Quanto mais tento usar as lentes da teoria mimética de René Girard, mais recordo a frase que a serpente disse a Eva no Paraíso: "Sereis como deuses." Parece que aí está, com o perdão da pomposidade, todo o problema humano.
Primeiro, o problema de ser. "Ser ou não ser, eis a questão." A impressão de que a vida dos outros é sempre mais intensa e mais perfeita do que a nossa. De que enquanto mal suportamos a banalidade outras pessoas estão "vivendo". Olhamos os outros como Fernando Pessoa olha a menina que come chocolates em "Tabacaria".
Segundo, o problema do "como". O tempo inevitavelmente à nossa frente parece prestar-se a qualquer uso. E quanto mais o tempo está para trás, mais vemos que certas possibilidades se fecharam. Se o tempo é uma folha em branco, como preenchê-la? Aquelas pessoas que "são" mais intensamente do que nós sugerem um "como". Mas elas são elas, e nós somos nós. E nós, é claro, temos de ser originais. "Seja você mesmo".
Terceiro, "deuses". O plural é de grande ironia. Se há deuses, eles não são absolutos. Se não percebêssemos que a promessa da serpente era furada no "como", o "deuses" não deixaria dúvidas. Isso, é claro, se estivéssemos prestando atenção. Muito fácil para mim dizer isso agora, e continuar caindo nessa promessa falsa a cada 15 minutos. Mas por que caímos? Porque queremos ser deuses. Ou cada um de nós quer ser um deus e fazer da sua vida a perfeita e maravilhosa sucessão de realizações de desejos puramente espontâneos. Ressentimo-nos da banalidade, de não saber escolher um programa de TV, de tudo. Os deuses "são". Eu não sou. Há aí outra ironia: "sereis como aqueles que são", remetendo à maneira como Deus se definiu a Moisés: "Eu sou Aquele que é".
O contexto ainda sugere outra interpretação. Adão e Eva eram dois. "Sereis como deuses... um para o outro. Tirando o fato de que vocês não são de fato Deus, bem..." E daí vem o inferno dos relacionamentos (de todo tipo). Eu deifico certa pessoa, creio que ela "é", que ela tem as respostas etc. E obviamente ela não tem. Então eu ainda me sinto heróico por ter derrubado aquele ídolo e parto para deificar outra pessoa. A qual faz isso comigo, e depois derruba o ídolo em que me transformou etc.
Não acaba. O demônio não é o "macaco de Deus"? Querer "ser como deuses" é querer macaquear Deus. A serpente quer transformar o homem nela mesma.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Tentação & maldição
Marcadores:
Religião,
René Girard,
Teoria mimética
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Goodbye Illuminati
Uma excelente entrevista com Massimo Introvigne explicando o peso dos Illuminati, e até mesmo que a pirâmide com olho no dólar não é uma insidiosa influência maçônica.
Lidar com o assunto "sociedades secretas" exige que se chegue a um interessante estado psíquico. De um lado, é fácil ficar contaminado pelo espírito paranóico, achando que o mundo vai acabar amanhã e que a humanidade se compõe de gente ingênua (numa hipótese lisonjeira). De outro, é igualmente fácil assumir a postura de total desprezo e dizer que prestar atenção nessas coisas é... coisa de paranóico.
Como o meu maior interesse tem sido a geração de duplos miméticos, não posso deixar de observar que os dois extremos afirmam sua identidade pela negação do outro. O paranóico contra os "ingênuos", o realista contra os "paranóicos". A verdade a respeito da questão, assim como todo objeto em uma disputa mimética, tende à irrelevância.
Que é a verdade aí? Bem, conspirações há, mas aparentemente várias, e são escassos os meios de averiguar o sucesso delas. Não se pode repreender quem prefira gastar sua curta vida em investigações com maior chance de sucesso.
Também é verdade que, se o paranóico peca por não perceber que sua própria vida, assim como a das pessoas que ele despreza, é guiada por uma série de automatismos (como a de todo mundo), o "realista" costuma pecar pela mesquinharia, incapaz de perceber que existem pessoas que agem motivadas por princípios e não apenas por um desejo de conforto. O paranóico se ressente de que todos não estudem as mesmas coisas que ele. O "realista" se ressente de que todos não fiquem engordando no sofá como ele.
Lidar com o assunto "sociedades secretas" exige que se chegue a um interessante estado psíquico. De um lado, é fácil ficar contaminado pelo espírito paranóico, achando que o mundo vai acabar amanhã e que a humanidade se compõe de gente ingênua (numa hipótese lisonjeira). De outro, é igualmente fácil assumir a postura de total desprezo e dizer que prestar atenção nessas coisas é... coisa de paranóico.
Como o meu maior interesse tem sido a geração de duplos miméticos, não posso deixar de observar que os dois extremos afirmam sua identidade pela negação do outro. O paranóico contra os "ingênuos", o realista contra os "paranóicos". A verdade a respeito da questão, assim como todo objeto em uma disputa mimética, tende à irrelevância.
Que é a verdade aí? Bem, conspirações há, mas aparentemente várias, e são escassos os meios de averiguar o sucesso delas. Não se pode repreender quem prefira gastar sua curta vida em investigações com maior chance de sucesso.
Também é verdade que, se o paranóico peca por não perceber que sua própria vida, assim como a das pessoas que ele despreza, é guiada por uma série de automatismos (como a de todo mundo), o "realista" costuma pecar pela mesquinharia, incapaz de perceber que existem pessoas que agem motivadas por princípios e não apenas por um desejo de conforto. O paranóico se ressente de que todos não estudem as mesmas coisas que ele. O "realista" se ressente de que todos não fiquem engordando no sofá como ele.
