Publicado originalmente em OrdemLivre.org.
Você está no trânsito, com o carro parado no sinal. Alguém encosta em fila dupla e, quando o sinal abre, passa na sua frente. Cheio de raiva, você, se já foi aos EUA, pensa que lá seria muito difícil isso acontecer (não digo impossível, mas eu nunca vi) e sente saudades daquelas placas que dizem, por exemplo, “Quem está na faixa da esquerda é OBRIGADO a virar à esquerda”. Com um suspiro, você pensa no valor da ordem. E em como ela torna a vida mais fácil. “Se todos respeitassem as regras!”
É verdade que em muitos casos nós temos as regras, e que, como no caso do código de trânsito, essas regras nem são tão ruins assim. O que nos falta é a aplicação das regras. É o desrespeito a elas que mantém a nós, brasileiros, nesse estado, digamos, pré-civilizacional, como que pré-cultural. É fácil e, dependendo do nível de ressentimento, até um escape gostosinho falar mal do Brasil, ressaltando esse aspecto. Mas não sei se a razão exata de isso ser tão ruim já foi apresentada, e vou tentar uma resposta.
Os liberais gostam muito de louvar a competitividade. Muita gente que não gosta do capitalismo fala mal da competição, e de ter que competir. Cada grupo tem razão e, sem saber, num certo sentido estão até de acordo.
O liberal não está defendendo a competição de todos contra todos em todas as áreas. Não conheço um liberal que defenda, por exemplo, que as regras de trânsito sejam um impedimento a uma competição supostamente saudável por espaço, faixas e velocidades, nem que acredite, darwinianamente, que os carros mais adaptados, isto é, jipes de duas toneladas, devam executar a seleção natural contra os populares. O liberal pode ser contra a obrigatoriedade do cinto de segurança, mas certamente não é contra respeitar as filas. A fila, em todos os casos, é uma regra que limita a competição. O liberal não pretende competir no trânsito; quem compete em carro é piloto de corrida — e as corridas também têm suas regras. Realmente, uma sociedade em que se tem de competir no trânsito, em que você considera cada pessoa como um potencial rival em diversas situações cotidianas é uma sociedade de competição desenfreada. Se todos enxergam a todos como rivais em todas as situações — o motorista ao lado, o dono do bar que pode te enganar, o policial que pode te achacar, o gerente do banco que parece fazer algo semelhante ao policial, o burocrata que age como se você estivesse roubando o tempo dele etc. — é a chave para a violência irrestrita.
Se você produzir algo, outra pessoa — legitimada pela lei ou não — virá e tomará. Sem a segurança proporcionada por regras claras e duramente aplicadas, tudo parece transitório, e nada é garantido; nunca se pode parar de competir, e é por isso que se diz que “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”. Na verdade, todos gostamos de levar vantagem em tudo, mas acho que quase todos não têm o desejo sincero de levar essa vantagem às custas de outras pessoas. É a insegurança que cria a sensação de constrangimento; ou você toma o lugar do outro ultrapassando, ou nunca chega. E é por isso também que, no Brasil, as pessoas que se resignam e cumprem a lei acabam falando de si mesmas como se fossem santas, os grandes bodes expiatórios de uma sociedade violenta. Sob um certo aspecto, são mesmo.
Preciso dizer que essa é uma sociedade insuportável, em que o ressentimento e o desejo de vingança amesquinham a alma das pessoas? Ter de competir por tudo, o tempo todo, é insuportável.
Acabar com a competitividade, por sua vez, é utópico. O próprio discurso do mundo melhor é apenas uma arma retórica na competição por certos benefícios. Isso não quer dizer que o homem não tenha um desejo de cooperar. Na verdade, talvez esse desejo talvez seja tão grande quanto o de competir. É só observar o quanto as pessoas não se ressentem — até gostam — de pagar por aquilo que consideram honesto e bem feito. Eu, que mexo com textos, coopero com quem me paga; coopero com aqueles a quem pago. Não me considero rival do dono da sorveteria que frequento.
Mas eu tenho rivais profissionais. Posso me iludir o quanto quiser achando que “ser melhor” não significa “ser melhor do que alguém”; isso não muda nada. Nem muda o fato de que todos nós, excetuando uns poucos verdadeiramente santos, gostamos de vencer. Assim como nas corridas entre pilotos, porém, também há regras para a nossa competição. Não posso matar meus rivais, nem bater neles, nem gostaria de usar o aparato estatal contra eles (fazendo lobby pela obrigatoriedade de diplomas, por exemplo). Não posso sabotar seus trabalhos, não posso dar um curso com informações falsas, e também não me sentiria bem escondendo a existência de um bom dicionário.
