domingo, 29 de novembro de 2009

A caixa preta da esquerda

Na peça Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, D. João de Portugal, capturado pelos árabes na Batalha do Alcácer finalmente retorna a Portugal, onde se apresenta como o marido desaparecido de sua esposa, que, há anos, está casada com outro homem, Manuel de Sousa Coutinho.

César Benjamin deu uma de D. João de Portugal na última sexta, com o detalhe de que o nobre lusitano esteve preso e impossibilitado de se comunicar. Continua me parecendo irresponsável da parte da Folha publicar uma acusação tão grave contra o presidente da República sem que haja corroboração de outras fontes. A impressão que eu tenho é que, se eu enviar um artigo relatando meus contatos com marcianos, avisando que la garantia soy yo, então ele será publicado, e os fatos serão verificados depois — por outro veículo. Parece que o conceito de jornalismo que está sendo praticado é que fato é alguém dizer que algo aconteceu, não que algo aconteceu. E parece mesmo que ninguém se importa com o fato de César Benjamin ter pressuposto que é normal trabalhar para que um estuprador chegue à presidência. Será que foi só o filme O filho do Brasil que o motivou a revelar isso agora? Por que não antes?

Mas eis que a revista Veja achou a vítima, que prefere não falar no assunto. Realmente, quando a vítima não nega ser vítima, e ninguém nega peremptoriamente o ocorrido, só podemos recordar que, na velha URSS, a subjugação de "meninos do MEP" recebia o epíteto de "o vício fascista". Se a vítima não quer apresentar queixa, podemos também recordar todas aquelas campanhas que incentivavam as vítimas de estupro a procurar a polícia... E também cabe perguntar como isso respingará em Lula aos olhos do povo. Porque é claro que o presidente não pode ir à TV dizer coisas como "não sou estuprador". Mais ainda, cabe perguntar o que mais César Benjamin et caterva sabem. E, o que mais me interessa, admito, perguntar se esse evento não marca o início de uma implosão da esquerda. Abrindo-se a caixa preta, ou a caixa de Pandora, não vai restar esperança nenhuma no fundo, e não porque o medo a tenha vencido.

O outro aspecto que me interessa é como a motivação contrária ou favorável a alguém influencia a atribuição de credibilidade. Admito sem problemas que se o New York Times publicasse uma reportagem dizendo que o Papa Bento XVI é um estuprador eu simplesmente não acreditaria. Se um vizinho dissesse isso do meu pai, de um amigo meu, eu não acreditaria. Eu concederia sem pestanejar o benefício da dúvida ao Papa, ao meu pai e ao meu amigo. Mesmo que eu prefira o PT fora do poder (sem saber exatamente qual partido eu gostaria de ver na presidência), não vou linchar Lula porque, 15 anos depois, sem oferecer nada além de um testemunho pessoal, um militante de esquerda que, até ontem, qualquer direitista diria indigno de confiança, vem fazer uma acusação gravíssima contra ele. Francamente, ter dado crédito imediato a César Benjamin, nessas circunstâncias, me parece tão infantil quanto acreditar quanto acreditar que O filho do Brasil é uma pura obra de arte desinteressada de seu contexto.

Agora, enfim, não acho que seja o caso de dizer que se pode linchar Lula. Não sei se a lei brasileira obriga a que alguém investigue uma tentativa de estupro à revelia da vítima — que, nesse caso, não parece disposta a colaborar. Não sei se o crime já prescreveu. Mas sei que espero que, ao menos politicamente, ele enfrente um longo e horrendo ostracismo. O que provavelmente não vai acontecer.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O freak show de César Benjamin

Chego em casa à noite e me deparo com o texto de César Benjamin na FSP em que ele acusa o presidente da república de ter confessado uma tentativa de estupro durante um almoço com um marqueteiro americano na campanha de 1994.

Agora, direitistas do meu Brasil, antes de pegar a pedra no chão e sair gritando "eu sabia, eu sabia!", vamos pensar um pouco.

