensar naquele diálogo de Platão (Fédon? Fedro?) em que Sócrates recusa a escrita porque vai acabar com sua memória. Nesse caso específico, eu poderia alegar que, pelo menos no que diz respeito à colocação de hífens, eu nunca jamais soube colocá-los, e não é agora que vou saber.
João Pereira Coutinho vem dizer na Folha que não se muda a língua por decreto. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, digo eu que se muda sim, e eis a experiência a demonstrá-lo amplamente. As editoras adotam o acordo, a imprensa adota o acordo, os concursos públicos adotam o acordo (e o brasileiro que não escreve profissionalmente só escreve em prova de concurso), o ENEM adota o acordo e por isso a escola adota o acordo etc. etc. etc. É duro admitir, mas a maleabilidade da língua portuguesa no Brasil a decretos está intimamente ligada à fraqueza da sociedade civil.
Complemento ainda com o seguinte, que já devo ter dito por aqui. Você entra numa Faculdade de Letras e lá estão os linguistas. Há lá os linguistas que só estudam as estruturas e o uso e tal, e são gente boníssima. Nunca falam da prescrição gramatical e aprendi um bocado com essas pessoas, que me mostraram que o que Chomsky tem de palhaço falando de política, tem de gênio falando de linguagem. Mas há também um bom grupo de professores que passam o dia falando mal da Nomenclatura Gramatical Brasileira, vulga NGB, e do ensino nas escolas. Ora, a NGB foi instituída por uma portaria do então Ministério da Educação e Cultura em 1959. Logo, a questão é de fato jurídica. Claro que alguém pode se perguntar se é função do Estado decidir regras de acentuação ou definir o que é um substantivo, mas isso, enfim, é uma questão de como as coisas deveriam ser, e não de como elas são.
Então, como diriam os paulistas, esses professores que só fazem falar mal da NGB (e eles nem estão errados no que dizem) também fazem outra coisa, que é falar de como as coisas deviam ser. E esse processo já deve ter algumas décadas. O establishment linguístico, digamos assim, não tem defensores ideológicos, não tem seus intelectuais orgânicos. Quem dá aula em cursinho e ensina a língua tal como cobrada em provas também tem lá suas críticas e não fala disso porque, bem, ganha-se por hora, e se o aluno fosse fazer Letras não precisava de cursinho.
Esses professores ainda não estão satisfeitos com o acordo atual. Eu sei que antes de morrer verei novas modificações. Há quem queira acabar com todos os acentos, há de tudo. O mesmo fantasma que há alguns anos subitamente lançou sua mão voltará, apenas com outro nome. Não se trata, como falei, de um fantasma oculto, mas de um espírito de permanente reforma, animado por aquele progressismo ressentido que acha que a “ciência” é a maneira mais elegante de esconder uma sensibilidade pobre e a sensação de estar “excluído”, mesmo que o governo dê escola, professor, lanche e transporte. Só não dá – espero que alguém se eleja prometendo isso! – a vontade de estudar e de passar mais tempo na biblioteca do que na cantina.
Eu mesmo não gosto do acordo ortográfico porque acho que a estabilidade da língua escrita é um bem que facilita a comunicação entre as gerações. Gostaria de mostrar a meus netos edições facsimilares de Os Lusíadas e deixá-los espantados com o fato de que séculos nos separam de Camões, mas não o idioma. Gostaria de não ter de "transliterar" Camões, ou de transliterar o mínimo. E se eu fosse escolher uma ortografia, seria aquela, a etimológica, que Fernando Pessoa usou para escrever Mensagem.
Também me parece evidente que não serão algumas mudanças ortográficas que vão ajudar a “unificar” o idioma. Não há como não sentir o gosto do português europeu quando lemos que alguém está a fazer alguma coisa, e não fazendo, e isso é só o começo. Há as diferenças de vocabulário – um amigo meu foi morar em Portugal quando criança e nunca se esqueceu da primeira vez que um adulto se referiu a ele como “o putinho”.
Eu trabalho com tradução e tenho de entregar meus textos com o acordo ortográfico. Comprei o corretor da Priberam e tudo bem. Mas só sei enunciar uma regra: não se acentua mais ditongo aberto em posição paroxítona. O resto é o corretor que faz. Ou então consulto o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, vulgo VOLP, vôupi (circunflexo pode?). Não posso deixar de pensar naquele diálogo de Platão (Fédon? Fedro?) em que Sócrates recusa a escrita porque vai acabar com sua memória. Nesse caso específico, eu poderia alegar que, pelo menos no que diz respeito à colocação de hífens, eu nunca jamais soube colocá-los, e não é agora que vou saber.
João Pereira Coutinho vem dizer na Folha que não se muda a língua por decreto. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, digo eu que se muda sim, e eis a experiência a demonstrá-lo amplamente. As editoras adotam o acordo, a imprensa adota o acordo, os concursos públicos adotam o acordo (e o brasileiro que não escreve profissionalmente só escreve em prova de concurso), o ENEM adota o acordo e por isso a escola adota o acordo etc. etc. etc. É duro admitir, mas a maleabilidade da língua portuguesa no Brasil a decretos está intimamente ligada à fraqueza da sociedade civil.
Complemento ainda com o seguinte, que já devo ter dito por aqui. Você entra numa Faculdade de Letras e lá estão os linguistas. Há lá os linguistas que só estudam as estruturas e o uso e tal, e são gente boníssima. Nunca falam da prescrição gramatical e aprendi um bocado com essas pessoas, que me mostraram que o que Chomsky tem de palhaço falando de política, tem de gênio falando de linguagem. Mas há também um bom grupo de professores que passam o dia falando mal da Nomenclatura Gramatical Brasileira, vulga NGB, e do ensino nas escolas. Ora, a NGB foi instituída por uma portaria do então Ministério da Educação e Cultura em 1959. Logo, a questão é de fato jurídica. Claro que alguém pode se perguntar se é função do Estado decidir regras de acentuação ou definir o que é um substantivo, mas isso, enfim, é uma questão de como as coisas deveriam ser, e não de como elas são.