O que é claro é que, se eu dirigisse e não tivesse de competir com outros motoristas, nem tivesse de competir com lojistas desonestos, nem tivesse de entregar uma parte tão grande do meu dinheiro a um governo que muitas vezes sequer explicita que está me cobrando impostos, eu teria mais energia para competir a boa competição, sem um desgaste tão grande.
É a famosa igualdade perante a lei, isto é, a presença dessas regras, e não apenas sua mera existência no papel, que permite a “boa” competitividade, e que viabiliza os aspectos mais especificamente humanos da vida. É a falta de aplicação dessas regras que mantém o Brasil nesse estado letárgico, em que as pessoas têm um ressentimento difuso de tudo, e que sustenta o sentimento contrário à competitividade em geral. Só que, como já observei, nesse ponto os defensores e os detratores do liberalismo acabam se encontrando. Talvez só não saibam disso ainda.
sábado, 29 de agosto de 2009
Contra a competição desenfreada, claro
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segunda-feira, 24 de agosto de 2009
O brasileiro sonha com regras
Publicado originalmente em OrdemLivre.org.
Há no filme Tropa de elite um breve momento em que o Capitão Nascimento denuncia um aspecto muito forte da cultura brasileira. Ele, truculento, que nunca ouviu falar que os fins não justificam os meios, quando vai elogiar Neto, na etapa final de seu aprendizado, diz que suas manobras estão “padrão, padrão”.
É um contraste excelente. Não se questiona o treinamento do BOPE do filme; também não se questiona que achincalhar a vida dos moradores da favela e “botar na conta do Papa” um bandido está longe de ser o que se esperaria de um padrão de conduta. O Capitão Nascimento domina as técnicas em proveito próprio; ele as domina em seu mais alto padrão, para poder ignorar um padrão moral. Mas o elogio máximo que sai da sua boca é esse: “padrão”.
Não é difícil ver as vantagens de dominar o “padrão”. O filme mostra os alunos da PUC e, como eu mesmo estudei lá, sei que aquilo poderia ser um documentário, um reality show, e a verdade é que aqueles alunos são indiferenciados, seguidores cegos de modinhas intelectuais esquerdistas. O outro meio, o da polícia, é igualmente indiferenciado: são todos corruptos, mesquinhos e ridículos. Quem tem o domínio da realidade é o Capitão Nascimento. Tem o domínio das ações e é o único personagem que questiona os próprios atos. Os outros vivem segundo padrões; já ele domina o padrão e ensina o padrão: ou você o domina, ou vive dominado e cai na indiferenciação. Quem não passa no treinamento do BOPE volta para o mundo idiota da polícia comum. O filme repete assim a mesma estrutura de quase todas as conversas: quando nos reunimos para falar dos outros, eles são escravos de algum padrão, enquanto nós dominamos esse padrão. Até o debatemos, veja só!
Isso lembra muito Nelson Rodrigues. Seus personagens estão sempre transformando em fetiche algum aspecto institucional, “padrão”. Em Toda nudez será castigada, o filho quer quer o pai não se case de novo, e fique para sempre fiel à mãe. Em O beijo no asfalto, Arandir, casadíssimo e heterossexual, fetichiza a idéia de que não se deve negar nada a um moribundo, e dá um beijo na boca de um homem atropelado por um bonde. É possível dizer que essas foram apenas fachadas para as verdadeiras motivações dos personagens, mas essas foram as justificações que eles deram a eles mesmos — exatamente como, em A serpente, uma mulher fetichiza a idéia de felicidade conjugal a ponto de oferecer os préstimos do excelente marido à própria irmã.
Seria fácil dizer que essas obras são pueris e refletem um horror à complexidade. Mas elas são fruto de outra experiência. Elas refletem uma tentativa desesperada e, sob certo aspecto, um pouco desajeitada, de rejeitar a ambiguidade do cotidiano brasileiro. O filho não quer que o pai se case de novo porque o brasileiro, sem a firmeza da instituição do casamento (e olha que na época em que Nelson Rodrigues escreveu isso as coisas eram muito diferentes), não consegue definir seus relacionamentos, ficando assim sem saber definir sua identidade. Arandir se surpreende por, no meio do século XX, ser chamado de gay por beijar na boca um homem caído no meio da rua. A irmã entrega o marido à irmã. Esses personagens estão gritando: qual é o padrão? Qual é a regra?
Agora, O Capitão Nascimento atira em quem ele quiser, mas elogia a destreza do aprendiz chamando-a de “padrão”. No universo dele, o padrão é uma técnica. Só existe indiferenciação e vingança; não existe uma administração institucional, padrão, da justiça, uma regra que controle a violência. O Capitão Nascimento se agarra às técnicas do BOPE como os personagens de Nelson Rodrigues se agarram às suas regras fetichizadas, descontextualizadas. Claro que nenhum deles será salvo.
