quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Vitimados pelos presentes

A gratidão é a mãe de todas as virtudes.
— Cícero


Tudo começou quando eu li uma matéria do Times a respeito do "horror" de dar e receber presentes. A matéria fala de namoros e famílias arruinadas por presentes. Presentes que foram dados com boa intenção. Fiquei chocado, mas pensei: esses gringos são todos hipersensíveis mesmo. Admito que, de modo geral, uma das coisas que aprecio no Brasil é que não somos tão sensiveizinhos assim.

Logo depois veio esse post no blog da Camila Lopez, que me lembrou de que a parte dos brasileiros que, como costumo dizer, só usa o português para falar com o caixa do supermercado, isto é, cujas referências culturais vêm todas do mundo anglo, também pode partilhar da mesma sensibilidade.

Claro que há uma ironia em eu começar citando o Times de Londres e depois "culpar" as referências em inglês. Mas vou ampliar a ironia porque, antes que eu pudesse fazer um comentário, acabei encontrando num insuspeito blog de moda, também em inglês, parte da resposta que eu queria dar:

...hordas de princesinhas estão sendo criadas achando que têm o direito de receber presentes de Natal perfeitos, exatamente como querem — essa é a impressão que eu tenho.


De um lado, é óbvio que alguns presentes denunciam que a pessoa que deu apenas cumpriu uma obrigação social. Mas ela poderia não ter cumprido, não é? Por que você acha que é tão especial que merece que todo mundo conheça você bem o suficiente para se antecipar a cada um dos seus desejos? No consultório do Dr. Pedro, eu recomendaria que todo mundo se olhasse no espelho de manhã e dissesse: "Eu não sou especial. Eu não sou especial. Eu não sou especial. Eu serei grato por tudo que tenho. Ninguém me deve coisa nenhuma."

Esse é um belo exemplo do "sentimento paranóico" de que venho falando. Uso as aspas não por amar as aspas, mas para tirar a impressão de uma paranóia tensa e nervosa, embora a estrutura seja a mesma: a impressão de um eu bom contra um mundo mau, de um eu justificado, nuançado, particular, irredutível, genuinamente individual, I did it my way, contra um mundo "padronizado", em que as pessoas agem segundo padrões previsíveis, e são desindividualizadas, uma vasta multidão pronta a linchar a inocente e pura consciência do indivíduo que se recusa a se submeter.

A menina cuja frase traduzi falava só em princesinhas. Façam um teste: se um texto contra ganhar presentes fosse escrito por um homem, o que ele pareceria? Ah, mas a Camila Lopez citou um personagem homem. E o que é que ele parece?

A idéia de trocar presentes por dinheiro, proposta por ele, parece boa à primeira vista. Dar dinheiro é dar a outra pessoa mais controle sobre a própria vida, mas também é fechar-se à oportunidade de ser afetado pelos outros e ao inesperado. Há nisso uma apologia oculta da auto-suficiência. Tenho um sério problema com isso porque alguns presentes que não pedi me afetaram muito: desde roupas que eu não teria tido a idéia de comprar até músicas e livros que mudaram a minha vida. Por exemplo, este blog só existe hoje por causa de um desses presentes. Em 1996 ou 1997, Leopoldo Serran me deu O jardim das aflições, de Olavo de Carvalho, e eu só comecei a ler o livro porque achei que o Leopoldo encheria a minha paciência se eu não lesse. Já conhecia Bruno Tolentino então, mas foi só através de Olavo de Carvalho que o conheci pessoalmente e que conheci diversos outros autores, como o übercitado do momento, René Girard. Diariamente agradeço ao falecido Leopoldo Serran por ter-me dado um livro que não quis e que comecei a ler a contragosto, para cumprir uma obrigação de gentileza.

Tenho a impressão de que no passado éramos mais estimulados a estar abertos para os outros, ou ao menos que a capacidade de aproveitar o que se recebia era mais prestigiada socialmente. Talvez isso tenha mudado, talvez sejam só esses textos. Mas há em coisas que não pedimos a possibilidade de uma educação, e todo presente merece alguma boa vontade. Parece que há 10 anos isso que agora digo seria um clichê. Hoje soa meio revolucionário.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sobre a violência unitiva, ou A era das vítimas

Tenho mesmo a impressão de que devo esclarecer algumas coisas a respeito do que falei sobre o efeito apocalíptico do Natal.