Então, como diriam os paulistas, esses professores que só fazem falar mal da NGB (e eles nem estão errados no que dizem) também fazem outra coisa, que é falar de como as coisas deviam ser. E esse processo já deve ter algumas décadas. O establishment linguístico, digamos assim, não tem defensores ideológicos, não tem seus intelectuais orgânicos. Quem dá aula em cursinho e ensina a língua tal como cobrada em provas também tem lá suas críticas e não fala disso porque, bem, ganha-se por hora, e se o aluno fosse fazer Letras não precisava de cursinho.
Esses professores ainda não estão satisfeitos com o acordo atual. Eu sei que antes de morrer verei novas modificações. Há quem queira acabar com todos os acentos, há de tudo. O mesmo fantasma que há alguns anos subitamente lançou sua mão voltará, apenas com outro nome. Não se trata, como falei, de um fantasma oculto, mas de um espírito de permanente reforma, animado por aquele progressismo ressentido que acha que a “ciência” é a maneira mais elegante de esconder uma sensibilidade pobre e a sensação de estar “excluído”, mesmo que o governo dê escola, professor, lanche e transporte. Só não dá – espero que alguém se eleja prometendo isso! – a vontade de estudar e de passar mais tempo na biblioteca do que na cantina.
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Imigrantes e indústrias
Temos alguns milhares de imigrantes haitianos entrando pela fronteira no Amazonas. E o que seria isso para, rufem os tambores, soem as trombetas, a sexta maior economia do mundo? Aparentemente é demais, porque o nosso querido governo quer fechar a fronteira e só deixar entrar quem já recebeu visto no Haiti. Hoje alguma autoridade dizia que “o Brasil não pode assumir o Haiti”. Diria eu: pode sim. Claro que sob algumas condições.
O que sucede não é diferente do que já sucede desde… sempre? Temos um péssimo ambiente de negócios, e é por isso que toda hora o governo em todas as suas esferas fala em dar incentivos. Os Sacerdotes do Templo de Syrinx se reúnem em Brasília e decidem: vejam, este é um setor “estratégico”, vamos desviar a grana do pessoal que paga impostos para cá, ou vamos dispensar os empresários desse ramo desse ou daquele imposto. É claro que esse processo jamais é influenciado por lobbies ou por doações financeiras, por isso nem vou discutir a idoneidade dos Sacerdotes do Templo de Syrinx.
Nosso governo então olha os imigrantes e pensa: não estamos querendo incentivar a vinda daquilo que parece uma peãozada sem diploma que nem português fala. Preferimos dar incentivos para empresas milionárias.
Preciso agora concluir dizendo o óbvio? Não é preciso conter quatro mil imigrantes, nem ficar dando shakes de proteína para Setores Eleitos da Economia. Basta – caramba, sinto-me tão democrático ao dizer isso – melhorar o ambiente de negócios para todos. E aí, quem sabe, algum haitiano poderá virar milionário no Brasil.
O que sucede não é diferente do que já sucede desde… sempre? Temos um péssimo ambiente de negócios, e é por isso que toda hora o governo em todas as suas esferas fala em dar incentivos. Os Sacerdotes do Templo de Syrinx se reúnem em Brasília e decidem: vejam, este é um setor “estratégico”, vamos desviar a grana do pessoal que paga impostos para cá, ou vamos dispensar os empresários desse ramo desse ou daquele imposto. É claro que esse processo jamais é influenciado por lobbies ou por doações financeiras, por isso nem vou discutir a idoneidade dos Sacerdotes do Templo de Syrinx.
Nosso governo então olha os imigrantes e pensa: não estamos querendo incentivar a vinda daquilo que parece uma peãozada sem diploma que nem português fala. Preferimos dar incentivos para empresas milionárias.
Preciso agora concluir dizendo o óbvio? Não é preciso conter quatro mil imigrantes, nem ficar dando shakes de proteína para Setores Eleitos da Economia. Basta – caramba, sinto-me tão democrático ao dizer isso – melhorar o ambiente de negócios para todos. E aí, quem sabe, algum haitiano poderá virar milionário no Brasil.
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Epidemia de censurite
Uma coisa que definitivamente une esquerda e direita é o gosto por denunciar a censura. Estão todos sendo censurados. Agora é a fotógrafa Nan Goldin, que vem ao Diário do Balneário dizer que foi censurada porque o Oi Futuro, cá no Balneário, cancelou sua exposição. Mas, dona senhora, madame fotógrafa, o Oi Futuro é uma instituição privada. Instituições privadas não censuram. Só quem censura é o governo. Já repeti isso mil vezes, mas fazer o quê? A lenga-lenga em torno da censura parece imortal.
Se um artigo não é publicado na imprensa, isso não é censura. É exercício do direito de propriedade, o mesmo que garante que eu não tenha de ouvir na minha casa nada que eu não queira. Se uma exposição é rejeitada ou cancelada, isso pode até ser deselegante, mas não é censura. Mesmo que uma exposição ou um artigo sejam rejeitados por órgãos estatais, isso não é censura. Para que fosse censura, o Estado teria de vetar a exibição daquele material em qualquer lugar, ou proibir a circulação do texto. É tão difícil? Será que estarei me revelando um insensato ao dizer estas palavras? Ou será que devo bater na porta do sr. Otávio Frias Filho e dizer, socando a mesa, que eu tenho o direito de publicar meus textos na Folha de São Paulo?
Claro que o discurso dos que sofrem de censurite tremens é puro sensacionalismo. Mas não está aí o pessoal a dizer também que “ideias têm consequências”? Do jeito que a coisa vai, da próxima vez que eu pedir para tirarem a azeitona da minha pizza, já vou me preparar para ler no jornal um artigo do pizzaiolo: “Nossas receitas estão sendo censuradas. É nossa arte que está sendo sufocada!”
Se um artigo não é publicado na imprensa, isso não é censura. É exercício do direito de propriedade, o mesmo que garante que eu não tenha de ouvir na minha casa nada que eu não queira. Se uma exposição é rejeitada ou cancelada, isso pode até ser deselegante, mas não é censura. Mesmo que uma exposição ou um artigo sejam rejeitados por órgãos estatais, isso não é censura. Para que fosse censura, o Estado teria de vetar a exibição daquele material em qualquer lugar, ou proibir a circulação do texto. É tão difícil? Será que estarei me revelando um insensato ao dizer estas palavras? Ou será que devo bater na porta do sr. Otávio Frias Filho e dizer, socando a mesa, que eu tenho o direito de publicar meus textos na Folha de São Paulo?
