domingo, 17 de junho de 2007

Quem falou que esta entrada

Lawrence Salaberry, O sonho de Septimus e outros poemas (inédito).

Quem falou que esta entrada
Arranha por dentro a tua folia,
Aranha, que me conceda de tirar
A fotografia, não de ti —
De tua labuta de tramar entranhas,
Saídas, artimanhas
No ramo orvalhado da manhã.

Quem falou do teu têxtil toque,
Horas a fio,
Malhas que manhã alguma rompe
E sol solerte de rocio esvaza,
Há de saber pelo centrífugo
Atávico giro teu
                              que jamais penetrará.

O que o teu bálsamo maligno embalsamou
Por mor de se fazer notável em rudimento —
Malícia, silêncio, dispensamento —
Ninguém penetrará…

E quem notar-te o desvario
De sugar do vôo vadio da vítima
As intestinas líquidas partes,
Desprezando a muda carapaça,

Terá visto

Tua calada tarefa de cernir
Por um cerzir esteta
Do miolo morto do inseto
A tua continuação? — Não.


Leitura e comentário: 3m18s


Eu já pensava em trazer para o “domingo com poesia” algum trecho de uma tradução de Lawrence Flores. Está publicada sua tradução da Antígona, e este ano deverá sair seu Hamlet. O cuidado que teve com a prosódia foi tanto que, no caso do Hamlet, é possível ouvir a melodia do original. Mas era óbvio que quem produzia um texto em português tão bonito escreveria poemas, porque seria muito difícil que alguém se preocupasse tanto com a beleza do verso sem ser autor de versos. E, de fato, Lawrence escreve poemas; hoje, leitor, estamos fazendo história aqui, porque estes poemas serão muito importantes um dia, e estamos entre os primeiros a conhecê-los. De seu livro inédito O sonho de Septimus e outros poemas selecionei este, que está no começo, apenas porque estou com o livro há duas semanas e os poemas do início estão mais presentes na minha cabeça, tão presentes que eu não conseguiria escrever sobre outros.

A “receita” vem em boa parte de T. S. Eliot. Cada verso, com um metro próprio, é uma unidade em si, reforçando o tom geral do poema, buscando a naturalidade do enunciado. No plano menor, de cada verso, temos a predominância do som, com muitas aliterações de vogais e consoantes e rimas internas — “folia”, “fotografia”, logo no início — e externas. Não é difícil deixar-se hipnotizar pelos jogos sonoros e uma segunda leitura pode ser necessária se a primeira já não for atenta, mas como a primeira leitura costuma ser a mais desprevenida... Ao voltar ao poema é que fica clara a predominância geral do significado, como se víssemos de longe o prédio que de perto parece uma coletânea de ornamentos. Cada detalhe chama tanto a atenção que as perspectivas possíveis são inúmeras.

E, quanto ao significado, o poema trata do “segredo” da aranha, que aliás permanecerá oculto. Não que não pudesse ser desvendado. Mas há uma opção por uma atitude de certo modo fenomenológica, descritiva, que busca evidenciar os movimentos e a natureza exterior da aranha, pois “ninguém penetrará” seu segredo, talvez porque “os corpos se entendem, mas as almas não”. Cada leitor do poema terá em sua mente uma aranha específica. Mas não será uma aranha simbólica, arquetipal. Não será a aranha de Bruno Tolentino que vem sempre representar a Idéia, nem a aranha de Os poderes infernais de Drummond. Teremos, como leitores, a visão ou a lembrança de uma aranha material, viva em mais um sentido — também no sentido de “vívida”, mas se eu escrevesse “tanto viva quanto vívida” teria sido digno de um autor acadêmico maravilhado com o poder inefável do trocadilho. Para manter as referências de O mundo como Idéia, podemos dizer que Lawrence está “pintando” sua aranha como Piero della Francesca.