Marcadores:
Esoterismo,
Religião
sábado, 27 de junho de 2009
Getúlio Vargas contra as reformas ortográficas
O grifo é meu, e o autor foi meu tio-avô.
Uma coisa que pouca gente apreciou devidamente é a feição admirável com que Getúlio Vargas dominava a língua. Escrevia claro, sucinto, preciso, sem uma palavra a mais, num estilo limpo e desataviado. As notas que preparava para seus discursos eram admiravelmente arquitetadas e formuladas. Nunca se acostumou às reformas ortográficas, usando sempre as velhas formas de escrever.
José Sette Câmara. Agosto 1954. São Paulo: Siciliano, 1994. p. 20
Marcadores:
Acordo ortográfico,
Língua
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Indignação ou inveja?
Publicado originalmente em OrdemLivre.org.
Desde sábado corre na imprensa a notícia de que o mordomo de Roseana Sarney recebe um salário de R$12 mil do Senado. Também correm as notícias dos atos sigilosos do Senado, assim como correram a farra das passagens e o mensalão. São coisas que causam justa revolta. Mas vamos juntar isso com um outro dado.
Conheço muitas pessoas que estudam ou estudaram para concursos públicos. Sem recriminá-las — até porque eu creio que existem funções legítimas e necessárias do Estado, e é melhor que sejam desempenhadas por pessoas boas e qualificadas — , não posso deixar de observar que, de modo geral, o objetivo delas, e dos demais concurseiros, era obter a segurança, a estabilidade e a boa remuneração do cargo. Seu objetivo era muito mais receber do que dar; mesmo que elas todas trabalhem dignamente, não me parece que estejam realizando uma vocação que encontra no serviço público seu ambiente ideal. Em todas as vezes que tentaram convencer-me a estudar para um concurso, também foram ressaltadas as benesses do cargo. Que boa parte das pessoas considere inteiramente natural que privilégios sejam conquistados por concursos é coisa que me admira e que, francamente, me faz até crer em sua legitimidade; eis, afinal, a famosa vontade popular.
O que me põe a pulga atrás da orelha é ver como essa crença na naturalidade dos privilégios adquiridos se junta à revolta contra as passagens dos deputados e o mordomo de senadora. Servidores concursados e servidores eleitos são pagos com o mesmíssimo dinheiro dos impostos. Por que não se faz cara feia quando, à mesa com familiares e amigos, alguém anuncia as vantagens do cargo para o qual está estudando, mas há revolta quando se descreve ou descobre as benesses de que desfrutam os deputados e senadores?
Pergunto-me também se essa atitude não está associada a outras. Quem mora no Rio de Janeiro sabe que o estilo carioca de dirigir dá novos sentidos à famosa frase de Sartre: “o inferno são os outros”. O motorista que fecha o cruzamento é o mesmo que se revolta com o cruzamento fechado por outro motorista. O motoqueiro que bate no retrovisor do seu carro sequer pára para ver o que aconteceu — e obviamente ele sentiu o baque mais do que o motorista do carro. É difícil crer que o vizinho que faz barulho e atira coisas pela janela e pelo vão central do prédio (moro no segundo andar, e tendo a crer que do terceiro em diante praticamente só há hooligans) queira ouvir barulho e ver lixo caindo dentro de sua casa.
Tudo isso denuncia não apenas a descrença no bem comum como, num nível muito menos abstrato, o desrespeito pelo outro que está a seu lado. O motorista que fecha o cruzamento pode enxergar as pessoas de cuja vida roubará alguns minutos. O vizinho que joga coisas e faz barulho encontra o outro vizinho no elevador. O concurseiro que só quer benesses está atrás do dinheiro dos impostos pagos por muita gente que ele não conhece, mas também do dinheiro dos seus amigos e parentes.
Diante disso, já é possível ouvir o contra-argumento: “faço porque todo mundo faz”. Se ninguém respeita o outro, e sequer tem idéia do bem comum, então respeitar o outro e fazer pequenos sacrifícios (para nem falar de grandes) em nome do bem comum significa ficar em séria desvantagem. Mas, sem nem mesmo recorrer à moral religiosa, para responder a esse argumento basta recordar o que diz Sócrates no diálogo Górgias, de Platão: “É melhor sofrer a injustiça do que praticar a injustiça”. A má conduta alheia jamais deve ser usada para justificar a má conduta própria. Talvez ela seja um atenuante, mas só. De todo modo, permanece no fundo a motivação de apenas receber e nunca dar.
Por isso, retomando o assunto principal, proponho a seguinte pergunta: como poderia alguém que abertamente se declara interessado apenas nas benesses de um cargo público repreender aqueles que recebem benesses maiores? A diferença é apenas de grau, não de substância. Se fosse necessário entender melhor e mais especificamente essa revolta, não seria necessário distinguir entre a justa indignação por um abuso e a inveja de quem só espera conquistar o direito a certas benesses?
Desde sábado corre na imprensa a notícia de que o mordomo de Roseana Sarney recebe um salário de R$12 mil do Senado. Também correm as notícias dos atos sigilosos do Senado, assim como correram a farra das passagens e o mensalão. São coisas que causam justa revolta. Mas vamos juntar isso com um outro dado.
Conheço muitas pessoas que estudam ou estudaram para concursos públicos. Sem recriminá-las — até porque eu creio que existem funções legítimas e necessárias do Estado, e é melhor que sejam desempenhadas por pessoas boas e qualificadas — , não posso deixar de observar que, de modo geral, o objetivo delas, e dos demais concurseiros, era obter a segurança, a estabilidade e a boa remuneração do cargo. Seu objetivo era muito mais receber do que dar; mesmo que elas todas trabalhem dignamente, não me parece que estejam realizando uma vocação que encontra no serviço público seu ambiente ideal. Em todas as vezes que tentaram convencer-me a estudar para um concurso, também foram ressaltadas as benesses do cargo. Que boa parte das pessoas considere inteiramente natural que privilégios sejam conquistados por concursos é coisa que me admira e que, francamente, me faz até crer em sua legitimidade; eis, afinal, a famosa vontade popular.