1. Sem nem entrar no mérito da acusação, César Benjamin está confessando que ouviu o candidato à presidência para quem trabalhava confessar a tentativa de estuprar um garoto sem que isso sequer o motivasse a abandonar essa campanha. Acho que isso diz muito sobre os padrões de César Benjamin. E também recorda que agora ele está em outro partido. Quer dizer que César Benjamin acha tolerável tentar estuprar alguém, desde que você esteja no partido dele. Como é que o sujeito consegue contar essa história sem perceber o que diz a respeito de si mesmo é que eu não entendo. "Então, pois é, o cara confessou o estupro, e aí eu continuei trabalhando para ele virar presidente."

2. Também não sei como é que a Folha publica um negócio desses sem que pelo menos outra pessoa confirme que Lula realmente falou isso durante o almoço. Isso não é jornalismo. Isso é a mesma coisa que eu dizer que um belo dia o Zezinho das Couves me contou que estuprou outro garoto. Só que o Zezinho das Couves agora é presidente. Ninguém sabe quem é a vítima, não há testemunhas, não há nada.

3. Não sei se o crime, se aconteceu, já prescreveu, nem se já havia prescrito quando César Benjamin ouviu sua confissão, mas será que ele não se torna cúmplice disso em alguma medida?

4. Se a direita conceder crédito imediato ao Benjamin, vai se desacreditar tanto quanto a Folha, que publica acusações graves por puro sensacionalismo (e os tablóides ao menos têm as fotos dos paparazzi). A única coisa séria a fazer é averiguar a história a fundo, encontrar a vítima, testemunhas etc. Mesmo que não haja mais possibilidade de processo, há a possibilidade de documentação. Ou faz-se isso, ou cala-se a boca. O resto é fofoca, loucura e autodegradação.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Eis que escrevo uma peça de teatro, que você pode ler e montar

Entre janeiro e setembro de 2009, contando com o auxílio de bons atores que se interessaram pelo meu texto, comecei a escrever minha primeira peça de teatro, enfim intitulada Amadores. Tem cinco personagens, se passa em alguma grande cidade brasileira - eu pensei no Rio, porque moro aqui, mas não há nada especificamente carioca no texto - e, digamos, tem história. Uma história do começo ao fim. Hoje é comum irmos ao teatro e as montagens de textos contemporâneos serem "fragmentos", cenas costuradas, ou apenas sucessões de episódios. Quis escrever algo com katábasis, peripécias, reconhecimentos, e tentei respeitar a curta duração média das peças cariocas (60 a 70 minutos). O texto tem sua inspiração no Werther, de Goethe.

Divirta-se.

Download do texto da peça Amadores, em PDF.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Uma bela canção para se ouvir na Pérsia



Ouvi-a muito nesse dia 23. Um clássico. Estou viciado nessa gravação do catalão Ferran Savall, cujo disco Mireu el nostre mar é o melhor álbum de MPB de todos os tempos.

Noumi noumi yaldati.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

É imbecil ser contra armas de brinquedo

Leitores de Rousseau acreditam que o homem nasce bom, até meio rosado, e a sociedade corrupta e má é que o estraga. Nunca entendi isso. A sociedade é feita de outros seres humanos que também nasceram bons. Não sei que sociedade é essa de que essa gente está falando. Deve ser alguém muito mau.

Eu sou leitor do Gênesis. Acho que temos o pecado original e somos a estirpe de Caim. Nascemos maus. Francamente, acho que as crianças atingem níveis de amoralidade e egoísmo que, num ser humano adulto, seriam considerados patológicos. Somos maus. Temos de aprender a ser bons. Eu sei, eu sei, você acha que não, que está cheio de sentimentos sublimes, que a sua nobre alma se escandaliza com a plebe ignara que o maltrata diariamente. É por isso que você nunca fala mal de ninguém, nunca despreza ninguém. Quando você faz isso, é justo. Quando os outros fazem, é maldade. Claro.