Não custa dizer aqui que não acho que “a função da poesia” seja representar a “essência” (no sentido platônico de “idéia”) das coisas. Acho óbvio que a função das artes representativas seja representar algo, mas a ênfase está no ato de representar. Um crítico como A. C. Bradley pode negar que a poesia seja uma forma ou um jeito de enunciar e dizer que o poema é uma concreção de forma e conteúdo. Isto é verdade para o poema, mas não para a poesia em geral. Se a literatura pode simplesmente ser definida como a arte da palavra, a poesia é a arte de fazer versos, e sendo uma arte é uma atitude e não um objeto.

Tornando ao poema, surge a pergunta: será que estamos de mais um autor que trabalha no limite? Esta é a ambição declarada de todos os novos autores de poesia. Acredito que há poetas que são excelentes mas que não deveriam gerar escolas. Fernando Pessoa é o primeiro deles. O máximo que se pode fazer com sua obra é imitá-la (nada de errado com a boa imitação). Seu “desenvolvimento” sempre leva à desagregação e ao prosaísmo. Quanta gente não se achou poeta depois de ter lido o heterônimo Alberto Caeiro? Outro caso é João Cabral. Quantas pessoas não acharam que poderiam dispensar totalmente a inspiração e ficar só com o trabalho? O trabalho é necessário porque a musa não avisa quando vem. Mas ela não visita a todos... Daí que tenhamos duas atitudes extremadas, que não servem exatamente de termo para a maioria dos poemas: de um lado o extremo pessoalismo de Pessoa, o “eu, eu, eu”, e de outro o distanciamento programado de João Cabral. A maior parte dos bons poemas está entre estes extremos, não neles. Pode ser cedo para fazer esta avaliação em relação aos poemas de Lawrence, mas não há como negar que representam algo novo. É muito fácil experimentar e produzir uma aberração, ou melhor, experimentar sem ter um objetivo. Aqui o experimento sonoro deu certo, e podemos dizer que algo foi incorporado ao nosso repertório.

Lawrence pode estar aplicando a receita prosódica de Eliot ao português, o que ainda nos faltava, mas tem uma atitude pessoal muito diferente da do sumo sacerdote da alta cultura e da moralidade. Este poema é bastante transparente, coisa que os poemas de Eliot nem sempre são — tenho que admitir que The Waste Land continua um tanto misteriosa para mim. A transparência, aliás, é muito bem-vinda numa época em que tantos “poetas” primam pela ininteligibilidade. Mas sua atitude vai custar um pouco mais a ser desvendada; é preciso lê-lo mais, e melhor. Vamos esperar que O sonho de Septimus e outros poemas seja logo publicado. Por ora, basta registrar que a lição prosódica de Eliot foi absorvida, e o ovo de Colombo desta melopéia foi posto em pé na nossa língua, e há uma nova sensibilidade com a qual leitores e autores terão que se deparar, sob o risco da ingenuidade.

domingo, 10 de junho de 2007

Bruno Tolentino & Philip Roth

A imitação do amanhecer

As epifanias, I.
Bruno Tolentino. A imitação do amanhecer. São Paulo: Globo, 2006. p. 31

Provavelmente porque o ser se intranqüiliza
de já não ser o que ia sendo; intensamente,
porque as fogueiras de um martírio impenitente
são seus triunfos, seus troféus cheios de cinza;
e finalmente porque tudo o que agoniza
quer promulgar, solenizar o impermanente,
o coração, naquele fundo ambivalente
da coisa humana, momentâneo como a brisa,
mas persuadido de que as músicas da mente
hão de reter do ser algo mais que uma soma,
o coração vive das sombras de um aroma.
Só muito raramente esse iludido sente
a força de acordar antes que a luz cadente
o deixe louco como à mosca na redoma.