O que me põe a pulga atrás da orelha é ver como essa crença na naturalidade dos privilégios adquiridos se junta à revolta contra as passagens dos deputados e o mordomo de senadora. Servidores concursados e servidores eleitos são pagos com o mesmíssimo dinheiro dos impostos. Por que não se faz cara feia quando, à mesa com familiares e amigos, alguém anuncia as vantagens do cargo para o qual está estudando, mas há revolta quando se descreve ou descobre as benesses de que desfrutam os deputados e senadores?
Pergunto-me também se essa atitude não está associada a outras. Quem mora no Rio de Janeiro sabe que o estilo carioca de dirigir dá novos sentidos à famosa frase de Sartre: “o inferno são os outros”. O motorista que fecha o cruzamento é o mesmo que se revolta com o cruzamento fechado por outro motorista. O motoqueiro que bate no retrovisor do seu carro sequer pára para ver o que aconteceu — e obviamente ele sentiu o baque mais do que o motorista do carro. É difícil crer que o vizinho que faz barulho e atira coisas pela janela e pelo vão central do prédio (moro no segundo andar, e tendo a crer que do terceiro em diante praticamente só há hooligans) queira ouvir barulho e ver lixo caindo dentro de sua casa.
Tudo isso denuncia não apenas a descrença no bem comum como, num nível muito menos abstrato, o desrespeito pelo outro que está a seu lado. O motorista que fecha o cruzamento pode enxergar as pessoas de cuja vida roubará alguns minutos. O vizinho que joga coisas e faz barulho encontra o outro vizinho no elevador. O concurseiro que só quer benesses está atrás do dinheiro dos impostos pagos por muita gente que ele não conhece, mas também do dinheiro dos seus amigos e parentes.
Diante disso, já é possível ouvir o contra-argumento: “faço porque todo mundo faz”. Se ninguém respeita o outro, e sequer tem idéia do bem comum, então respeitar o outro e fazer pequenos sacrifícios (para nem falar de grandes) em nome do bem comum significa ficar em séria desvantagem. Mas, sem nem mesmo recorrer à moral religiosa, para responder a esse argumento basta recordar o que diz Sócrates no diálogo Górgias, de Platão: “É melhor sofrer a injustiça do que praticar a injustiça”. A má conduta alheia jamais deve ser usada para justificar a má conduta própria. Talvez ela seja um atenuante, mas só. De todo modo, permanece no fundo a motivação de apenas receber e nunca dar.
Por isso, retomando o assunto principal, proponho a seguinte pergunta: como poderia alguém que abertamente se declara interessado apenas nas benesses de um cargo público repreender aqueles que recebem benesses maiores? A diferença é apenas de grau, não de substância. Se fosse necessário entender melhor e mais especificamente essa revolta, não seria necessário distinguir entre a justa indignação por um abuso e a inveja de quem só espera conquistar o direito a certas benesses?
Marcadores:
Cultura,
OrdemLivre.org,
Política
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Preconceito contra os protestantes
Todos sabemos que quando se condena “o preconceito” o que se reprova são só algumas más disposições — contra gays e negros, por exemplo. E mesmo que eu creia no direito universal à idiotice, também creio no meu direito de dizer que uma predisposição gratuita e contrária a gays e negros é uma pura idiotice.
Agora, as pessoas que se julgam “esclarecidas” costumam nutrir fortes preconceitos também, o que é muito fácil de demonstrar. Em meu meio social, acho que nenhum grupo é mais implicitamente rejeitado do que... os protestantes.
Eu não sou protestante. Sou católico. Os católicos de um lado crêem que os protestantes são geralmente mais fervorosos do que eles, mas também tendem a julgar os protestantes mais toscos. Eu não tenho muita idéia de como os protestantes vêem os católicos.
Pessoas não-católicas (e algumas católicas) olham para o protestantismo como se ele fosse o último estágio antes da completa dissolução da inteligência. Conversões ao budismo são vistas como um sinal de “esclarecimento”, conversões ao islamismo como um sinal de um desejo de firmeza, e conversões ao catolicismo como um sinal de algo grande e misterioso. Conversões ao protestantismo são vistas, na melhor da hipóteses, como uma lavagem cerebral. Vê-las assim, obviamente, é também pura idiotice.
Sempre nos julgamos a nós mesmos bons e honestos, mas não julgamos que aqueles de quem não gostamos sejam também bons e honestos. Podemos admitir que um neocatólico tenha passado por um longo e árduo processo interior. Não podemos admitir que um neoprotestante tenha passado por algo semelhante?
Admito que os protestantes sejam prejudicados na percepção de sua “identidade coletiva” por sua fragmentação. Ninguém de fora julga que o presbiterianismo e a Igreja Universal do Reino de Deus sejam a mesma coisa. Tanto que o presbiterianismo é recebido com um sentimento mais próximo da indiferença (“o que é isso?”), enquanto a IURD é recebida com asco e horror. Eu nunca entrei numa IURD (e, como católico, nem pretendo; no offense). Mas sei que para 95% das pessoas que conheço admitir-se freqüentador da IURD é o mesmo que admitir ter lepra mental. Todos os atos de um freqüentador da IURD seriam explicados por sua lealdade a esta denominação, sempre usando aquela mesma frase: “Bom, mas fulano vai na Universal, né? Então já viu.”