Mas bem. Retorno. Armas de brinquedo são importantes, porque somos maus e violentos. Não é possível abolir a maldade, nem o instinto violento. Violentos, sempre os terei. É possível administrar a maldade e a violência. Ensinando às crianças o que são armas. O que as armas podem fazer. O que não se pode fazer com elas. Em que circunstâncias se pode usá-las, em quais não se pode. Só se pode ensinar crianças a respeito de armas usando armas de mentirinha. Só se pode deixar de ensinar crianças a respeito de armas se você acreditar que elas jamais verão armas na vida. Quanto a mim, moro no quarteirão da delegacia, e todo dia vejo armas.

Não é possível ensinar um código de honra sem lidar com a violência. Escolher não lidar com a natureza violenta é a maneira mais imbecil de lidar com ela. É a maneira mais segura de garantir a propagação de uma violência irracional, irrestrita, porque incontida pela idéia de honra.

Honra não é dar as mãos e cantar uma música da Xuxa. Honra é saber que o mal virá, que ele está em você, e que é preciso contê-lo, muitas vezes com sacrifícios.

sábado, 21 de novembro de 2009

O fetiche da educação

Um dos truísmos mais repetidos por pessoas bem-intencionadas é que "o problema do Brasil é a educação", ou que "o país não progredirá enquanto não melhorarmos a educação". Isso, porém, é falso.

O que é necessário para o famoso progresso nacional é a melhora das instituições, a segurança jurídica, a tranquilidade em relação à propriedade, a facilidade para empreender.

Se você tem muita educação, mas não tem mercado em que as pessoas possam trabalhar, não tem oportunidades para essa gente toda, acaba ficando com 45 pessoas com PhD fazendo concurso para gari*. Há também o famoso brain drain, também conhecido como "fuga de cérebros". Afinal, você não estuda astrofísica para esperar pelo concurso para gari.

(Não venham dizer que é injusto a pessoa estudar em universidade pública e depois sair do país. A pessoa paga impostos, e nunca para de pagar, faça faculdade pública ou não. Na pior das hipóteses, estão todos quites.)

Os americanos têm uma expressão de que eu gosto muito, to throw money at the problem, "jogar dinheiro no problema". Não adianta "investir em educação". O governo formará uma geração de garis eruditíssimos, que, pendurados no caminhão da Comlurb, com suas roupas laranja, discutirão as diferenças na fixação dos textos da poesia grega antiga. Eu mesmo já me vejo indo perguntar a alguma simpática varredora de rua se ela considera correta a colocação da vírgula antes ou depois de "Echô" no último verso do Epigrama XXVIII de Calímaco.

Mas não é preciso especular. Já conhecemos engenheiros que dirigem táxis. E quem foi a Cuba e à Rússia já falou de mulheres que sabem física nuclear e trabalham no ramo da satisfação humana. Investimentos em educação, altos impostos, legislação ininteligível, 152 dias para abrir uma empresa: seguindo esse caminho, um dia nossas filhas poderão juntar-se a suas irmãs proletárias daqueles países em que o governo decide tudo e protege as pessoas do maldoso mercado.

*Tanja Krämer lembrou dessa notícia.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Aline 0 x 1 Transformers

Maria Flor, defendo. Talvez ela segure a série da Globo. Meu problema com Aline é outro, e muito simples. Até as pipocas frias desprezam os idiotas que rejeitam filmes como Transformers e Indiana Jones "porque têm muita mentira". Mas as pipocas frias e pisadas do corredor de saída também desprezam os idiotas que não percebem que um monte de filmes realistas se baseiam em uma mentira existencial fundamental (como Juno, que é duplo angélico de gente que conhece bandas que surgiram há menos de três anos; mas, desse filme, esse Sex and the City púbere e mal vestido, falarei um dia).

Ok. Eu falava de TV, não de cinema. É que a série Aline tem pelo menos uma mentira existencial profunda, gritante, espalhafatosa. Meninas como Aline, essa Angelina Jolie da Liberdade, jamais se sentiriam atraídas por aqueles patetas que são seus "namorados". Não sentiriam atração nem por um, nem por dois; e talvez nem mesmo meninas mais parecidas com um Cheddar McMelt chegassem a sentir atração por aqueles dois emasculados McChickens. Não acontece. Nunca aconteceu. Jamais. Eu garanto. Aqueles dois são causa de lesbianismo; não se pode culpar a mulher por querer virilidade, nem por encontrar mais virilidade numa amiga do que em dois boçais subjugados.