Claro que o discurso dos que sofrem de censurite tremens é puro sensacionalismo. Mas não está aí o pessoal a dizer também que “ideias têm consequências”? Do jeito que a coisa vai, da próxima vez que eu pedir para tirarem a azeitona da minha pizza, já vou me preparar para ler no jornal um artigo do pizzaiolo: “Nossas receitas estão sendo censuradas. É nossa arte que está sendo sufocada!”
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
O capitalismo tem conserto?
Recife, 3 de novembro de 2011.
Antes mesmo de começar a discutir a questão, creio que é preciso fazer uma espécie de limpeza retórica, porque a primeira coisa que me chama a atenção é que uma crise financeira dos países capitalistas parece ser suficiente para condenar a ideia mesma de capitalismo, ao passo que os genocídios da China, da URSS, do Camboja, do Vietnã e até do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães não parecem suficientes para questionar a viabilidade, para nem falar da moralidade, do que seria o sistema rival, o socialismo. Hoje em dia você pode dizer que o socialismo deu errado na URSS por causa de Stálin, mas, francamente, isso me parece um tanto similar a dizer que foi Hitler que estragou o nazismo, que o nazismo merece credibilidade apesar de Hitler. E o mais engraçado é que defender Lênin, que também não era nenhum anjinho, é de certo modo defender a liberalização econômica, porque era isso que ele estava fazendo quando teve de abandonar o poder por causa da saúde.
A segunda observação importante é que o termo “capitalismo” foi criado por Karl Marx. É um termo pejorativo, que indica a dominação do capital. Isso não é muito diferente do que acontece com a palavra “neoliberal”. Eu nunca vi, e já trabalhei em duas organizações explicitamente dedicadas à defesa do liberalismo econômico, alguém que dissesse: “eu sou neoliberal”. Também não é muito diferente do que eu vejo as mulheres fazerem com o termo “periguete”. Nenhuma mulher se diz vulgar, nenhuma mulher se diz periguete. Vulgares e periguetes são as outras. Ninguém se autodenomina neoliberal nem periguete. Mas é verdade que existem pessoas que se dizem “capitalistas”. A diferença é que quando uma pessoa se diz “capitalista”, ela não está se dizendo a favor da dominação do capital, mas a favor de um sistema de trocas livres. Quer dizer, o termo “capitalista” muda de sentido dependendo de quem está falando. Eu mesmo não defenderia a dominação do capital, que sob muitos aspectos efetivamente existe, ainda que não na forma parcial imaginada pelos manifestantes lá de Wall Street, mas um capitalismo mais livre, que seria melhor denominado simplesmente de liberalismo. Esse liberalismo, sobretudo como posição ética, é que provavelmente ajudaria a consertar o capitalismo e a conter suas crises.
O “capitalismo” no sentido positivo ou liberalismo seria basicamente um sistema de trocas baseado na especialização de cada participante. Eu traduzo, você faz pontes, nós vendemos nossos serviços uns aos outros. Esse sistema é tão natural que nem mesmo o socialismo conseguiu destruí-lo. O sistema coletivista da URSS apenas criou um mercado negro paralelo cujos preços eram artificialmente elevados. Por isso também eu mesmo defendo menos interferência dos governos, e acho que eles devem proteger mais os consumidores do que as empresas. Proteger os consumidores e não as empresas seria, por exemplo, não aumentar o IPI de carros importados não sei de onde para que você possa pagar mais caro por um carro só porque ele foi gloriosamente produzido no Brasil. O nacionalismo está sempre ligado à ideia de que enriquecer os empresários locais é de algum modo moralmente superior a enriquecer um empresário estrangeiro, mesmo que o estrangeiro tenha um produto melhor e mais barato.
Os manifestas de Wall Street até me despertam alguma simpatia. Mas existe um grave equívoco, que é a parcialidade do movimento. Não faz sentido ocupar Wall Street sem ocupar também Washington e sobretudo o Fed, o Banco Central americano. A crise americana não foi produto exclusivo de gananciosos especuladores, mas a obra conjunta de especuladores e de burocratas. De um lado, o Fed combateu crises aumentando a liquidez da economia; ainda desse mesmo lado, o governo federal americano estimulou o crédito imobiliário para pessoas que não poderiam pagar. Do outro lado, os financistas aproveitaram os incentivos que tinham. É o efeito do multiplicador bancário: o banco empresta o seu dinheiro a partir da crença de que você não vai sacá-lo. Ter um banco é gerenciar esses riscos e de fato os bancos americanos chegaram a emprestar, em alguns casos, 200 vezes aquilo que efetivamente possuíam. Aqui no Brasil isso não aconteceria, é verdade, por causa da regulamentação, que não permite uma alavancagem tão elevada. Além disso, ao contrário do que ocorre nos EUA, aqui os sócios dos bancos têm de responder pelas perdas com seus patrimônios pessoais. Mas, voltando ao caso americano e à participação do governo, metade das dívidas podres estava nas mãos de dois bancos imobiliários do governo, e já havia a ideia de que qualquer perda seria compensada com as famosas injeções de liquidez: o governo ia botar mais dinheiro na economia.