Não escondo que gostaria de ver as mesmas pessoas que ficam denunciando o uso de palavras como “crioulo” e “bicha” denunciando também o uso pejorativo de “crente”, e que entendessem que falar “essa crioulada” tem a mesmíssima malícia que falar “esse bando de crente”.
Cabe ainda fazer uma ressalva quanto a mim mesmo. Nunca vi um protestante designar-se a si mesmo como “protestante”. Normalmente eles se designam pelo nome de sua denominação particular (“batista”, “presbiteriano”) ou usam a frase “eu vou na [Nome da Denominação]”. Suponho que um protestante, ao ser assim chamado, sinta-se mais ou menos como eu, católico, me sinto ao ser chamado de “papista” (embora eu ache o epíteto um pouco engraçado, para dizer a verdade). Porém, nossa disputa é antiga, e o eu chamá-los assim não é sinal de que eu os menospreze.
Agora, as pessoas que se julgam “esclarecidas” costumam nutrir fortes preconceitos também, o que é muito fácil de demonstrar. Em meu meio social, acho que nenhum grupo é mais implicitamente rejeitado do que... os protestantes.
Eu não sou protestante. Sou católico. Os católicos de um lado crêem que os protestantes são geralmente mais fervorosos do que eles, mas também tendem a julgar os protestantes mais toscos. Eu não tenho muita idéia de como os protestantes vêem os católicos.
Pessoas não-católicas (e algumas católicas) olham para o protestantismo como se ele fosse o último estágio antes da completa dissolução da inteligência. Conversões ao budismo são vistas como um sinal de “esclarecimento”, conversões ao islamismo como um sinal de um desejo de firmeza, e conversões ao catolicismo como um sinal de algo grande e misterioso. Conversões ao protestantismo são vistas, na melhor da hipóteses, como uma lavagem cerebral. Vê-las assim, obviamente, é também pura idiotice.
Sempre nos julgamos a nós mesmos bons e honestos, mas não julgamos que aqueles de quem não gostamos sejam também bons e honestos. Podemos admitir que um neocatólico tenha passado por um longo e árduo processo interior. Não podemos admitir que um neoprotestante tenha passado por algo semelhante?
Admito que os protestantes sejam prejudicados na percepção de sua “identidade coletiva” por sua fragmentação. Ninguém de fora julga que o presbiterianismo e a Igreja Universal do Reino de Deus sejam a mesma coisa. Tanto que o presbiterianismo é recebido com um sentimento mais próximo da indiferença (“o que é isso?”), enquanto a IURD é recebida com asco e horror. Eu nunca entrei numa IURD (e, como católico, nem pretendo; no offense). Mas sei que para 95% das pessoas que conheço admitir-se freqüentador da IURD é o mesmo que admitir ter lepra mental. Todos os atos de um freqüentador da IURD seriam explicados por sua lealdade a esta denominação, sempre usando aquela mesma frase: “Bom, mas fulano vai na Universal, né? Então já viu.”
Não escondo que gostaria de ver as mesmas pessoas que ficam denunciando o uso de palavras como “crioulo” e “bicha” denunciando também o uso pejorativo de “crente”, e que entendessem que falar “essa crioulada” tem a mesmíssima malícia que falar “esse bando de crente”.
Cabe ainda fazer uma ressalva quanto a mim mesmo. Nunca vi um protestante designar-se a si mesmo como “protestante”. Normalmente eles se designam pelo nome de sua denominação particular (“batista”, “presbiteriano”) ou usam a frase “eu vou na [Nome da Denominação]”. Suponho que um protestante, ao ser assim chamado, sinta-se mais ou menos como eu, católico, me sinto ao ser chamado de “papista” (embora eu ache o epíteto um pouco engraçado, para dizer a verdade). Porém, nossa disputa é antiga, e o eu chamá-los assim não é sinal de que eu os menospreze.
Marcadores:
Preconceito,
Religião
domingo, 14 de junho de 2009
Crença, descrença e experiência de mundo
Não faz muito tempo, li um texto de uma atéia americana que discutia a percepção dos ateus pelos não-ateus e aproveitava para falar de alguns argumentos usados a favor da crença em Deus, detendo-se particularmente no I feel it in my heart, que eu poderia traduzir como “é o que percebo em meu coração”. Ela dizia que esse argumento era ridículo. Sob muitos aspectos, é mesmo. Mas ele merece um exame maior.
Acreditamos em certas coisas — quaisquer coisas — por uma mistura de, digamos, raciocínio e paixão. Buscamos uma verdade que esteja acima de nossas predisposições e inclinações pessoais, mas continuamos vivendo segundo essas predisposições e inclinações. Aliás, a própria vida cotidiana nos obriga a vivê-la automaticamente; não é a todo momento que repetimos os mesmos atos de consciência que levaram à percepção de uma determinada verdade, e essa verdade também é transformada em regra semi-consciente.
Por isso é que gosto de fazer o seguinte exercício: em vez de me perguntar simplesmente se tal ou qual proposição é verdadeira, e sob que aspecto ela é verdadeira, também me pergunto sobre as minhas motivações pessoais para adotar uma determinada posição. Ninguém, exceto talvez os que adotam a vida monástica, tem a busca da verdade como objeto perpétuo de suas atividades; caso contrário, jamais comeríamos comidas deliciosas mas pouco nutritivas, nem beberíamos além da conta, nem faríamos nada por pura recreação. Isso também vale para atividades intelectuais; é possível descobrir por que prefiro ler poesia a ler prosa, e por que prefiro ler certos poetas a ler outros, ou por que meu interesse pelo teatro é maior do que meu interesse pelo cinema, e até por que essas preferências podem mudar durante a minha vida.