Isso tudo é patente e óbvio. A grande pergunta que se estende sobre nossas cabeças é outra. Se a TV aberta brasileira é sempre duplo angélico da pobreza cognitiva (a TV aberta de outros países é duplo angélico da riqueza cognitiva), quem são essas pessoas que gostam de Aline? Mesmo para uma mulher se valorizar por dobrar um homem, ele não pode ser um pateta. Vejam novamente a Angelina Jolie e o Brad Pitt. Foi o Brad Pitt! Não foi um sujeito cujo apogeu de virilidade foi usar uma camisa rosa, ou dividir uma namorada. Com outro cara. Sob o mesmo teto. Achando bom.

Não se trata, senhores, de moralismo.

Até Transformers é mais honesto com o espectador.

sábado, 7 de novembro de 2009

Mentira romântica e verdade romanesca



Dia 11, em SP, na É, palestra com James Alison (presidente da Fundação Imitatio, voltada para a obra de René Girard) para lançar Mentira romântica e verdade romanesca. É pena que eu não possa ir do Rio a SP para assistir.

Abaixo, a orelha que escrevi para a tradução brasileira deste primeiro livro de Girard.

***

Aquilo que habitualmente é catalogado como “crítica literária” pode ser dividido em dois grandes grupos: de um lado, as tentativas de teorias efetivamente científicas da literatura, que discutem e classificam as obras segundo sua natureza; de outro, textos talvez mais impressionistas, em que muitas vezes as obras são pretextos para se falar de assuntos relacionados. O primeiro grupo costuma ficar restrito à academia; o segundo circula entre o grande público, e pode ter um grande valor para a formação, não apenas intelectual, mas também do caráter.

A obra de René Girard estabelece uma curiosa interseção. É científica na medida em que oferece um critério objetivo para a divisão das obras literárias em românticas ou romanescas. O modelo do desejo mimético — neste primeiro livro mais frequentemente chamado desejo triangular — também pode ser aplicado às relações de praticamente quaisquer personagens, à relação entre autor e leitor, entre autor e narrador, entre autor e autores, entre o autor e o desenvolvimento de sua obra etc. Mas a obra de Girard, fazendo teoria da literatura, mostra que a literatura é uma tentativa de teorizar o desejo. Se a ciência explica a literatura, a literatura explica a vida. Aquelas impressões e intuições esparsas que norteavam a formação do caráter como faróis numa noite escura são como que unificadas numa única grande luz.

Exagero? Apenas se considerarmos que a modernidade, como costuma dizer o próprio Girard, costuma prometer a abolição de todas as certezas, e até simplesmente declará-la, sem jamais questionar a certeza inquestionável sobre a qual ela mesma se funda: a sacralidade do desejo. Basta que um querer seja apresentado como sincero e espontâneo para que mereça tratamento deferencial, como se o desejo verdadeiro fosse um deus que criasse a si mesmo e não precisasse dar justificativas. As identidades têm uma forte relação com o desejo: os sofisticados se diferenciam dos toscos pelos objetos que desejam, assim como os intelectuais dos não-intelectuais etc. É por isso que o pequeno grupo dos adoradores de um autor, cineasta ou músico “secreto” não gosta que seu segredo seja descoberto pelo grande público: subitamente, o prestígio da exclusividade e da diferenciação se desfaz como o ouro que, em certas fábulas, vira pó.