Essa é a experiência brasileira. Olhamos o caos. Não há punição institucional para a transgressão; só há a violência retributiva entre policiais e bandidos, e a violência aleatória contra as pessoas de bem. Em todas as classes sociais, diversas pessoas clamam, ressentidas, pela presença do Estado, e esse ressentimento nos vai envenenando a alma. Não queremos desejar uma vingança generalizada contra aqueles que imaginamos ser os malfeitores, não queremos linchar o bode expiatório; queremos só as regras que permitem a vida pacífica e a cooperação. E é por causa desse ressentimento misturado a desejo que os dramaturgos brasileiros produzem esses personagens que sonham, ou deliram, com um “padrão”.
Há no filme Tropa de elite um breve momento em que o Capitão Nascimento denuncia um aspecto muito forte da cultura brasileira. Ele, truculento, que nunca ouviu falar que os fins não justificam os meios, quando vai elogiar Neto, na etapa final de seu aprendizado, diz que suas manobras estão “padrão, padrão”.
É um contraste excelente. Não se questiona o treinamento do BOPE do filme; também não se questiona que achincalhar a vida dos moradores da favela e “botar na conta do Papa” um bandido está longe de ser o que se esperaria de um padrão de conduta. O Capitão Nascimento domina as técnicas em proveito próprio; ele as domina em seu mais alto padrão, para poder ignorar um padrão moral. Mas o elogio máximo que sai da sua boca é esse: “padrão”.
Não é difícil ver as vantagens de dominar o “padrão”. O filme mostra os alunos da PUC e, como eu mesmo estudei lá, sei que aquilo poderia ser um documentário, um reality show, e a verdade é que aqueles alunos são indiferenciados, seguidores cegos de modinhas intelectuais esquerdistas. O outro meio, o da polícia, é igualmente indiferenciado: são todos corruptos, mesquinhos e ridículos. Quem tem o domínio da realidade é o Capitão Nascimento. Tem o domínio das ações e é o único personagem que questiona os próprios atos. Os outros vivem segundo padrões; já ele domina o padrão e ensina o padrão: ou você o domina, ou vive dominado e cai na indiferenciação. Quem não passa no treinamento do BOPE volta para o mundo idiota da polícia comum. O filme repete assim a mesma estrutura de quase todas as conversas: quando nos reunimos para falar dos outros, eles são escravos de algum padrão, enquanto nós dominamos esse padrão. Até o debatemos, veja só!
Isso lembra muito Nelson Rodrigues. Seus personagens estão sempre transformando em fetiche algum aspecto institucional, “padrão”. Em Toda nudez será castigada, o filho quer quer o pai não se case de novo, e fique para sempre fiel à mãe. Em O beijo no asfalto, Arandir, casadíssimo e heterossexual, fetichiza a idéia de que não se deve negar nada a um moribundo, e dá um beijo na boca de um homem atropelado por um bonde. É possível dizer que essas foram apenas fachadas para as verdadeiras motivações dos personagens, mas essas foram as justificações que eles deram a eles mesmos — exatamente como, em A serpente, uma mulher fetichiza a idéia de felicidade conjugal a ponto de oferecer os préstimos do excelente marido à própria irmã.
Seria fácil dizer que essas obras são pueris e refletem um horror à complexidade. Mas elas são fruto de outra experiência. Elas refletem uma tentativa desesperada e, sob certo aspecto, um pouco desajeitada, de rejeitar a ambiguidade do cotidiano brasileiro. O filho não quer que o pai se case de novo porque o brasileiro, sem a firmeza da instituição do casamento (e olha que na época em que Nelson Rodrigues escreveu isso as coisas eram muito diferentes), não consegue definir seus relacionamentos, ficando assim sem saber definir sua identidade. Arandir se surpreende por, no meio do século XX, ser chamado de gay por beijar na boca um homem caído no meio da rua. A irmã entrega o marido à irmã. Esses personagens estão gritando: qual é o padrão? Qual é a regra?
Agora, O Capitão Nascimento atira em quem ele quiser, mas elogia a destreza do aprendiz chamando-a de “padrão”. No universo dele, o padrão é uma técnica. Só existe indiferenciação e vingança; não existe uma administração institucional, padrão, da justiça, uma regra que controle a violência. O Capitão Nascimento se agarra às técnicas do BOPE como os personagens de Nelson Rodrigues se agarram às suas regras fetichizadas, descontextualizadas. Claro que nenhum deles será salvo.