Nesse ponto eu devo observar que ao menos um manifestante de Wall Street foi direto ao ponto, até de maneira um pouco filosófica, exibindo um cartaz que pedia o fim da moeda fiduciária. É verdade que essa crise só poderia acontecer num sistema de moeda fiduciária sem lastro. E por quê? É só olhar o nome da moeda: ela é fiduciária, baseada em fé, em credibilidade, em crédito. Mas devo me interromper a mim mesmo para dizer que não vou defender aqui o padrão-ouro. Primeiro, até onde eu sei, o sistema do padrão-ouro também tem seus problemas. Tudo tem suas vantagens e desvantagens próprias. Segundo, porque eu não acredito que o ouro tenha um valor intrínseco. Nada tem valor por si; todo valor é atribuído. Mas esse valor também não é aleatoriamente atribuído; daí é que vem a credibilidade. Você dá credibilidade ao emissor da moeda e à sua capacidade de honrar suas dívidas. Isso não é tão distinto da experiência comum de um profissional do setor privado. Eu mesmo sou tradutor. O valor que cobro dos meus clientes depende da minha credibilidade, isso é, de eles estarem convencidos de que eu vou entregar um bom trabalho num prazo razoável e sem apresentar dificuldades. Não vou enviar um texto cortado, dizendo que não consegui traduzir uma parte – isso é, não vou ficar dando desculpas. Do mesmo modo, qual moeda tem mais valor? A moeda emitida pelo governo que tem mais credibilidade. Essa credibilidade, no caso de um governo, não vem só das agências de rating, que aliás reduziram a credibilidade do governo americano enquanto pagador de dívidas de super ultra deluxe premium plus para apenas super ultra deluxe premium. A credibilidade vem de diversos fatores. Da segurança jurídica americana. Da facilidade de fazer negócios. Não vou dizer que os EUA sejam perfeitos, até por causa das crises. Mas o fato de que, há quinze dias, uma Europa em crise por causa da Grécia fazia o dólar subir de preço mostra quanta credibilidade os EUA têm. A politização da moeda começa aí mesmo, ela é emitida por um governo e as pessoas vão ver como esse governo se comporta. Aliás, não apenas os EUA recebem os maiores fluxos de dinheiro, como também recebem os maiores fluxos de imigrantes. Quando a coisa aperta, você confia em ir para os EUA. Os EUA em crise, com duas guerras, com Wall Street ocupada, parecem melhores do que todos os demais países do mundo, na opinião da maioria dos imigrantes, porque lá é fácil trabalhar, empreender, ter um negócio, ser muçulmano, ser ateu, e até comprar um busto barato de Stálin para colocar na sala de jantar se você quiser. É muito engraçado que o país que representa o capitalismo no mau sentido de Marx, inclusive num mau sentido justo, devido às estripulias financeiras, seja o país para o qual as massas oprimidas do mundo fogem assim que têm chance. Credibilidade é isso. Você não vai me contratar porque eu prometo uma tradução boa, vinda do mundo melhor. Você vai me contratar porque veja, aqui está a tradução, ela pode ter erros (todas têm), mas ela é bem melhor do que as alternativas realmente existentes. Com toda a sua perversidade financeira, o capitalismo realmente existente é melhor do que todas as outras alternativas que existem no mundo concreto, isso na opinião de investidores e de imigrantes.
Num certo sentido, perguntar se o sistema financeiro internacional realmente existente tem conserto é pedir por duas respostas. A primeira, filosófica demais, é: claro que não, porque nada que é humano tem conserto, estamos fadados à nobre arte de empurrar com a barriga e minimizar as perdas. Nesse ponto, aliás, o sistema econômico descentralizado se mostrou tão mais eficaz em poupar vítimas que compará-lo com o sistema de economia planejada, ou socialismo, me parece até patológico num sentido dostoievskiano. Há cem anos um marido alcoólatra espanca a mulher e você quer lhe dar mais uma chance só porque ele toca “Imagine” do John Lennon no piano e você se derrete. A segunda resposta de certo modo decorre da primeira: algum ajuste será feito, mas não necessariamente será positivo. Claro que poderia ser feito algum ajuste positivo. Mas acho que se eu soubesse elaborar um ajuste convincente, específico, que fosse além do feijão com arroz que os liberais sempre repetem, meu nome estaria na lista de indicados ao Nobel. De todo modo, imagino que diminuir a alavancagem dos bancos seja importante, ainda que isso talvez viesse a custar em termos de prosperidade e nenhum político quer enfrentar a dureza de um ajuste deflacionário. Nenhum presidente ou candidato a presidente vai querer bater no peito e dizer que no governo dele vamos tomar o remédio amargo e cortar despesas. Além disso, considero fundamental que bancos e banqueiros respondam com seu capital privado. Assumir um risco não é em si um mérito que pede recompensa; é preciso arcar com os prejuízos. Até porque sempre somos mais prudentes com o nosso próprio dinheiro.
Por isso é que o capitalismo, tomado como a associação perversa de bancos centrais e financistas para manipular riscos e moedas, pode ser amplamente melhorado pelo liberalismo, por um governo mais estável, que tenha regras mais claras, que dê segurança jurídica, que não impeça a iniciativa individual (eu mesmo preciso de um alvará da prefeitura para traduzir em casa, isso é, eu preciso de um documento do governo para escrever no meu computador), que não queira planejar nem dirigir a economia, que não favoreça os grandes empresários. É claro que existe algo de utópico nisso no sentido de que nunca haverá um país perfeitamente liberal, mas esse é um ideal mais realizável, ou ao menos é um ideal ao qual se pode tender. Tanto é que os países que mais tendem a ele são os mais prósperos, em que, novamente, os imigrantes do mundo escolhem morar. Aqui mesmo no Brasil poderíamos ajustar nossa estrutura tributária, melhorar a facilidade de fazer negócios, de empreender, cortar subsídios diretos e indiretos a grandes empresas, derrubar as alianças entre o setor privado que vive de dinheiro fácil do Estado e o Estado que vicia o setor privado por meio de grandes projetos, e criar um capitalismo mais liberal, que seria melhor para todos, e não só para meia dúzia de políticos, de banqueiros e de empresários.
Antes mesmo de começar a discutir a questão, creio que é preciso fazer uma espécie de limpeza retórica, porque a primeira coisa que me chama a atenção é que uma crise financeira dos países capitalistas parece ser suficiente para condenar a ideia mesma de capitalismo, ao passo que os genocídios da China, da URSS, do Camboja, do Vietnã e até do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães não parecem suficientes para questionar a viabilidade, para nem falar da moralidade, do que seria o sistema rival, o socialismo. Hoje em dia você pode dizer que o socialismo deu errado na URSS por causa de Stálin, mas, francamente, isso me parece um tanto similar a dizer que foi Hitler que estragou o nazismo, que o nazismo merece credibilidade apesar de Hitler. E o mais engraçado é que defender Lênin, que também não era nenhum anjinho, é de certo modo defender a liberalização econômica, porque era isso que ele estava fazendo quando teve de abandonar o poder por causa da saúde.