Hoje quero chamar a atenção para o poder unitivo da violência e para a violência contra o outro que está na base da identidade coletiva e, quase sempre, na base da identidade individual. Achei por acaso dois trechos que denunciam isso na revista First Things, uma revista católica que é também uma de minhas preferidas. Os dois trechos são exemplos perfeitamente aceitáveis socialmente e ninguém, ninguém vai fazer cara feia se você os repetir nos ambientes mais diversos. Foi exatamente por isso que os escolhi.

Vou traduzir os dois. O primeiro exemplo é o primeiro parágrafo do texto How Pedophilia Lost Its Cool, de Mary Eberstadt:


É simples entender a importância do monstruoso crime da pedofilia: num mundo cada vez mais secularizado, ele é um dos poucos tabus a respeito dos quais pessoas religiosas e não-religiosas conseguem concordar. Ele permanece um sinal do que é certo e do que é errado num mundo em que outros sinais foram suprimidos.


Vamos colocar o aviso de praxe para coibir as ânsias linchadoras dos anônimos iletrados: não estou defendendo sob nenhum aspecto a pedofilia, e acho que puni-la severamente é algo desejável, servindo para unir as pessoas ou não.

Prossigo, pois. A estrutura do discurso é bem clara: nós, pessoas religiosas e não-religiosas, estamos unidas contra os pedófilos. Podemos praticar a violência contra eles. Essa violência é legítima, porque é unânime. Aquilo que mantém nossa identidade intacta é nossa concórdia a respeito de quem deve e quem não deve ser vítima de violência.

Vejam bem que não estou discutindo a moral, o direito natural, nada disso. Estou apenas observando que a autora do texto considera o tabu útil exatamente porque ainda une as pessoas. Na verdade, foi ela quem preferiu falar disso em vez de falar da pedofilia em si mesma.

O que é mais interessante, e também assustador, é que reconhecer a pedofilia como um tabu que une as pessoas dá a ela um caráter de artifício social gratuito que traz algum bem que nos acostumamos a querer. A ironia de Scruton, a capacidade de olhar a si mesmo na terceira pessoa, aqui começa a funcionar como auto-sabotagem. Isso é como dizer que o catolicismo é bom porque nos deu a Catedral de Notre-Dame, e não porque ele é verdadeiro. Não acreditamos em nada, mas reconhecemos os efeitos benéficos de acreditar. Não há verdades, só "ficções úteis" (estou roubando essa expressão de Paulo Henriques Britto).

Outro aspecto fundamental é o estabelecimento do binômio nós x eles. Nós, os bons; eles, os pedófilos. Isso sempre serve para evitar o questionamento de si próprio. Francamente, acredito que a vastíssima maioria de nós nunca sentiu mesmo nenhuma atração por nenhuma criança. Mas nunca olhamos com cobiça, nem por um segundo, uma adolescente? Ao combater o pedófilo que cometeu um ato de pedofilia, sentimo-nos dispensados de combater aqueles instantes de "pedofilia" em nós mesmos. Não precisamos contemplar o nosso próprio mal. Não precisamos tomar a nossa cruz. Claro que essa é a mesma estrutura presente em reclamar da corrupção dos políticos e desprezar a lei.

O segundo exemplo vem do penúltimo parágrafo do texto Be Afraid — Be Very Afraid, de David P. Goldman:


Na Segunda Guerra Mundial, os EUA representaram sua causa como uma cruzada contra as forças do mal.


Longíssimo de mim sugerir que o nazismo não possa ser chamado de "forças do mal". Só não lhe concedo o artigo definido "as" porque há muitas outras forças do mal.

Sem querer que isso pareça uma reportagem da Caras, recordo que em 1998 participei em Nova York de uma sessão de cinema promovida por Richard Brown com Oliver Stone. Ao fim, na conversa com o diretor mais chato do universo, Brown diz que na guerra da dos Bálcãs "não sabemos quem eram os mocinhos e quem eram os bandidos, enquanto na Segunda Guerra Mundial tudo era preto e branco". Stone disse: "Richard, as coisas não eram tão definidas na Segunda Guerra Mundial", o que causou furor na platéia. Claro que se pode lembrar do bombardeio de Dresden pelos aliados e dos campos de concentração para japoneses nos EUA, e, francamente, espero que seja a isso que Oliver Stone estivesse se referindo.

O que interessa é que a estrutura do pensamento é idêntica à do primeiro exemplo: esta violência nos uniu contra o Mal.

A frase seguinte do texto é (ao que tudo indica, involuntariamente), uma explicação de todo o processo:


Hoje enviamos soldados mulheres cobrindo a cabeça por baixo do capacete para demonstrar sensibilidade cultural aos afegãos.