Foi assim que admiti que o meu catolicismo vem de um misto de fatores subjetivos e objetivos. Eu poderia dizer que o principal fator objetivo, e por isso repetível, está nas cinco provas de São Tomás de Aquino para a existência de Deus — provas que jamais vi ser vagamente refutadas; normalmente, mudam de assunto ou até, na última tentativa que vi, a existência de uma hipótese era mencionada como prova em contrário de uma das teses. Agora, sei bem que dessas provas não se deduz a veracidade da religião católica, tão bem quanto sei que cerca de 120% dos que atacam as provas de São Tomás não percebem que ele também sabia disso. Minha crença em Deus vem de algo objetivo; meu modo de crer, por sua vez, vem de algo subjetivo: do meio em que cresci, dos livros que tive à disposição, de experiências pessoais que, francamente, não tenho por que desprezar. Tenho, para evitar pomposos termos em alemão, uma “experiência de mundo” católica.
Comecei a pensar nesses termos quando percebi que eu também era capaz de algo que chamei de “experiência de mundo atéia”. Via que a juventude é uma espécie de bênção; que ser feio pode ser uma tragédia; que é facílimo viver sem jamais pensar que algo pode acontecer depois da morte; que é possível suspeitar de diversas leituras e da sensação de “preenchimento da alma” que elas trazem (nada mais fácil, e mais demoníaco, do que confundir a vaidade de achar-se sócio-proprietário da verdade com a humildade diante do transcendente); que com facilidade posso afirmar algo porque é conveniente; que o poder de ordenar uma sociedade por meio de modelos transcendentes pode vir de qualquer religião; que olhar para todo esse ceticismo que apresentei e dizer que “prefiro uma postura menos cética” é a mera afirmação de uma preferência; que a má vontade que eu continuo a ver em muitos ateus pode estar perfeitamente presente em muitos crentes, inclusive em mim mesmo.
Ainda assim, continuo católico; não é meu objetivo aqui dar minhas razões, mas só quero dizer que, de todos os critérios que existem para rejeitar a religião, o mais vaidoso é “sou puro demais para ser religioso”.
Francamente, “a experiência de mundo atéia” que descrevi parece um tanto comum entre a gente letrada, e muitos ateus simplesmente têm a coragem de ser fiéis à sua própria experiência, em vez de adotar os termos da experiência de mundo de outras pessoas. Qualquer coisa objetiva que surja em nossas vidas ganha persuasividade pelo contexto, e seria desonesto admitir que as provas de São Tomás não ganham força para quem já crê. Isso não é uma questão teológica, mas psicológica. Trata-se de estar aberto a uma determinada sugestão, qualquer que seja seu conteúdo. Creio mesmo que muitos ateus gostem do que diz Richard Dawkins só porque ele parece uma versão mais assanhadinha de seu próprio ateísmo mísero e mesquinho, um Thomas More que não se dobra diante da pujança intelectual de todas as tias velhas do mundo.
Por isso é que eu gostaria de dizer àquela autora que provavelmente ela é atéia por razões subjetivas, exatamente como muitos de nós somos crentes por razões eminentemente subjetivas, pessoais, por experiências que não podemos repetir e nem podemos ignorar. You too are an atheist because you feel it your heart.
Tendo dito tudo isso, queria ainda observar que o “debate” entre crentes e ateus parece um tanto quanto irremediável. Ninguém quer debater com alguém que faz questão de definir sua identidade pelo desprezo por aquilo que se julga crucial. Escrevi este texto para tentar encontrar um ponto “retórico” em comum com os ateus, mas seria preciso que houvesse outros pressupostos comuns para dissipar um clima de hostilidade e malícia. Um dos pressupostos do famoso “debate”, essa entidade verdadeiramente mítica e transcendente, quase que sempre manifesta apenas na forma de uma “troca de idéias” em que um lado está sempre em desvantagem, é a ausência de competitividade e o estabelecimento de um laço fraternal entre os participantes.
Acreditamos em certas coisas — quaisquer coisas — por uma mistura de, digamos, raciocínio e paixão. Buscamos uma verdade que esteja acima de nossas predisposições e inclinações pessoais, mas continuamos vivendo segundo essas predisposições e inclinações. Aliás, a própria vida cotidiana nos obriga a vivê-la automaticamente; não é a todo momento que repetimos os mesmos atos de consciência que levaram à percepção de uma determinada verdade, e essa verdade também é transformada em regra semi-consciente.
Por isso é que gosto de fazer o seguinte exercício: em vez de me perguntar simplesmente se tal ou qual proposição é verdadeira, e sob que aspecto ela é verdadeira, também me pergunto sobre as minhas motivações pessoais para adotar uma determinada posição. Ninguém, exceto talvez os que adotam a vida monástica, tem a busca da verdade como objeto perpétuo de suas atividades; caso contrário, jamais comeríamos comidas deliciosas mas pouco nutritivas, nem beberíamos além da conta, nem faríamos nada por pura recreação. Isso também vale para atividades intelectuais; é possível descobrir por que prefiro ler poesia a ler prosa, e por que prefiro ler certos poetas a ler outros, ou por que meu interesse pelo teatro é maior do que meu interesse pelo cinema, e até por que essas preferências podem mudar durante a minha vida.
Foi assim que admiti que o meu catolicismo vem de um misto de fatores subjetivos e objetivos. Eu poderia dizer que o principal fator objetivo, e por isso repetível, está nas cinco provas de São Tomás de Aquino para a existência de Deus — provas que jamais vi ser vagamente refutadas; normalmente, mudam de assunto ou até, na última tentativa que vi, a existência de uma hipótese era mencionada como prova em contrário de uma das teses. Agora, sei bem que dessas provas não se deduz a veracidade da religião católica, tão bem quanto sei que cerca de 120% dos que atacam as provas de São Tomás não percebem que ele também sabia disso. Minha crença em Deus vem de algo objetivo; meu modo de crer, por sua vez, vem de algo subjetivo: do meio em que cresci, dos livros que tive à disposição, de experiências pessoais que, francamente, não tenho por que desprezar. Tenho, para evitar pomposos termos em alemão, uma “experiência de mundo” católica.