Essa é a experiência brasileira. Olhamos o caos. Não há punição institucional para a transgressão; só há a violência retributiva entre policiais e bandidos, e a violência aleatória contra as pessoas de bem. Em todas as classes sociais, diversas pessoas clamam, ressentidas, pela presença do Estado, e esse ressentimento nos vai envenenando a alma. Não queremos desejar uma vingança generalizada contra aqueles que imaginamos ser os malfeitores, não queremos linchar o bode expiatório; queremos só as regras que permitem a vida pacífica e a cooperação. E é por causa desse ressentimento misturado a desejo que os dramaturgos brasileiros produzem esses personagens que sonham, ou deliram, com um “padrão”.
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sábado, 22 de agosto de 2009
Deus em minúscula, problema de auto-afirmação
Escrever “Deus” com minúscula, “deus”, é mais ou menos como escrever “estados unidos” por ser anti-americano. Imaginem se eu, que julgo que o governo não deveria manter empresas, vou passar a escrever “petrobras”. Posso deixar perfeitamente clara a minha posição sem criar um ruído comunicativo que só serve para dar a impressão de que estou falando com vozinha esganiçada e dedinho apontado, correndo e dando chutinhos na canela dos adultos. “Olha só, não acredito, não respeito, por isso ponho em minúscula! Olha! Olha! OLHA!”
Ainda que eu me sinta um professor primário por dizer isso, o “D” maiúsculo tem uma função convencional, distinguindo o Deus cristão (e judeu) dos deuses pagãos. É verdade que o Deus cristão ainda é distinto por não ser acompanhado de artigo nem de nome; basta que se diga que Deus fez isso, ou que Deus estabeleceu tal coisa, para que se saiba não se está falando do deus Indra ou do deus Apolo; mas, veja só, eu não creio nem em Indra, nem em Apolo, e consigo perceber o ridículo de escrever indra e apolo. Mesmo que se pense que o Deus cristão é apenas mais um deus como o dos pagãos — o que demonstra menos sutileza que dizer que Ayn Rand e Karl Marx não passam de autores ateus — , ué, o nome convencional do Deus cristão é “Deus”. Ou, se preferirem, “o nome convencional do deus cristão é Deus”.
Pelo menos, por uma questão de coerência, essa gente que escreve Deus com minúscula podia começar a escrever moisés, abraão, isaías. Se não crêem no maior, podiam também não crer nos menores a quem os crentes atribuem existência histórica.
Ainda que eu me sinta um professor primário por dizer isso, o “D” maiúsculo tem uma função convencional, distinguindo o Deus cristão (e judeu) dos deuses pagãos. É verdade que o Deus cristão ainda é distinto por não ser acompanhado de artigo nem de nome; basta que se diga que Deus fez isso, ou que Deus estabeleceu tal coisa, para que se saiba não se está falando do deus Indra ou do deus Apolo; mas, veja só, eu não creio nem em Indra, nem em Apolo, e consigo perceber o ridículo de escrever indra e apolo. Mesmo que se pense que o Deus cristão é apenas mais um deus como o dos pagãos — o que demonstra menos sutileza que dizer que Ayn Rand e Karl Marx não passam de autores ateus — , ué, o nome convencional do Deus cristão é “Deus”. Ou, se preferirem, “o nome convencional do deus cristão é Deus”.
Pelo menos, por uma questão de coerência, essa gente que escreve Deus com minúscula podia começar a escrever moisés, abraão, isaías. Se não crêem no maior, podiam também não crer nos menores a quem os crentes atribuem existência histórica.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Auto-estima = hetero-estima
A “auto-estima” é um dos mais vulgares mitos românticos. Mito porque é uma mentira criada para encobrir uma verdade desagradável. Romântico porque se baseia na crença de que é uma estima que tem origem no próprio indivíduo: é “auto”-estima. Para falar de auto-estima, as mulheres* vão usar frases como “gostar de si mesmo”. E umas dirão que outras se deixam manipular por ter problemas de auto-estima: “se fulana gostasse mais de si, encontraria um homem que a tratasse melhor”.
Besteira. A auto-estima nada mais é do que uma hetero-estima, uma estima que vem dos outros. Quer aumentar a auto-estima de uma mulher? Faça com que ela receba elogios de pessoas a quem ela atribui prestígio - essa última parte é muito importante. Não pode ser um elogio de qualquer pessoa. Por outro lado, palavras de reprovação de quase qualquer pessoa podem ter um efeito negativo. “Até XXXX me acha gorda / feia / burra”. Sim, bem-vinda, esse é o inferno mesmo: o elogio valioso é escasso e de efeito rápido, a reprovação é abundante e de efeito duradouro.