Leitura e comentário: 3m13s


Semana passada, um Tolentino atípico; esta semana, Tolentino em plena tolentinice, num dos poemas que parecem condensar muito do que ele sempre esteve tentando dizer. O poema parece hermético, misterioso, mas a leitura habitual de sua obra traz a chave. Que seriam as “fogueiras de um martírio impenitente” que “são seus triunfos, seus troféus cheios de cinza”? São as experiências sensíveis mais intensas, o caminho do excesso que, crêem muitos, leva ao palácio da sabedoria. O que não percebem, e isto é um mistério, foi que a obra de Blake que diz que “o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria” tem o título de “Provérbios do inferno”. Daí que o “martírio” de Tolentino seja catolicamente chamado “impenitente”. São “troféus”, mas “cheios de cinza por serem momentâneos, por consumirem-se. A agonia é inevitável: tudo passa, tudo está morrendo o tempo inteiro, e tudo deseja escapar à morte inevitável e ao que parece ainda pior: ao fenecimento. A velhice, por si, parece um mal, uma desgraça. Queremos eternizar a beleza, naturalmente perecível, e não é por acaso que as cirurgias plásticas muitas vezes deixam as pessoas com cara de estátua: há aí uma irmandade de intenções...

Existe ainda um descompasso entre o intelecto e o corpo. Este se vai, aquele se aprimora, se expande. Wordsworth pode ter dito que ao fim e ao cabo o menino vê a luz se esvanecer e se confundir à banalidade cotidiana (verso 77), mas Yeats disse que sua imaginação partira numa cavalgada fantástica em sua velhice. Cada poeta usa a verdade que serve melhor à sua poesia, e as duas afirmações são verdadeiras, cada uma sob um aspecto. No caso de Bruno Tolentino, há uma terceira atitude: a mente retém a lembrança, e a lembrança é sempre mais tênue e mais “perfeita” do que o aqui-e-agora, porque podemos lapidá-la e eliminar a própria fugacidade da experiência que a gerou. A paixão pela lembrança imperecível é que cria o mundo como idéia e o “sono” do coração.

Na verdade, existe um trecho de Philip Roth que ilumina este poema, sendo também iluminado por ele. O melhor é eu me retirar e deixá-los admirar a inesperada irmandade de almas. Aliás, este livro de Roth me fez ter interesse por ler romances...

O animal agonizante

Philip Roth. Tradução de Paulo Henriques Britto. O animal agonizante. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. pp. 35-36

Você pode imaginar o que é a velhice? É claro que não. Eu não podia. Nunca consegui. Não fazia idéia do que era. Não tinha nem mesmo uma imagem falsa – não tinha imagem nenhuma. E ninguém quer outra coisa. Ninguém quer encarar a velhice antes de ser obrigado a encará-la. Como é que tudo vai terminar? Em relação a isso, ser obtuso é de rigueur.

Por motivos óbvios, é impossível imaginar uma etapa de vida posterior àquela em que estamos. Às vezes já chegamos na metade da fase seguinte quando nos damos conta de que já estamos nela. Além disso, as primeiras etapas da velhice têm lá suas vantagens. Mesmo assim, as intermediárias são ameaçadoras para muita gente. Mas e a etapa final? Curioso – é a primeira vez na vida que você consegue ficar completamente de fora da situação que você está vivendo. Observar a decadência do próprio corpo de um ponto de vista externo (para quem tem a sorte que eu tive) permite que a gente se sinta, graças à vitalidade que continua a ter, a uma distância razoável dessa decadência – às vezes dá até para sentir-se orgulhosamente independente dela. Sem dúvida, vão aumentando cada vez mais os sinais que nos levam a tirar aquela conclusão desagradável, mas assim mesmo a gente continua de fora. E a fúria dessa objetividade é brutal.

É importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte. O morrer não é um processo ininterrupto. Se a gente tem saúde e se sente bem, é um processo invisível. O final que é uma certeza nem sempre se anuncia de maneira espalhafatosa. Não, você não consegue entender. A única coisa que você entende a respeito dos velhos quando você não é velho é que eles foram marcados pelo tempo. Mas compreender só tem um efeito de fixá-los no tempo deles, e assim você não compreende nada. Para aqueles que ainda não são velhos, ser velho significa ter sido. Porém ser velho significa também que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. Esse ter sido ainda está cheio de vida. Você continua sendo, e a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido. Eis uma maneira de encarar a velhice: é a época da vida em que a consciência de que a sua vida está em jogo é apenas um fato cotidiano. É impossível não saber o fim que o aguarda em breve. O silêncio em que você vai mergulhar para sempre. Fora isso, tudo é tal como antes. Fora isso, você continua sendo imortal enquanto vive.