A segunda observação importante é que o termo “capitalismo” foi criado por Karl Marx. É um termo pejorativo, que indica a dominação do capital. Isso não é muito diferente do que acontece com a palavra “neoliberal”. Eu nunca vi, e já trabalhei em duas organizações explicitamente dedicadas à defesa do liberalismo econômico, alguém que dissesse: “eu sou neoliberal”. Também não é muito diferente do que eu vejo as mulheres fazerem com o termo “periguete”. Nenhuma mulher se diz vulgar, nenhuma mulher se diz periguete. Vulgares e periguetes são as outras. Ninguém se autodenomina neoliberal nem periguete. Mas é verdade que existem pessoas que se dizem “capitalistas”. A diferença é que quando uma pessoa se diz “capitalista”, ela não está se dizendo a favor da dominação do capital, mas a favor de um sistema de trocas livres. Quer dizer, o termo “capitalista” muda de sentido dependendo de quem está falando. Eu mesmo não defenderia a dominação do capital, que sob muitos aspectos efetivamente existe, ainda que não na forma parcial imaginada pelos manifestantes lá de Wall Street, mas um capitalismo mais livre, que seria melhor denominado simplesmente de liberalismo. Esse liberalismo, sobretudo como posição ética, é que provavelmente ajudaria a consertar o capitalismo e a conter suas crises.
O “capitalismo” no sentido positivo ou liberalismo seria basicamente um sistema de trocas baseado na especialização de cada participante. Eu traduzo, você faz pontes, nós vendemos nossos serviços uns aos outros. Esse sistema é tão natural que nem mesmo o socialismo conseguiu destruí-lo. O sistema coletivista da URSS apenas criou um mercado negro paralelo cujos preços eram artificialmente elevados. Por isso também eu mesmo defendo menos interferência dos governos, e acho que eles devem proteger mais os consumidores do que as empresas. Proteger os consumidores e não as empresas seria, por exemplo, não aumentar o IPI de carros importados não sei de onde para que você possa pagar mais caro por um carro só porque ele foi gloriosamente produzido no Brasil. O nacionalismo está sempre ligado à ideia de que enriquecer os empresários locais é de algum modo moralmente superior a enriquecer um empresário estrangeiro, mesmo que o estrangeiro tenha um produto melhor e mais barato.
Os manifestas de Wall Street até me despertam alguma simpatia. Mas existe um grave equívoco, que é a parcialidade do movimento. Não faz sentido ocupar Wall Street sem ocupar também Washington e sobretudo o Fed, o Banco Central americano. A crise americana não foi produto exclusivo de gananciosos especuladores, mas a obra conjunta de especuladores e de burocratas. De um lado, o Fed combateu crises aumentando a liquidez da economia; ainda desse mesmo lado, o governo federal americano estimulou o crédito imobiliário para pessoas que não poderiam pagar. Do outro lado, os financistas aproveitaram os incentivos que tinham. É o efeito do multiplicador bancário: o banco empresta o seu dinheiro a partir da crença de que você não vai sacá-lo. Ter um banco é gerenciar esses riscos e de fato os bancos americanos chegaram a emprestar, em alguns casos, 200 vezes aquilo que efetivamente possuíam. Aqui no Brasil isso não aconteceria, é verdade, por causa da regulamentação, que não permite uma alavancagem tão elevada. Além disso, ao contrário do que ocorre nos EUA, aqui os sócios dos bancos têm de responder pelas perdas com seus patrimônios pessoais. Mas, voltando ao caso americano e à participação do governo, metade das dívidas podres estava nas mãos de dois bancos imobiliários do governo, e já havia a ideia de que qualquer perda seria compensada com as famosas injeções de liquidez: o governo ia botar mais dinheiro na economia.
Nesse ponto eu devo observar que ao menos um manifestante de Wall Street foi direto ao ponto, até de maneira um pouco filosófica, exibindo um cartaz que pedia o fim da moeda fiduciária. É verdade que essa crise só poderia acontecer num sistema de moeda fiduciária sem lastro. E por quê? É só olhar o nome da moeda: ela é fiduciária, baseada em fé, em credibilidade, em crédito. Mas devo me interromper a mim mesmo para dizer que não vou defender aqui o padrão-ouro. Primeiro, até onde eu sei, o sistema do padrão-ouro também tem seus problemas. Tudo tem suas vantagens e desvantagens próprias. Segundo, porque eu não acredito que o ouro tenha um valor intrínseco. Nada tem valor por si; todo valor é atribuído. Mas esse valor também não é aleatoriamente atribuído; daí é que vem a credibilidade. Você dá credibilidade ao emissor da moeda e à sua capacidade de honrar suas dívidas. Isso não é tão distinto da experiência comum de um profissional do setor privado. Eu mesmo sou tradutor. O valor que cobro dos meus clientes depende da minha credibilidade, isso é, de eles estarem convencidos de que eu vou entregar um bom trabalho num prazo razoável e sem apresentar dificuldades. Não vou enviar um texto cortado, dizendo que não consegui traduzir uma parte – isso é, não vou ficar dando desculpas. Do mesmo modo, qual moeda tem mais valor? A moeda emitida pelo governo que tem mais credibilidade. Essa credibilidade, no caso de um governo, não vem só das agências de rating, que aliás reduziram a credibilidade do governo americano enquanto pagador de dívidas de super ultra deluxe premium plus para apenas super ultra deluxe premium. A credibilidade vem de diversos fatores. Da segurança jurídica americana. Da facilidade de fazer negócios. Não vou dizer que os EUA sejam perfeitos, até por causa das crises. Mas o fato de que, há quinze dias, uma Europa em crise por causa da Grécia fazia o dólar subir de preço mostra quanta credibilidade os EUA têm. A politização da moeda começa aí mesmo, ela é emitida por um governo e as pessoas vão ver como esse governo se comporta. Aliás, não apenas os EUA recebem os maiores fluxos de dinheiro, como também recebem os maiores fluxos de imigrantes. Quando a coisa aperta, você confia em ir para os EUA. Os EUA em crise, com duas guerras, com Wall Street ocupada, parecem melhores do que todos os demais países do mundo, na opinião da maioria dos imigrantes, porque lá é fácil trabalhar, empreender, ter um negócio, ser muçulmano, ser ateu, e até comprar um busto barato de Stálin para colocar na sala de jantar se você quiser. É muito engraçado que o país que representa o capitalismo no mau sentido de Marx, inclusive num mau sentido justo, devido às estripulias financeiras, seja o país para o qual as massas oprimidas do mundo fogem assim que têm chance. Credibilidade é isso. Você não vai me contratar porque eu prometo uma tradução boa, vinda do mundo melhor. Você vai me contratar porque veja, aqui está a tradução, ela pode ter erros (todas têm), mas ela é bem melhor do que as alternativas realmente existentes. Com toda a sua perversidade financeira, o capitalismo realmente existente é melhor do que todas as outras alternativas que existem no mundo concreto, isso na opinião de investidores e de imigrantes.
