segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

Será que os "muçulmanos moderados" amam a verdade?

Esta foi minha primeira colaboração com O Insurgente.

I

Toda vez que leio a expressão “Islam moderado” sinto uma certa náusea. Porque eu não entendo tanto assim de Islam, mas sei que é uma religião que, assim como a minha, tem seus preceitos. Posso ser um mau católico, mas sou um mau católico no plano da minha conduta pessoal, não da minha profissão de fé; e não me considero um “católico moderado”. Prefiro ser visto como um mau católico a ser considerado um “católico moderado”.

Pois o que significaria ser um “católico moderado”? Parece que estamos falando de uma xícara de café que, sendo muito forte, precisa ser moderada por um pouco de água, para agradar ao paladar de quem a toma. Tudo que é moderado é moderado por uma instância exterior a si; o café é moderado pela água, a religião é moderada pela sensibilidade moderna. Se a Igreja prescreve uma conduta que parece difícil, basta que a ignoremos para sermos coroados socialmente com a aparência da virtude da temperança. “Ele é sábio: é católico, o que pode ser uma excentricidade adorável, diante da herança cultural da Igreja; mas é moderado, não crê que se deve seguir tudo o que a velha Mestra prescreve.”

Talvez eu pudesse respeitar alguém que se diz moderado por seu amor à Verdade. O sujeito é católico, mas no fundo de seu coração, com toda a sua sinceridade, julga que certo ponto da doutrina é falso. Este é um atormentado, um radical, um homem com o coração dividido entre duas belas candidatas, a Igreja e a Verdade, não entre a Igreja e a conveniência pessoal, ou a vaidade de ser católico e alguma concupiscência.

II

Muitos dos melhores homens do passado e do presente enfrentam circunstâncias adversas para pregar. O fundamento de pregar, a motivação de Raimundo Lúlio ao ir para o mundo árabe, e até aquilo que nos move a discutir nas circunstâncias mais inconvenientes, da maneira mais tosca, às vezes passando por cima do bom senso e da etiqueta, é a firme crença de que o interlocutor ama a verdade tanto quanto a amamos. O desânimo vem exatamente quando nos parece que ele simplesmente não a ama.

Por isso não creio que Lúlio tenha ido ao mundo árabe pregar para “muçulmanos moderados”, e acho que teria ficado muito escandalizado se tivesse encontrado algum. Será que ele gostaria de trazer para a própria religião alguém que desprezasse a sua de origem? Você entregaria a mãe aos cuidados de alguém que desprezou a sua própria? Será que alguém não creia em nenhuma religião, mas tenha profundo amor por valores realmente belos como a democracia e a liberdade, gostaria de convidar para partilhar destes valores as pessoas que não mostram apreço nem por seus antigos valores?