Comecei a pensar nesses termos quando percebi que eu também era capaz de algo que chamei de “experiência de mundo atéia”. Via que a juventude é uma espécie de bênção; que ser feio pode ser uma tragédia; que é facílimo viver sem jamais pensar que algo pode acontecer depois da morte; que é possível suspeitar de diversas leituras e da sensação de “preenchimento da alma” que elas trazem (nada mais fácil, e mais demoníaco, do que confundir a vaidade de achar-se sócio-proprietário da verdade com a humildade diante do transcendente); que com facilidade posso afirmar algo porque é conveniente; que o poder de ordenar uma sociedade por meio de modelos transcendentes pode vir de qualquer religião; que olhar para todo esse ceticismo que apresentei e dizer que “prefiro uma postura menos cética” é a mera afirmação de uma preferência; que a má vontade que eu continuo a ver em muitos ateus pode estar perfeitamente presente em muitos crentes, inclusive em mim mesmo.
Ainda assim, continuo católico; não é meu objetivo aqui dar minhas razões, mas só quero dizer que, de todos os critérios que existem para rejeitar a religião, o mais vaidoso é “sou puro demais para ser religioso”.
Francamente, “a experiência de mundo atéia” que descrevi parece um tanto comum entre a gente letrada, e muitos ateus simplesmente têm a coragem de ser fiéis à sua própria experiência, em vez de adotar os termos da experiência de mundo de outras pessoas. Qualquer coisa objetiva que surja em nossas vidas ganha persuasividade pelo contexto, e seria desonesto admitir que as provas de São Tomás não ganham força para quem já crê. Isso não é uma questão teológica, mas psicológica. Trata-se de estar aberto a uma determinada sugestão, qualquer que seja seu conteúdo. Creio mesmo que muitos ateus gostem do que diz Richard Dawkins só porque ele parece uma versão mais assanhadinha de seu próprio ateísmo mísero e mesquinho, um Thomas More que não se dobra diante da pujança intelectual de todas as tias velhas do mundo.
Por isso é que eu gostaria de dizer àquela autora que provavelmente ela é atéia por razões subjetivas, exatamente como muitos de nós somos crentes por razões eminentemente subjetivas, pessoais, por experiências que não podemos repetir e nem podemos ignorar. You too are an atheist because you feel it your heart.
Tendo dito tudo isso, queria ainda observar que o “debate” entre crentes e ateus parece um tanto quanto irremediável. Ninguém quer debater com alguém que faz questão de definir sua identidade pelo desprezo por aquilo que se julga crucial. Escrevi este texto para tentar encontrar um ponto “retórico” em comum com os ateus, mas seria preciso que houvesse outros pressupostos comuns para dissipar um clima de hostilidade e malícia. Um dos pressupostos do famoso “debate”, essa entidade verdadeiramente mítica e transcendente, quase que sempre manifesta apenas na forma de uma “troca de idéias” em que um lado está sempre em desvantagem, é a ausência de competitividade e o estabelecimento de um laço fraternal entre os participantes.
segunda-feira, 8 de junho de 2009
Rock'n'Roll, de Tom Stoppard
Publicado originalmente em OrdemLivre.org.
Está em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Villa-Lobos, a peça Rock’n’Roll, de Tom Stoppard. O leitor que gostar de enxergar tudo pela lente da ideologia terá facilidade em resumir a peça como “Max, professor riquinho de Cambridge, insiste no comunismo enquanto seus amigos na Tchecoslováquia comunista vão sofrendo”. Não que esse leitor seja tão culpado: anos de críticas frankfurtianas de um lado e de “educação para a pólis” de outro, do tipo que faz Antígona ser vista como mero relato de como o tirano Creonte esmagou sua piedosa sobrinha, certamente já acostumaram mal os espectadores.
É até verdade que Rock’n’Roll e Antígona até admitem essas leituras, mas fica faltando muita coisa. Por exemplo, em Rock’n’Roll a música, que normalmente poderia ser tratado como mero objeto de consumo, é identificada com a liberdade, o que por sua vez mostra o quão importante é a liberdade... de consumir. O consumo livre de produtos culturais equivale à liberdade de formação da própria identidade. Agora você pode pegar essa minha frase pomposa e ver que é graças à liberdade que você pode ouvir Händel ou Bach e seu amigo pode ouvir Kraftwerk. Que é graças à liberdade que “tribos” culturais podem existir. E que, sim, num país liberal você pode olhar o rock’n’roll como símbolo da decadência de tudo que é bom, e num país comunista você pode olhar o rock’n’roll como a notícia de que há um lugar onde se pode ouvir a música que se quer.
Excetuando Max e os policiais tchecos, ninguém na peça realmente desdenha do rock. Mas é possível pressupor essa posição em muitos espectadores mais conservadores, sobretudo os influenciados por Allan Bloom. Tratar o rock dessa maneira sugere um questionamento do elitismo. É possível fazer um paralelo com um momento de redenção do professor riquinho de Cambridge na peça. Estando na Tchecoslováquia e conversando com um oficial do governo, Max percebe que aquilo tudo não passa de uma burocracia idiota e diz que não ficou defendendo o comunismo “para que um bando de policiais ficasse fazendo cagadas”. Allan Bloom talvez dissesse que não temos a liberdade para ficar ouvindo The Beach Boys. Mas é muito melhor poder ouvir The Beach Boys do que estar submetido a policiais que ficam “fazendo cagadas”.
