— O problema é que o videogame descambou para uma liberalização geral.
Devo dizer, antes de prosseguir, que eu mesmo não tenho nenhum interesse por videogames e, pior, tenho até uma incompatibilidade cognitiva com eles: sequer consigo entender o que está acontecendo na tela quando vejo um.
A matéria ainda lista alguns videogames de mau gosto e, bem, blasfemos e contrários ao catolicismo. Deus do céu, começamos sendo jogados aos leões no Coliseu, e agora vamos nos abalar com videogames e ter como paladino de defesa um senador desocupado e liderado por Sarney? How the mighty have fallen. Obrigado, senador. Não quero não.
Diz ainda a matéria:
Na justificativa do projeto, Raupp cita um estudo da Universidade de Michigan que afirma que os "videogames mudam as funções cerebrais e insensibilizam os jovens diante da vida".
Tem um estudo da Universidade da Pedrolândia que diz que o Senado é um órgão público e por isso seus atos são públicos. Mas, quando o líder do seu partido é o presidente do Senado, você fica insensível diante da vida e acho que atos secretos para nomear parentes são a coisa mais normal do mundo.
Eu não estou dizendo isso para bater pé, nem apenas para questionar a autoridade moral do senador. Estou afirmando que se trata de um caso de projeção. Eu acredito que a classe política quer proibir o povo de fazer o que quiser porque ela não agüenta olhar para si mesma. Analisar isso pela ótica do "paternalismo" já me parece ultrapassado; o paternalismo é um pretexto, e a verdadeira motivação é a culpa reprimida, que leva à paranóia, a ver um mal difuso, materializado aqui por um baseado, ali por um videogame. Tudo para evitar olhar para o mal premente e imediato: o desprezo que os representantes das instituições demonstram pelas mesmas instituições.