Pense na expressão “auto-estima” e entenda o famoso “poder do mito”.
*Falo em “mulheres” porque não me parece que seja muito macho ter preocupações com “auto-estima”. Se você acha que não, leitora, imagine o efeito deplorável que teria sobre você uma declaração do seu namorado a respeito de seus próprios problemas de auto-estima.
Besteira. A auto-estima nada mais é do que uma hetero-estima, uma estima que vem dos outros. Quer aumentar a auto-estima de uma mulher? Faça com que ela receba elogios de pessoas a quem ela atribui prestígio - essa última parte é muito importante. Não pode ser um elogio de qualquer pessoa. Por outro lado, palavras de reprovação de quase qualquer pessoa podem ter um efeito negativo. “Até XXXX me acha gorda / feia / burra”. Sim, bem-vinda, esse é o inferno mesmo: o elogio valioso é escasso e de efeito rápido, a reprovação é abundante e de efeito duradouro.
Pense na expressão “auto-estima” e entenda o famoso “poder do mito”.
*Falo em “mulheres” porque não me parece que seja muito macho ter preocupações com “auto-estima”. Se você acha que não, leitora, imagine o efeito deplorável que teria sobre você uma declaração do seu namorado a respeito de seus próprios problemas de auto-estima.
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terça-feira, 18 de agosto de 2009
Dois pesos, duas medidas
Se um músico acha que sua orquestra é composta de gente mesquinha e canalha, ele não perde a fé na música. Se uma cabeleireira acha que o salão onde trabalha só tem mulheres venenosas, nem por isso ela desiste da idéia de embelezamento. Se uma pessoa que não toca nenhum instrumento nem maneja uma tesoura vê tudo isso de fora, nem por isso passa a falar mal da música e do corte de cabelo. Mas se alguém descobre que uma igreja, que obrigatoriamente é um ambiente social, tem os mesmos problemas dos outros ambientes sociais, então a idéia mesma de religião passa a ser condenada.
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quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Consciência x autoridade
Parece haver um contraste natural entre consciência e autoridade. A consciência é pessoal, individual, íntima; a autoridade, impessoal, coletiva, estranha. Se identificarmos a consciência com a inteligência, que é de fato individual, qualquer um poderia dizer que o suposto impasse se resolve afirmando que pode ser inteligente seguir a autoridade, e ter razão. Porém, o que me interessa é a oposição subjetiva entre consciência e autoridade, isto é, os motivos que uma pessoa dá a si mesma para recusar uma autoridade. Esses motivos sempre parecem girar em torno de questões de consciência. Do mártir católico ao adolescente ateu que se sente constrangido em sua escola no coração do Bible Belt, ninguém quer ter a sua consciência constrangida. O mérito dos conteúdos de sua consciência é irrelevante neste momento. O que me interessa é que, toda vez que um indivíduo se insurge contra uma autoridade, essa oposição é formulada nos termos de uma consciência individual contra uma autoridade exterior que injustamente a constrange.
Se a autoridade diz representar a consciência individual, o indivíduo a acusará de ser a suprema perversão dela: uma anticonsciência que, travestida de consciência coletiva, começa por inverter a ordem das coisas ao pretender afirmar-se fora da intimidade da inteligência individual; aliás, essa pretensão só poderia mesmo surgir de um impulso totalitário. A autoridade acusará o indivíduo (caso não o ignore pura e simplesmente) de desrespeitar a hierarquia; de ser simplesmente vaidosa diante da experiência acumulada por outros e cristalizada na autoridade, que fornece nada menos do que a estabilidade do mundo: o que representaria para a ciência, enquanto empreendimento social, alguém que exigisse aceitação para dados obtidos sem o uso do método devido?
Sei que devo fazer uma ressalva e explicar o exemplo. Para mim, neste momento, os conteúdos da ciência ou da não-ciência são irrelevantes; interessa-me que o método científico é uma regra que pode ser tão exterior à consciência quanto qualquer outra regra. Não digo isso porque eu seja contrário ao método científico — não sou. Só estou interessado em regras e motivações, e penso que qualquer pessoa aceita de mão beijada a informação que vem das fontes a que confere maior prestígio. Se você (acha que) confere prestígio a uma autoridade por razões mais razoáveis do que as minhas, ainda assim confere prestígio: você abre as páginas de uma publicação e lê aquilo com boa vontade, presumindo que é verdade; e lê as páginas de outra publicação com má vontade, presumindo que é mentira.