Num certo sentido, perguntar se o sistema financeiro internacional realmente existente tem conserto é pedir por duas respostas. A primeira, filosófica demais, é: claro que não, porque nada que é humano tem conserto, estamos fadados à nobre arte de empurrar com a barriga e minimizar as perdas. Nesse ponto, aliás, o sistema econômico descentralizado se mostrou tão mais eficaz em poupar vítimas que compará-lo com o sistema de economia planejada, ou socialismo, me parece até patológico num sentido dostoievskiano. Há cem anos um marido alcoólatra espanca a mulher e você quer lhe dar mais uma chance só porque ele toca “Imagine” do John Lennon no piano e você se derrete. A segunda resposta de certo modo decorre da primeira: algum ajuste será feito, mas não necessariamente será positivo. Claro que poderia ser feito algum ajuste positivo. Mas acho que se eu soubesse elaborar um ajuste convincente, específico, que fosse além do feijão com arroz que os liberais sempre repetem, meu nome estaria na lista de indicados ao Nobel. De todo modo, imagino que diminuir a alavancagem dos bancos seja importante, ainda que isso talvez viesse a custar em termos de prosperidade e nenhum político quer enfrentar a dureza de um ajuste deflacionário. Nenhum presidente ou candidato a presidente vai querer bater no peito e dizer que no governo dele vamos tomar o remédio amargo e cortar despesas. Além disso, considero fundamental que bancos e banqueiros respondam com seu capital privado. Assumir um risco não é em si um mérito que pede recompensa; é preciso arcar com os prejuízos. Até porque sempre somos mais prudentes com o nosso próprio dinheiro.
Por isso é que o capitalismo, tomado como a associação perversa de bancos centrais e financistas para manipular riscos e moedas, pode ser amplamente melhorado pelo liberalismo, por um governo mais estável, que tenha regras mais claras, que dê segurança jurídica, que não impeça a iniciativa individual (eu mesmo preciso de um alvará da prefeitura para traduzir em casa, isso é, eu preciso de um documento do governo para escrever no meu computador), que não queira planejar nem dirigir a economia, que não favoreça os grandes empresários. É claro que existe algo de utópico nisso no sentido de que nunca haverá um país perfeitamente liberal, mas esse é um ideal mais realizável, ou ao menos é um ideal ao qual se pode tender. Tanto é que os países que mais tendem a ele são os mais prósperos, em que, novamente, os imigrantes do mundo escolhem morar. Aqui mesmo no Brasil poderíamos ajustar nossa estrutura tributária, melhorar a facilidade de fazer negócios, de empreender, cortar subsídios diretos e indiretos a grandes empresas, derrubar as alianças entre o setor privado que vive de dinheiro fácil do Estado e o Estado que vicia o setor privado por meio de grandes projetos, e criar um capitalismo mais liberal, que seria melhor para todos, e não só para meia dúzia de políticos, de banqueiros e de empresários.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Rumo a Recife
Nesta quinta, dia 3 de novembro, estarei com o pessoal do OrdemLivre.org em Recife, para encerrar a caravana Liberdade na Estrada.
3/11/2011 às 14h
Local: Universidade Federal de Pernambuco – Anfiteatro CCSA
Debatedores:
Diogo Costa
Mestre em Teoria Política pela Columbia University e professor de Relações Internacionais do Ibmec-MG
Claudio Shikida
Doutor em Economia pela UFRGS e professor do Ibmec-MG
Pedro Sette-Câmara
Formado em grego clássico pela UFRJ
André Regis
Doutor em Ciência Política pela New School for Social Research
Pierre Lucena
Doutor em Administração de Empresas pela PUC-RJ
Alessandra Uchôa Sisnando
Douturanda em Filosofia pela UFPE.
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Avisos
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Enquanto uns vão de Anna Netrebko...
... eu passo meus dias ouvindo Sol Gabetta.
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Música
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Políticos viciam a juventude em crack
Tenho lido no Diário do Balneário que agora querem dar meia passagem para todos os estudantes de 14 a 29 anos em transportes intermunicipais e interestaduais. O governo subsidiaria isso.
Acho que a melhor maneira de olhar o problema é pensar na meia entrada para espetáculos. Em que medida ela é defensável? Ora, na medida em que boa parte da produção cultural brasileira não dá prejuízo. Graças à Lei Rouanet, só tem prejuízo quem quer. O empresário pode estrear seu espetáculo com tudo pago. Dali em diante, é lucro. Eu acho, nesse sentido, que meia entrada talvez seja até pouco... Mas o mais interessante é que, do ponto de vista do estímulo que a meia entrada representaria para que o público saísse de casa, ao menos no teatro (a área que mais me interessa especificamente) ela nem funciona. Diversas peças vendem ingressos abaixo da meia em sites de compras coletivas e nem assim a casa fica meio cheia. Ou seja: o problema do teatro brasileiro certamente não é o preço do ingresso. (Até porque uma pessoa de classe média não paga 10 reais para ir ao teatro no Rio mas paga 100 dólares e passagem para os EUA para ver um espetáculo na Broadway.)
E agora a meia-entrada para transportes. É a contrapartida do lobby das empresas de transportes? É o preço da proteção concedida pelo Estado aos feudos de consumidores sem alternativas? Se for, então...
Mas, no meu caso, só posso dizer uma coisa. Eu trabalho com tradução. No dia em que o governo inventar que o estudante pode pagar apenas meia lauda, eu, que não tenho dinheiro no banco nem amigos importantes, vou dobrar meu preço, ou mudar de ramo.