Girard explicita e sistematiza uma lição que a propaganda já aprendeu: muitas vezes não desejamos um objeto por uma qualidade que lhe seja intrínseca, mas para nos tornarmos iguais a um modelo. No entanto, se esse modelo for distante, como por exemplo Cristo para um cristão (imitador de Cristo), Amadis de Gaula para D. Quixote, Sófocles para um autor de teatro contemporâneo, a relação de mímese é boa e produtiva. A imitação do modelo distante não é exclusiva; se eu imito Cristo ou Sófocles, você pode imitá-lo do mesmo jeito, sem que eu tenha prejuízo. Porém, se seu modelo for seu amigo, seu vizinho, seu colega, então a relação tem grandes chances de tornar-se uma rivalidade, uma vez que o objeto que confere prestígio ao modelo e lhe dá sua identidade não pode ser dividido. Não posso dividir com meu amigo sua namorada, sua casa ou seu emprego. Portanto, ao questionar o desejo e a suposta inocência do “eu desejante”, Girard questiona a própria modernidade e, ao invés de criticar seus ícones, como Freud e Marx, desde um ponto de vista meramente conservador, mostra que, apesar de seus amplos poderes de observação, falta-lhes uma abordagem suficientemente radical.

A partir dos fundamentos lançados em Mentira romântica e verdade romanesca e A violência e o sagrado (Paz e Terra), Girard estabeleceu novas interpretações do teatro grego, de Shakespeare e de diversos outros autores que simplesmente não podem ser ignoradas. O que o leitor tem em mãos é uma chave interpretativa da literatura, de sua relação com a literatura, de sua relação consigo mesmo, e de si próprio. Havendo vontade de conhecer-se a si mesmo, René Girard pode ser para o leitor aquilo que Virgílio foi para Dante Alighieri.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Lula, bode expiatório da pseudointelectualidade

Há mais uma polêmica no jornal, dessa vez vinda do universo da música popular, a respeito da falta de leitura de Lula. Ou a respeito de ele não exsudar eflúvios intelectuais. Houve um tempo em que eu mesmo me juntaria automaticamente aos linchadores e, do alto da minha coleção quase completa de Arden Shakespeare, começaria a falar contra a desintelectualidade do presidente. Não é nem que hoje eu não ache que, bem, ao menos ele poderia ter evitado certas declarações. Mas não só cansei da brincadeira, como acho que ela revela mais sobre os detratores do que sobre o presidente. Afinal, é verdade sim que Lula, pelo que diz, não escolhe passar seu tempo livre na companhia de Homero. A pergunta é: por que é que você se importa tanto com isso? Repetidas vezes, basta examinarmos não o conteúdo do que estamos dizendo, mas a nossa motivação para dizer algo, para chegar a alguma verdade desagradável sobre nós mesmos. Isso, na minha boca, parece uma platitude, fácil de descartar como qualquer platitude. Vamos, porém, colocá-la na boca de São Paulo:

Por isso, quem quer que sejas, ó, homem que julgas, tu és inescusável, porque, naquilo mesmo em que julgas a outro, a ti mesmo te condenas, visto que fazes as mesmas coisas que julgas.
(Romanos, 2, 1)


Uma afirmação dramática. E se você fosse culpado das mesmas coisas que mais condena nos outros? E se o fundamento da sua identidade fosse aquilo que você mais proclama odiar? Mas bem. Sigamos com o Lula.

A primeira coisa que chama a atenção no discurso contra a desintelectualidade de Lula é o ressentimento com o fato de alguém que leu tão pouco ser presidente. Olhando o nível das campanhas, a quantidade de eleitores, e a existência de meios de comunicação de massas, difícil é entender como alguém se surpreende com a eleição de um candidato que tem apelo... para as massas. Será que estou sugerindo que se castre o voto popular? Não, estou apenas observando uma conexão plausível entre dois fatos.

A segunda coisa que chama a atenção nisso é que não me lembro de ninguém que realmente passe o dia no silêncio dos livros, e cuja vida pública seja antes marcada pela publicação de austeros trabalhos científicos, ou de esmeradas publicações literárias, e que venha falar contra o presidente. Não há interesse, porque há interesse demais por outras coisas. Não: quem vai para o jornal fazer polêmica contra a falta de leitura do presidente é quem está ressentido por achar que, por ler cinco livros por ano (três por obrigação profissional), merece o prestígio de Platão e Aristóteles. E muito dinheiro, claro. Ande por uma universidade e ouça os bolsistas e pleiteadores de bolsas reclamando que o país é subdesenvolvido porque... o governo não apóia as pesquisas deles. Ou “pesquisas”. A essas pessoas, só posso perguntar quando foi que elas enxergaram alguma conexão entre o amor ao saber que tanto proclamam e o sucesso financeiro ou mesmo político (os quais, é claro, podem ser a mesma coisa). Para ganhar dinheiro, é preciso atender aos outros. Mas a busca pelo saber é eminentemente pessoal. Vocês querem, então, fazer só o que querem e ainda ser prestigiados por isso? Ora, cresçam.