Em outro momento, os personagens tchecos discutem a prisão do membro de uma banda, The Plastic People of the Universe, por usar cabelo comprido. É muito fácil argumentar que o sujeito poderia simplesmente cortar o cabelo. Afinal, o que custa cortar o cabelo? O cabelo não é a mesma coisa que a consciência. Até parece que o sujeito que ser o Thomas More do cabelo. Dê ao governo o que o governo quer e viva em paz. No entanto, é melhor ser preso por ter cabelo comprido do que se submeter a uma polícia que implica com o tamanho dos cabelos.
Afirmar assim essa tese é bastante fácil. Mas ela ganha muito mais força quando é mostrada e não enunciada. A cena dessa discussão pode ser superposta a uma cena ao fim do primeiro ato em que Max e sua esposa, uma professora de literatura grega arcaica, discutem. Max, após ter feito um elogio do cérebro, discute a perda da identidade especificamente comunista e fala das virtudes do trabalho organizado. Eleanor, sua esposa, que sofre de câncer, subitamente desabafa:
“Cortaram, cauterizaram e jogaram fora meus seios, meus ovários, meu útero, metade do meu intestino e um pedaço do meu cérebro, e eu continuo aqui. Eu sou exatamente quem eu sempre fui. Eu não sou meu corpo. Sem mim, meu corpo não é nada.”
Na Tchecoslováquia, o argumento para a submissão ao governo comunista seria exatamente que se deve entregar o cabelo, isto é, o corpo. E no entanto neste contexto o cabelo é um símbolo da alma e da individualidade. Tom Stoppard evita essas palavras, preferindo fazer Eleanor falar em “aquilo com que você me ama” e, logo depois, o próprio Max dizer que “não existe nada além disso”.
Se há alguma mensagem na peça - e obrigado a Tom Stoppard por, mesmo tendo fugido do Eixo na infância, não escrever deliberadamente uma peça com “mensagem” - é que cada circunstância tem um significado diferente, e que o contraste entre elas mostra o quanto a liberdade está relacionada a respeitar o próximo tal como ele é. Os personagens de Rock’n’Roll não fazem longos discursos exigindo liberdade para si, mas aprendendo a conceder liberdade ao outro, a enxergá-lo e aceitá-lo como alguém realmente diferente. Max aceita que o comunismo real da Tchecoslováquia é uma bela porcaria, que sua esposa é mais do que seu corpo. Jan, o estudante tcheco que tem alguma fé no “socialismo com rosto humano” admite que, se um rosto humano pode ter cabelo comprido, o governo não pode ser contra isso.
Nesse momento lembramos da influência de Isaiah Berlin, com sua apreciação da variedade de experiências humanas, sobre Stoppard. Stoppard dedicou a Berlin sua trilogia The Coast of Utopia, cujas duas últimas peças retratam o russo Alexander Herzen. Algumas de suas palavras na peça ilustram bem a atitude:
Rock’n’Roll está em cartaz até o fim de julho aqui no Rio. A montagem é excelente. Os atores estão ótimos e o discurso de Eleanor do qual tirei a fala citada é aplaudido em cena aberta. A não perder.
Está em cartaz no Rio de Janeiro, no Teatro Villa-Lobos, a peça Rock’n’Roll, de Tom Stoppard. O leitor que gostar de enxergar tudo pela lente da ideologia terá facilidade em resumir a peça como “Max, professor riquinho de Cambridge, insiste no comunismo enquanto seus amigos na Tchecoslováquia comunista vão sofrendo”. Não que esse leitor seja tão culpado: anos de críticas frankfurtianas de um lado e de “educação para a pólis” de outro, do tipo que faz Antígona ser vista como mero relato de como o tirano Creonte esmagou sua piedosa sobrinha, certamente já acostumaram mal os espectadores.
É até verdade que Rock’n’Roll e Antígona até admitem essas leituras, mas fica faltando muita coisa. Por exemplo, em Rock’n’Roll a música, que normalmente poderia ser tratado como mero objeto de consumo, é identificada com a liberdade, o que por sua vez mostra o quão importante é a liberdade... de consumir. O consumo livre de produtos culturais equivale à liberdade de formação da própria identidade. Agora você pode pegar essa minha frase pomposa e ver que é graças à liberdade que você pode ouvir Händel ou Bach e seu amigo pode ouvir Kraftwerk. Que é graças à liberdade que “tribos” culturais podem existir. E que, sim, num país liberal você pode olhar o rock’n’roll como símbolo da decadência de tudo que é bom, e num país comunista você pode olhar o rock’n’roll como a notícia de que há um lugar onde se pode ouvir a música que se quer.
Excetuando Max e os policiais tchecos, ninguém na peça realmente desdenha do rock. Mas é possível pressupor essa posição em muitos espectadores mais conservadores, sobretudo os influenciados por Allan Bloom. Tratar o rock dessa maneira sugere um questionamento do elitismo. É possível fazer um paralelo com um momento de redenção do professor riquinho de Cambridge na peça. Estando na Tchecoslováquia e conversando com um oficial do governo, Max percebe que aquilo tudo não passa de uma burocracia idiota e diz que não ficou defendendo o comunismo “para que um bando de policiais ficasse fazendo cagadas”. Allan Bloom talvez dissesse que não temos a liberdade para ficar ouvindo The Beach Boys. Mas é muito melhor poder ouvir The Beach Boys do que estar submetido a policiais que ficam “fazendo cagadas”.