"Será que ficamos molengas?" Parece que é isso que o texto quer perguntar. "Naquela época, não tínhamos problemas em ir estourar os miolos dos nazistas, e agora vamos respeitar um costume primitivo desse Talibã ridículo?"

Não ficamos exatamente molengas, mas ficamos hamletianos. Não conseguimos acreditar na violência. Conseguimos denunciar a violência em todos os seus aspectos, incluindo as sutis violências de um "Feliz Natal" dirigido a um público geral entre os quais se incluem não-cristãos que se sentem ofendidos. Todas as expressões do politicamente correto são denúncias de violência, em nível cada vez mais sutil. A mensagem é profundamente cristã: devemos nos abster da violência. "Se você é cristão, não me diga feliz Natal, porque isso é uma violência para mim". Não conte piadas de gays, negros etc. E eu não estou dizendo nada disso ironicamente. Quem define o que é violência é quem a sente.

Agora, como ninguém denuncia a violência em si mesmo, mas só nos outros, há uma hipersensibilidade a ela. Individualmente, todos nos sentimos vítimas, sentimos que temos o direito — dependendo do seu ressentimento, alardeado como "vontade de afirmar sua autonomia", até o dever — a uma justa revolta contra os outros. Coletivamente, há uma inversão. Quando se fala que o Ocidente está esclerosado, quer-se dizer que o Ocidente não crê mais em suas instituições, porque percebeu a sua origem violenta. A Revolução Americana, por exemplo, começou com uma guerra e se aprofundou com outra. E seus valores são protegidos com mais guerras. Ora, uma guerra é uma violência unânime. É dessa violência que se quer abdicar. Aos olhos das vítimas, "Feliz Natal" não é um ato de violência individual, é um símbolo de violência cultural prolongada.

Isso é o que René Girard chama de apocalipse. Não conseguimos mais crer no poder unitivo da violência. Não conseguimos acreditar que somos bons, puros e inocentes como antes acreditávamos. Tudo está sendo desmistificado. Nossos modelos não eram paladinos da bondade. Eram seres humanos falhos. Eles não nos inspiram mais. Assim, já olhamos nossos tabus com distanciamento, e questionamos nossos interditos. Mary Eberstadt tem toda razão: se existe horror à pedofilia, ao menos isso une as pessoas, porque ela está intuindo que, quando todos praticam uma violência unânime, não praticam violências uns contra os outros.

Não é bom que tenhamos denunciado a violência? É, claro. Podemos nos abster de certas coisas. Só que não deixamos de ser violentos, competitivos. Queremos linchar o pedófilo e nunca admitir que o mal está em nós. Quando não conseguirmos linchar o pedófilo, também não teremos enfrentado o mal em nós mesmos, não teremos ficado bons. Perderemos o poder coesivo da violência, o poder de Satanás para expulsar a Satanás, mas não teremos estabelecido o reino de Deus dentro de nós, e por isso não poderemos estabelecê-lo fora. Haverá um grande consenso universal a respeito da natureza da violência, mas não teremos deixado de ser violentos. Por isso ficamos com a violência aleatória: balas perdidas, crime, terrorismo. Porque queremos denunciar a violência nos outros, e nunca assumi-la. Queremos que os outros deixem de ser violentos, não nós mesmos. "O mundo é mau por causa da SUA violência, não da minha." A denúncia da violência assume graus de imensa sofisticação e nunca houve tantos argumentos, e tão bons (mesmo: insisto que isso não é ironia), para que alguém se sinta uma vítima.

A "soldada" com véu é um dos grandes paradoxos do Apocalipse. "Vim te matar, se necessário, mas não quero ferir a sua sensibilidade." Ela vem praticar a violência sem acreditar nela. O exército americano demonstra, assim, não crer na sua superioridade moral.

O texto de onde esse exemplo saiu fala de filmes de terror. O título é muito apropriado. Tenham medo. Tenham muito medo.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O efeito apocalíptico do Natal

Não é possível não recomendar enfaticamente a leitura da entrevista que o Times de Londres fez com um dos três assassinos de Ceausescu (pronuncia-se "Tcháuchescu"), ditador romeno de 1974 a 1989. Ceausescu foi morto a tiros ao lado de sua esposa há exatamente 20 anos.