Mas o que mais me interessa agora é a associação entre verdade e identidade. Ninguém crê que aquilo que pensa é mentira, mas verdade; mesmo que seja uma verdade provisória e aproximativa, ainda assim verdade. As pessoas também se definem — observo isso em mim mesmo — pelas verdades que possuem. Quer dizer, diante dos outros, e sob certo aspecto diante de si mesmo, a sua posse de certas verdades é tão definidora da sua identidade quanto é para outra pessoa a posse de certas roupas e acessórios. Mudar de idéia é mudar de identidade; e, quanto mais séria a idéia, mais séria a mudança de identidade. Se não fosse assim, não teríamos a impressão de que aquele que tem idéias discordantes de um consenso é mais indivíduo do que aqueles que partilham do consenso. Aderir a um consenso parece com dissolver-se; contrariar um consenso parece com afirmar a si e à primazia da consciência individual.
Se a autoridade diz representar a consciência individual, o indivíduo a acusará de ser a suprema perversão dela: uma anticonsciência que, travestida de consciência coletiva, começa por inverter a ordem das coisas ao pretender afirmar-se fora da intimidade da inteligência individual; aliás, essa pretensão só poderia mesmo surgir de um impulso totalitário. A autoridade acusará o indivíduo (caso não o ignore pura e simplesmente) de desrespeitar a hierarquia; de ser simplesmente vaidosa diante da experiência acumulada por outros e cristalizada na autoridade, que fornece nada menos do que a estabilidade do mundo: o que representaria para a ciência, enquanto empreendimento social, alguém que exigisse aceitação para dados obtidos sem o uso do método devido?
Sei que devo fazer uma ressalva e explicar o exemplo. Para mim, neste momento, os conteúdos da ciência ou da não-ciência são irrelevantes; interessa-me que o método científico é uma regra que pode ser tão exterior à consciência quanto qualquer outra regra. Não digo isso porque eu seja contrário ao método científico — não sou. Só estou interessado em regras e motivações, e penso que qualquer pessoa aceita de mão beijada a informação que vem das fontes a que confere maior prestígio. Se você (acha que) confere prestígio a uma autoridade por razões mais razoáveis do que as minhas, ainda assim confere prestígio: você abre as páginas de uma publicação e lê aquilo com boa vontade, presumindo que é verdade; e lê as páginas de outra publicação com má vontade, presumindo que é mentira.
Mas o que mais me interessa agora é a associação entre verdade e identidade. Ninguém crê que aquilo que pensa é mentira, mas verdade; mesmo que seja uma verdade provisória e aproximativa, ainda assim verdade. As pessoas também se definem — observo isso em mim mesmo — pelas verdades que possuem. Quer dizer, diante dos outros, e sob certo aspecto diante de si mesmo, a sua posse de certas verdades é tão definidora da sua identidade quanto é para outra pessoa a posse de certas roupas e acessórios. Mudar de idéia é mudar de identidade; e, quanto mais séria a idéia, mais séria a mudança de identidade. Se não fosse assim, não teríamos a impressão de que aquele que tem idéias discordantes de um consenso é mais indivíduo do que aqueles que partilham do consenso. Aderir a um consenso parece com dissolver-se; contrariar um consenso parece com afirmar a si e à primazia da consciência individual.
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segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Perigos da "opinião pública"
Publicado originalmente em OrdemLivre.org.
A decisão judicial que rapida e celeremente proibiu o Estadão de divulgar informações da investigação sobre Sarney provocou diversas reações, de diversos tipos. Tendo sido uma ação praticada pelo governo, não há dúvida de que pode ser equiparada à censura. No contexto da América Latina, com Chávez confrontando jornalistas, a proibição fica pior ainda. Todavia, é preciso fazer uma pequena distinção. A liberdade de imprensa não é um direito especial e sacrossanto concedido a uma classe especial e sacrossanta de pessoas chamadas “jornalistas”. A liberdade de imprensa é apenas uma possibilidade contida na liberdade de expressão que qualquer pessoa tem, e essa sim merece toda proteção. As implicações desta discussão se estendem à própria idéia de democracia liberal e à distinção entre o público e o privado.
A palavra “público”, para começar, é usada com diversas conotações diferentes. O governo pode falar em atos públicos para minimizar o fato de que o governo é composto de indivíduos que agem de acordo com suas cabeças, e não de acordo com uma fantasmagórica “vontade geral”. Também se fala em “funcionário público” e não em “funcionário do governo”, e com isso se pretende enfatizar que o funcionário está a serviço de todos os que pagam impostos, isto é, de todos. Qualquer pessoa pode falar em “espaço público”, mas o mais comum é que a expressão venha numa reclamação a respeito de como os outros não respeitam o “espaço público”. E quando se fala em “opinião pública”, normalmente se quer dizer “a opinião da maioria”, ainda que essa opinião seja um tanto difícil de determinar. Mesmo em relação ao caso Sarney, tendo a suspeitar de que a maioria das pessoas não tenha opinião nenhuma, e que, como de hábito, o “pública” no sentido de “da maioria” corresponda na verdade a “minha e de meus amigos”. Não tenho como não recordar o que Neil Postman disse numa entrevista sobre Susan Sontag: a escritora nova-iorquina teria ficado estupefata diante da eleição de Bush pai porque não conhecia ninguém que tivesse votado nele...