Em outro momento, os personagens tchecos discutem a prisão do membro de uma banda, The Plastic People of the Universe, por usar cabelo comprido. É muito fácil argumentar que o sujeito poderia simplesmente cortar o cabelo. Afinal, o que custa cortar o cabelo? O cabelo não é a mesma coisa que a consciência. Até parece que o sujeito que ser o Thomas More do cabelo. Dê ao governo o que o governo quer e viva em paz. No entanto, é melhor ser preso por ter cabelo comprido do que se submeter a uma polícia que implica com o tamanho dos cabelos.
Afirmar assim essa tese é bastante fácil. Mas ela ganha muito mais força quando é mostrada e não enunciada. A cena dessa discussão pode ser superposta a uma cena ao fim do primeiro ato em que Max e sua esposa, uma professora de literatura grega arcaica, discutem. Max, após ter feito um elogio do cérebro, discute a perda da identidade especificamente comunista e fala das virtudes do trabalho organizado. Eleanor, sua esposa, que sofre de câncer, subitamente desabafa:
“Cortaram, cauterizaram e jogaram fora meus seios, meus ovários, meu útero, metade do meu intestino e um pedaço do meu cérebro, e eu continuo aqui. Eu sou exatamente quem eu sempre fui. Eu não sou meu corpo. Sem mim, meu corpo não é nada.”
Na Tchecoslováquia, o argumento para a submissão ao governo comunista seria exatamente que se deve entregar o cabelo, isto é, o corpo. E no entanto neste contexto o cabelo é um símbolo da alma e da individualidade. Tom Stoppard evita essas palavras, preferindo fazer Eleanor falar em “aquilo com que você me ama” e, logo depois, o próprio Max dizer que “não existe nada além disso”.
Se há alguma mensagem na peça - e obrigado a Tom Stoppard por, mesmo tendo fugido do Eixo na infância, não escrever deliberadamente uma peça com “mensagem” - é que cada circunstância tem um significado diferente, e que o contraste entre elas mostra o quanto a liberdade está relacionada a respeitar o próximo tal como ele é. Os personagens de Rock’n’Roll não fazem longos discursos exigindo liberdade para si, mas aprendendo a conceder liberdade ao outro, a enxergá-lo e aceitá-lo como alguém realmente diferente. Max aceita que o comunismo real da Tchecoslováquia é uma bela porcaria, que sua esposa é mais do que seu corpo. Jan, o estudante tcheco que tem alguma fé no “socialismo com rosto humano” admite que, se um rosto humano pode ter cabelo comprido, o governo não pode ser contra isso.
Nesse momento lembramos da influência de Isaiah Berlin, com sua apreciação da variedade de experiências humanas, sobre Stoppard. Stoppard dedicou a Berlin sua trilogia The Coast of Utopia, cujas duas últimas peças retratam o russo Alexander Herzen. Algumas de suas palavras na peça ilustram bem a atitude:
A riqueza da vida está no durante, depois é tarde demais. Onde está a canção depois que foi cantada? E a dança, depois que foi dançada? Somos só nós, humanos, que ainda por cima queremos ser donos do futuro. Nós nos convencemos de que o universo está minimamente ocupado com o desenrolar do nosso destino. Percebemos o caos aleatório da história todos os dias, toda hora, mas alguma coisa parece errada. Onde está a unidade, o sentido, da mais alta criação da natureza? Claro que estas milhões de pequeninas correntes de acidentes e atos propositais são corrigidas naquele imenso rio subterrâneo que, sem a menor dúvida, está nos levando ao lugar onde somos esperados! Mas esse lugar não existe, por isso é que se chama utopia.
(The Coast of Utopia: Shipwreck.)
Rock’n’Roll está em cartaz até o fim de julho aqui no Rio. A montagem é excelente. Os atores estão ótimos e o discurso de Eleanor do qual tirei a fala citada é aplaudido em cena aberta. A não perder.
Marcadores:
OrdemLivre.org,
Política,
Teatro,
Tom Stoppard
domingo, 7 de junho de 2009
Dez domingos com poesia de uma vez
Uma das razões de os domingos com poesia terem escasseado aqui (além de eu estar mais interessado em teatro do que em poesia) é a Anatomia do poema, seção que escrevi nos três primeiros números da Dicta&Contradicta. Agora que os editores puseram na internet o conteúdo das duas primeiras edições, convido vocês a ler nada menos do que dez comentários que escrevi sobre dez poemas diferentes.
Dicta #1 (poemas sobre amor)
Transforma-se o amador na cousa amada, de Luís de Camões
Eros e Psiquê, de Fernando Pessoa
Soneto do maior amor, de Vinícius de Moraes
Em despeito do amor profano, de Baltazar Estaço
A vida toda de costas, de Bruno Tolentino
Dicta #2 (poemas sobre morte)
Glosa sobre a Ilíada, de Mimnermo
Despojo triste, corpo mal nascido, de António Ferreira
Apóstrofe à carne, de Augusto dos Anjos
A morte absoluta, de Manuel Bandeira
Uma criatura, de Machado de Assis
Mas há muita coisa boa para se ler nesses dois primeiros números agora na web. Não percam.
Dicta #1 (poemas sobre amor)
Transforma-se o amador na cousa amada, de Luís de Camões
Eros e Psiquê, de Fernando Pessoa
Soneto do maior amor, de Vinícius de Moraes
Em despeito do amor profano, de Baltazar Estaço
A vida toda de costas, de Bruno Tolentino
Dicta #2 (poemas sobre morte)
Glosa sobre a Ilíada, de Mimnermo
Despojo triste, corpo mal nascido, de António Ferreira
Apóstrofe à carne, de Augusto dos Anjos
A morte absoluta, de Manuel Bandeira
Uma criatura, de Machado de Assis
Mas há muita coisa boa para se ler nesses dois primeiros números agora na web. Não percam.
Marcadores:
Domingo com poesia
Assinar:
Postagens (Atom)