Fico pensando na velha lenga-lenga de “o Brasil não vai para frente”. Se não vai, é porque o estudante quer pagar meia, o empresário quer subsídio, e o governo, para gerenciar tudo isso e dar ares de respeitabilidade à coisa, cobra também a sua taxa, naturalmente de quem não paga meia em nada nem recebe subsídio nenhum.
Os jovens políticos de hoje prometem meia, contribuem para esse esquemão, e vão lembrando de dois em dois anos àqueles seus eleitores que desde os 16 anos já votam quem foi que sempre garantiu seu vício em benesses estatais. Tudo sempre circundado daquele discursinho piegas que vai dizer que meia passagem, meia entrada etc. é a proteção da civilização ocidental, da nossa identidade, nossas raízes etc. Igualzinho a um empresário pedindo proteção estatal a seu feudo contra aqueles malditos empreendedores que vendem coisas mais baratas que os consumidores preferem.
Isso tem fim? Ora, como disse Alan Greenspan, we can always print money.
Acho que a melhor maneira de olhar o problema é pensar na meia entrada para espetáculos. Em que medida ela é defensável? Ora, na medida em que boa parte da produção cultural brasileira não dá prejuízo. Graças à Lei Rouanet, só tem prejuízo quem quer. O empresário pode estrear seu espetáculo com tudo pago. Dali em diante, é lucro. Eu acho, nesse sentido, que meia entrada talvez seja até pouco... Mas o mais interessante é que, do ponto de vista do estímulo que a meia entrada representaria para que o público saísse de casa, ao menos no teatro (a área que mais me interessa especificamente) ela nem funciona. Diversas peças vendem ingressos abaixo da meia em sites de compras coletivas e nem assim a casa fica meio cheia. Ou seja: o problema do teatro brasileiro certamente não é o preço do ingresso. (Até porque uma pessoa de classe média não paga 10 reais para ir ao teatro no Rio mas paga 100 dólares e passagem para os EUA para ver um espetáculo na Broadway.)
E agora a meia-entrada para transportes. É a contrapartida do lobby das empresas de transportes? É o preço da proteção concedida pelo Estado aos feudos de consumidores sem alternativas? Se for, então...
Mas, no meu caso, só posso dizer uma coisa. Eu trabalho com tradução. No dia em que o governo inventar que o estudante pode pagar apenas meia lauda, eu, que não tenho dinheiro no banco nem amigos importantes, vou dobrar meu preço, ou mudar de ramo.
Fico pensando na velha lenga-lenga de “o Brasil não vai para frente”. Se não vai, é porque o estudante quer pagar meia, o empresário quer subsídio, e o governo, para gerenciar tudo isso e dar ares de respeitabilidade à coisa, cobra também a sua taxa, naturalmente de quem não paga meia em nada nem recebe subsídio nenhum.
Os jovens políticos de hoje prometem meia, contribuem para esse esquemão, e vão lembrando de dois em dois anos àqueles seus eleitores que desde os 16 anos já votam quem foi que sempre garantiu seu vício em benesses estatais. Tudo sempre circundado daquele discursinho piegas que vai dizer que meia passagem, meia entrada etc. é a proteção da civilização ocidental, da nossa identidade, nossas raízes etc. Igualzinho a um empresário pedindo proteção estatal a seu feudo contra aqueles malditos empreendedores que vendem coisas mais baratas que os consumidores preferem.
Isso tem fim? Ora, como disse Alan Greenspan, we can always print money.
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Política
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Food for Thought / Thought for Food
Um amigo me manda uma foto de um estabelecimento na Tijuca:

Um bom lugar para pedir um café e começar a ler seu exemplar de Rematar Clausewitz.
Um bom lugar para pedir um café e começar a ler seu exemplar de Rematar Clausewitz.
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René Girard
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Xoxó x Pedro, a cólera de Érico
1. O lendário Caribó Xoxó fez-me umas perguntas e, vejam só, eu as respondi. Como diz Brás Cubas, "cousa é que admira e consterna".
2. Érico Nogueira, aliás jabutizável, denunciou a trapalhada e Denise Bottmann anunciou que a denúncia teve efeito.
Trocar "Odisseu" por "Ulisses" e "atrida" por "átrida" num texto de poesia e achar que nada vai mudar. Isso é que dá as faculdades de Letras terem 20 matérias demasturbação mental teoria literária e 2 de literatura.
2. Érico Nogueira, aliás jabutizável, denunciou a trapalhada e Denise Bottmann anunciou que a denúncia teve efeito.
Trocar "Odisseu" por "Ulisses" e "atrida" por "átrida" num texto de poesia e achar que nada vai mudar. Isso é que dá as faculdades de Letras terem 20 matérias de
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Literatura
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Fósseis sonâmbulos
Num país que ainda tem uma cultura “de elite” tão uniforme quanto o nosso, pergunto-me quanto tempo vai levar para que a cultura da transgressão finalmente vá embora. Não estou falando da transgressão como estrutura, isso é, como transgressão real, porque nada pode se manter nessas bases. Falo da transgressão como tema, como conteúdo.
Fiquei pensando nisso depois que, na fila do estacionamento de um shopping, ouvi um diretor de teatro e uma atriz de TV conversando sobre A árvore da vida, de Terrence Mallick. E eles só sabiam falar sobre como o garoto do filme tinha um pai “repressor, católico”. Lá vamos nós de novo: a imaginação de quem nasceu a partir de 1950 e trabalha com artes às vezes não consegue sequer conceber, supor, imaginar, devanear que alguma ordem estabelecida e realmente existente possa ter alguma razão de ser.
Eu entendi o filme (para além de gostar ou não gostar, porque acho que no caso de Terrence Mallick já nascemos predispostos a gostar ou a não gostar) como uma narrativa proustiana de recuperação do tempo perdido, a rememoração pessoal que um homem faz dos aspectos da sua vida, de certos acontecimentos, e como isso não só faz dele aquilo que ele é, mas também o liga ao resto da humanidade. Há uma progressão no filme: eu vejo o mal de um lado só, depois reconheço o mal em mim, depois vejo que há o impremeditado e que o mal faz parte dele, e depois relaciono isso com a estrutura mesma da espécie, da ordem do mundo.