Por exemplo: o Jornal O Globo deste sábado (08/08/09) levanta a questão de se a imprensa representaria ou não a opinião pública, lembrando que Winston Churchill disse que não existia “opinião pública”, mas apenas “opinião publicada”, distinção que a mim parece acertadíssima. Nunca se fala em opinião pública sem pressupor que essa opinião tenha alguma espécie de direito especial. Por exemplo, quando um deputado declarou que “se lixava para a opinião pública” , aquilo foi escandaloso. Fora de contexto, podemos dar uma interpretação negativa e outra positiva (sim, isso mesmo) para a frase. A negativa é que o deputado não se importa com as pessoas que pagam impostos, o que parece verossímil. A positiva é que as regras de funcionamento do Estado estão acima da opinião pública, e estão mesmo. Ou deveriam estar. É possível acusar alguém pela imprensa, mas o que deve contar é um julgamento dentro do devido processo legal. Aliás, a função principal do processo legal é evitar os linchamentos públicos e, com isso, limitar a opinião pública. Será o governo o braço armado da “opinião da maioria” ou uma força que protege os inocentes e evita crueldades?
Que ninguém duvide de que defendo radicalmente a liberdade de expressão e com isso a liberdade de imprensa. Prefiro mil vezes uma imprensa livre e cheia de defeitos a uma imprensa controlada pelo governo sob qualquer aspecto. Defendo inclusive a abolição do direito de imagem, já que ninguém pode ser dono da opinião de outras pessoas, e a imagem de alguém é a opinião que outras pessoas têm desse alguém. É pela minha defesa da liberdade de expressão que venho dizer que o uso insistente da expressão “opinião pública” para legitimar certas ações pode ser contrário ao espírito mesmo da democracia liberal, pois uma das coisas que a distingue, além da presunção de inocência, é a recusa em oferecer bodes expiatórios à turba enfurecida.
A decisão judicial que rapida e celeremente proibiu o Estadão de divulgar informações da investigação sobre Sarney provocou diversas reações, de diversos tipos. Tendo sido uma ação praticada pelo governo, não há dúvida de que pode ser equiparada à censura. No contexto da América Latina, com Chávez confrontando jornalistas, a proibição fica pior ainda. Todavia, é preciso fazer uma pequena distinção. A liberdade de imprensa não é um direito especial e sacrossanto concedido a uma classe especial e sacrossanta de pessoas chamadas “jornalistas”. A liberdade de imprensa é apenas uma possibilidade contida na liberdade de expressão que qualquer pessoa tem, e essa sim merece toda proteção. As implicações desta discussão se estendem à própria idéia de democracia liberal e à distinção entre o público e o privado.
A palavra “público”, para começar, é usada com diversas conotações diferentes. O governo pode falar em atos públicos para minimizar o fato de que o governo é composto de indivíduos que agem de acordo com suas cabeças, e não de acordo com uma fantasmagórica “vontade geral”. Também se fala em “funcionário público” e não em “funcionário do governo”, e com isso se pretende enfatizar que o funcionário está a serviço de todos os que pagam impostos, isto é, de todos. Qualquer pessoa pode falar em “espaço público”, mas o mais comum é que a expressão venha numa reclamação a respeito de como os outros não respeitam o “espaço público”. E quando se fala em “opinião pública”, normalmente se quer dizer “a opinião da maioria”, ainda que essa opinião seja um tanto difícil de determinar. Mesmo em relação ao caso Sarney, tendo a suspeitar de que a maioria das pessoas não tenha opinião nenhuma, e que, como de hábito, o “pública” no sentido de “da maioria” corresponda na verdade a “minha e de meus amigos”. Não tenho como não recordar o que Neil Postman disse numa entrevista sobre Susan Sontag: a escritora nova-iorquina teria ficado estupefata diante da eleição de Bush pai porque não conhecia ninguém que tivesse votado nele...