A terceira coisa que chama a atenção é que a própria atenção dada à origem das denúncias contra o presidente denuncia a fajutice dessa intelectualidade. Um cantor popular. No Brasil, a música semi-popular virou uma espécie de artefato de “intelectualidade”. Eu, por exemplo, gosto bastante de Gilberto Gil, mas sei que a diferença entre Gilberto Gil e Cristina Aguilera é bem menor do que a diferença entre Gilberto Gil e Schubert, meu compositor do coração. Não consigo imaginar, nos EUA, a capa do Wall Street Journal trazendo a notícia de que Cristina Aguilera reclamou que Bush não gosta de ler. Mas aqui, O Globo põe na sua capa que Caetano Veloso reclamou de Lula. Por quê? Não foi mero oposicionismo. Foi porque os jornalistas do Globo acham que são intelectuais. Porque gostam de Caetano Veloso. Isso parece um filme americano de high school. Os nerds cheios de espinha se ressentem contra o quarterback que tem a atenção da escola.

Isso vem na mesma semana em que Roberto da Matta repete a falsa acusação contra Lula, nas mesmas páginas do Globo; não é novidade, e já discuti essa afirmação quando veio da primeira vez.

Agora, vejam só. Sou “de direita”. Sou liberal. Creio que o papel do governo é estabelecer as regras do jogo, não determinar o placar. Não sou petista, não creio em intervencionismo, li boquiaberto as declarações recentes de Lula sobre a necessidade de “a Vale ter de estar afinada com os objetivos da União” e decerto não votarei em Dilma Roussef, assim como não faço parte de partido nenhum. Não faço campanha política, não sou obrigado pelas circunstâncias a, digamos, adotar as técnicas do meu adversário. Existem maneiras e maneiras de opor-se ao presidente. Acusá-lo do que ele não disse e jogar ressentimentos infantis contra ele é vergonha demais. É a mesma coisa que assumir o pior da esquerda, só que com a polaridade invertida.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Agora, cinco domingos com poesia

Na última Dicta, publicada em junho, escrevi sobre cinco poemas de humor:

Aos sócios da Nova Arcádia, de Bocage
Um jantar de barões: invocação, Anônimo
Sogramigna, de Juó Bananère
A queda de Roma, de W. H. Auden
Motivo, de Marco Catalão

E adianto que, para a próxima, fiz o seguinte: peguei quatro trechos de quatro Bíblias diferentes e um da Oração das Horas. A Bíblia, senhores, inventou o verso livre, e até Walt Whitman já sabia disso. Eu falo "até" porque, Deus do céu, detesto Whitman.

Peço e imploro que publiquem logo na internet os poemas do Lawrence Flores, porque eu o acho 1. o maior poeta vivo da língua; 2. o maior tradutor vivo da língua (vejam sua Antígona, tantas vezes citada aqui, e seu vindouro Hamlet, em que é possível ouvir a melodia do texto original, e todos aqueles trocadilhos insanos são preservados); e 3. francamente, um gênio. Estou medindo bastante bem as minhas palavras e acho isso tudo tão óbvio que admito que já estou até motivado pela vaidade, preocupado com minha imagem futura, querendo que meus 359 netos ouçam na escola que uma das primeiras pessoas a dizer isso de Lawrence Flores foi este que vos escreve.

O livro de poemas do Lawrence virá. Seu Hamlet virá. E um poema do Lawrence já foi discutido aqui, no domingo com poesia.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Feminismo, a vaidade suprema

Sempre que eu leio textos feministas ouço a mesma mensagem: "Não quero me esforçar para ser bonita, nem agradável, mas quero ser desejável mesmo assim."