Pretensioso, sem dúvida. Mas a imaginação do espectador autístico brasileiro nunca sai da mesma clave: a identificação do mal de um lado só. Mal esse que é vagamente identificado com os aspectos mais duros da ordem estabelecida, ordem essa que portanto merece ser transgredida. E a transgressão nada mais é do que uma reafirmação autoconsciente daquilo que o sujeito transgressor sempre teria desejado. Algo como uma criança que quer comer biscoito, um desejo deveras inofensivo, até que alguém lhe diz que é feio comer biscoito durante a missa. Começa então a slutwalk: “Se eu comer biscoito te ofende, problema seu.” “Tenho direito de comer biscoito sem ser incomodado.” “Como biscoito para mim e não para você.” “No fundo você quer é comer o meu biscoito.” “A culpa não é de quem come biscoito.”
Lá em cima eu falei que era transgressão como tema e não como estrutura. Claro que há nisso um aspecto estrutural, porque pode ser aplicado a qualquer tema, digamos. Mas a estrutura vira tema na medida em que se fecha, em que não há progressão de níveis. Há o transgressor e o transgredido, e nunca há mudança de papéis, nem multiplicidade de aspectos, porque não há consciência trágica. (Naturalmente, não há consciência trágica no espectador brasileiro por causa do Ministério da Educação. Isso poderia ser ensinado em aulas de literatura.)
Se houvesse consciência trágica, as coisas teriam de ser levadas às últimas consequências. O garoto come biscoito durante a missa e é reprimido. Ele reage. Há outra reação. O garoto é expulso da missa e se vinga junto com outros garotos. Eles vencem e toda autoridade é abolida. O que vem depois disso? É só lembrar da Revolução Francesa: eles começam a brigar entre si, e vão matando uns aos outros, até que a história acabe por falta de personagens ou que surja uma força ainda maior que os domine.
Como A árvore da vida é uma narrativa de memória seletiva, a ordenação estética de uma tomada de consciência esparsa e demorada, a consciência trágica aparece como percepção da possibilidade do mal e da violência. É o garoto “oprimido” pelo pai que percebe que ele mesmo não é nenhum anjinho. Mas os meus colegas da fila do estacionamento, aqueles dois artistas famosos, não pareciam enxergar nada além de um menino oprimido pelo sistema representado pelo pai que começa a se revoltar. Não enxergam nada além disso porque provavelmente até hoje creem num sonho geracional sessentista, e, como Arnaldo Jabor, têm a amplitude imaginativa de um fóssil sonâmbulo.
Fiquei pensando nisso depois que, na fila do estacionamento de um shopping, ouvi um diretor de teatro e uma atriz de TV conversando sobre A árvore da vida, de Terrence Mallick. E eles só sabiam falar sobre como o garoto do filme tinha um pai “repressor, católico”. Lá vamos nós de novo: a imaginação de quem nasceu a partir de 1950 e trabalha com artes às vezes não consegue sequer conceber, supor, imaginar, devanear que alguma ordem estabelecida e realmente existente possa ter alguma razão de ser.
Eu entendi o filme (para além de gostar ou não gostar, porque acho que no caso de Terrence Mallick já nascemos predispostos a gostar ou a não gostar) como uma narrativa proustiana de recuperação do tempo perdido, a rememoração pessoal que um homem faz dos aspectos da sua vida, de certos acontecimentos, e como isso não só faz dele aquilo que ele é, mas também o liga ao resto da humanidade. Há uma progressão no filme: eu vejo o mal de um lado só, depois reconheço o mal em mim, depois vejo que há o impremeditado e que o mal faz parte dele, e depois relaciono isso com a estrutura mesma da espécie, da ordem do mundo.
Pretensioso, sem dúvida. Mas a imaginação do espectador autístico brasileiro nunca sai da mesma clave: a identificação do mal de um lado só. Mal esse que é vagamente identificado com os aspectos mais duros da ordem estabelecida, ordem essa que portanto merece ser transgredida. E a transgressão nada mais é do que uma reafirmação autoconsciente daquilo que o sujeito transgressor sempre teria desejado. Algo como uma criança que quer comer biscoito, um desejo deveras inofensivo, até que alguém lhe diz que é feio comer biscoito durante a missa. Começa então a slutwalk: “Se eu comer biscoito te ofende, problema seu.” “Tenho direito de comer biscoito sem ser incomodado.” “Como biscoito para mim e não para você.” “No fundo você quer é comer o meu biscoito.” “A culpa não é de quem come biscoito.”
Lá em cima eu falei que era transgressão como tema e não como estrutura. Claro que há nisso um aspecto estrutural, porque pode ser aplicado a qualquer tema, digamos. Mas a estrutura vira tema na medida em que se fecha, em que não há progressão de níveis. Há o transgressor e o transgredido, e nunca há mudança de papéis, nem multiplicidade de aspectos, porque não há consciência trágica. (Naturalmente, não há consciência trágica no espectador brasileiro por causa do Ministério da Educação. Isso poderia ser ensinado em aulas de literatura.)
Se houvesse consciência trágica, as coisas teriam de ser levadas às últimas consequências. O garoto come biscoito durante a missa e é reprimido. Ele reage. Há outra reação. O garoto é expulso da missa e se vinga junto com outros garotos. Eles vencem e toda autoridade é abolida. O que vem depois disso? É só lembrar da Revolução Francesa: eles começam a brigar entre si, e vão matando uns aos outros, até que a história acabe por falta de personagens ou que surja uma força ainda maior que os domine.
Como A árvore da vida é uma narrativa de memória seletiva, a ordenação estética de uma tomada de consciência esparsa e demorada, a consciência trágica aparece como percepção da possibilidade do mal e da violência. É o garoto “oprimido” pelo pai que percebe que ele mesmo não é nenhum anjinho. Mas os meus colegas da fila do estacionamento, aqueles dois artistas famosos, não pareciam enxergar nada além de um menino oprimido pelo sistema representado pelo pai que começa a se revoltar. Não enxergam nada além disso porque provavelmente até hoje creem num sonho geracional sessentista, e, como Arnaldo Jabor, têm a amplitude imaginativa de um fóssil sonâmbulo.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Colóquio de Filosofia Antiga (Rio de Janeiro)
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