Por exemplo: o Jornal O Globo deste sábado (08/08/09) levanta a questão de se a imprensa representaria ou não a opinião pública, lembrando que Winston Churchill disse que não existia “opinião pública”, mas apenas “opinião publicada”, distinção que a mim parece acertadíssima. Nunca se fala em opinião pública sem pressupor que essa opinião tenha alguma espécie de direito especial. Por exemplo, quando um deputado declarou que “se lixava para a opinião pública” , aquilo foi escandaloso. Fora de contexto, podemos dar uma interpretação negativa e outra positiva (sim, isso mesmo) para a frase. A negativa é que o deputado não se importa com as pessoas que pagam impostos, o que parece verossímil. A positiva é que as regras de funcionamento do Estado estão acima da opinião pública, e estão mesmo. Ou deveriam estar. É possível acusar alguém pela imprensa, mas o que deve contar é um julgamento dentro do devido processo legal. Aliás, a função principal do processo legal é evitar os linchamentos públicos e, com isso, limitar a opinião pública. Será o governo o braço armado da “opinião da maioria” ou uma força que protege os inocentes e evita crueldades?
Que ninguém duvide de que defendo radicalmente a liberdade de expressão e com isso a liberdade de imprensa. Prefiro mil vezes uma imprensa livre e cheia de defeitos a uma imprensa controlada pelo governo sob qualquer aspecto. Defendo inclusive a abolição do direito de imagem, já que ninguém pode ser dono da opinião de outras pessoas, e a imagem de alguém é a opinião que outras pessoas têm desse alguém. É pela minha defesa da liberdade de expressão que venho dizer que o uso insistente da expressão “opinião pública” para legitimar certas ações pode ser contrário ao espírito mesmo da democracia liberal, pois uma das coisas que a distingue, além da presunção de inocência, é a recusa em oferecer bodes expiatórios à turba enfurecida.
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terça-feira, 4 de agosto de 2009
Um erro de Nelson
Acabo de passar alguns minutos procurando entre meus livros a coletânea — terá sido O óbvio ululante? A cabra vadia? — com a crônica em que Nelson Rodrigues explica a razão de haver tantos personagens depravados em suas peças. Não achei; mas lembro que está no começo, e que nela Nelson diz que exibe aquilo tudo para que, de certo modo, a sociedade seja purgada. Se há loucos e depravados em cena, não os haveria na sociedade. O teatro funcionaria como catarse, como purgação dos instintos perversos, e a platéia de uma peça de Nelson Rodrigues voltaria para casa mais seguidora da moral e dos bons costumes.
Lembro de ler isso, há anos, e quase cair para trás. Porque “Nelson Rodrigues”, por mais reaça que fosse, era sinônimo de “depravação”, ou pelo menos de “mulher pelada”. Quando eu era criança, mal podia ouvir falar de “filme do Nelson Rodrigues”, e já imaginava coisas inauditas e inomináveis. Que eu nem mesmo sabia o que eram. Depois, mais velho, quando vi os primeiros filmes do Nelson Rodrigues, também constatei definitivamente que eles não produziam catarse nenhuma dos tais instintos perversos. Pelo contrário. Qualquer que fosse a história, o fator “mulher pelada” se tornava mais relevante. Vamos dizer apenas que Platão não aprovaria o efeito daqueles filmes e peças na alma dos espectadores.
Daí a pergunta: será que ele realmente desconhecia o efeito de suas obras? Onde foi que ele errou?
Errou no seguinte. Aristóteles já falava da catarse, a purgação de certas emoções operada pela tragédia. Aristóteles também diz que Édipo Rei, de Sófocles, é um modelo de tragédia. O personagem Édipo é digno do Nelson mais perverso: matou o pai, casou com a mãe, teve com ela quatro filhos, e, quando a peça começa, ele está dizendo que vai acabar com a peste que assola a cidade. Durante a peça, sua mãe-esposa se mata, e ele mesmo se cega. Qual a diferença entre Sófocles e Nelson Rodrigues? A diferença é que o primeiro não mostra nenhum dos atos perversos no palco. As coisas horrendas do passado são meramente aludidas, e as violências acontecem fora do palco. Tudo o que se mostrar no palco vai assumir ao menos parcialmente o papel de modelo; afinal, o palco é o centro da atenção.
Com isso não quero desmerecer a obra de Nelson Rodrigues. Ele é o maior dramaturgo da língua portuguesa em todos os tempos. Domina a perfeita dicção carioca. Em cinco falas já estamos transportados para onde quer que ele queira. Talvez minhas peças favoritas dele sejam Viúva, porém honesta, A falecida e A serpente, cada uma com um registro diferente, com perfeita concisão, com tudo. Mas é verdade que o legado de Nelson, ou ao menos do Nelson “trágico”, não é de purgação das perversões - é de excitação desses sentimentos, e tudo porque ele quis exibir as perversões de seus personagens.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Jeremy Clarkson Beatbox
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