Todos os fundamentos da cultura propostos por René Girard, bem como sua denúncia pelo Cristianismo, estão no texto, esquematicamente. Primeiro, a rivalidade espalhada pelo país. Segundo, o grupo de pessoas que se une para praticar uma violência em nome de todas as outras pessoas — a violência unânime que é o fundamento mesmo das identidades, e que acaba com as rivalidades, porque é praticada por todos contra um, seja esse "um" apenas um indivíduo, um pequeno grupo, ou um grande grupo abstrato, como o exército inimigo. O resultado tem de ser um distanciamento: eles, vencidos e malvados, estão lá, e nós, vencedores e bonzinhos, estamos aqui.

O julgamento farsesco de Ceausescu corresponde ao mito. Todos os males da Romênia são atribuídos a ele. A própria esposa dele se espanta com o fato de que chamam a morte de 34 pessoas de "genocídio". Pode ser um massacre, e ninguém está defendendo o ato, mas que a linguagem está sendo abusada, está. Agora, o julgamento farsesco já é um mito extremamente moderno. Os responsáveis sabem que não podem ser considerados linchadores, ou sua violência seria deslegitimada, isto é, não seria unânime. Por isso um julgamento, que é a forma moderna de lavar as mãos da violência a ser aplicada. Agora, se o julgamento fosse sério, provavelmente Ceausescu seria culpado de muitas coisas, mas não de todo o mal do universo. Mesmo nos julgamentos de Nuremberg, até onde sei, ninguém foi levado às pressas para o pelotão de fuzilamento.

O que é mais especificamente moderno é o seguinte: há alguns séculos, teríamos acreditado nessa violência, e entendido que, após nos livrarmos do rei malvado, ou de termos enforcado o último burocrata com as tripas do último comissário do povo, poderíamos viver em paz e seguir nossas vidas de lindeza e amor. Na verdade, alguns de nós ainda acreditamos; tenho certeza de que entre os leitores há aqueles meio escandalizados porque até agora eu não falei que o ditador comunista era o Darth Vader e merecia até uma torturazinha só para ver o que é bom, como se os torturados da Romênia não merecessem a sua vingança.

Não, hoje nós percebemos que a violência é apenas a violência. O homem que matou Ceausescu poderia, em tempos antigos, ser considerado um herói. Hoje ele mesmo vem a público dizer: "Ceausescu pode ter sido mau, mas nós agimos como uma turba ensandecida e assassina". Essa violência não pode mais fundar a cultura.

É inevitável, também, que a desmistificação continue. Mais e mais estudos mostrarão que o que houve no dia 25 de dezembro em Bucareste foi uma carnificina. Mais e mais pessoas, devidamente ponderadas, recordarão que Ceausescu também não era um anjinho e isso impedirá que sua figura volte, como se ele fosse um salvador. O assassino de Ceausescu, que hoje diz seguir a Bíblia, não se alegra na noite de Natal, porque nessa noite ele se lembra de que cometeu um assassinato. É Cristo quem denuncia sua violência: assim como a turba se uniu para pedir o assassinato de um homem indefeso, também ele agiu em nome da turba.

Essa é a modernidade. Sabemos que o comunismo não foi varrido da Romênia pelas forças do Bem. Nem mesmo um dos homens mais importantes na abolição do comunismo acredita nisso. O assassino sabe que é assassino. Em Júlio César, Bruto diz a Cássio: "sejamos sacrificadores, não açougueiros", "dirão que fomos expurgadores, não assassinos". Aqueles que mataram Ceausescu gostariam que acreditássemos nisso, mas não conseguimos, nem conseguiremos, e nem mesmo eles conseguem continuar acreditando.

Esse é o efeito apocalíptico do Natal. Após Cristo, não podemos mais inventar mitos, nem acreditar na violência.

Temo que o que disse acima soe um pouco denso demais. Para quem quiser se aprofundar, alguns textos já citados aqui:

Are the Gospels Mythical?, de René Girard.

On War and Apocalypse, de René Girard.

Two Songs from a Play, de W. B. Yeats.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Mensagem de Natal 2009: meditação sobre a boa vontade

Desde que eu era criança, uma coisa me chamava a atenção na narrativa do nascimento de Jesus: que os anjos dissessem, em Lucas, 2, 14, “glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Por que paz somente a uma parte dos homens, e não a todos? Por que os anjos dariam tanto valor assim à boa vontade?

Seria possível fazer uma excavação metafísica ou esotérica da linguagem, ou uma especulação filológica, comparando os diversos usos da expressão. Porém, ainda que haja debate sobre essa tradução desse versículo (do lado dessa tradução que uso, temos a Vulgata, o Pe. Matos e João Ferreira de Almeida), vou ficar com ela, e vou considerá-la apenas em português. Que é a boa vontade de que os anjos falam?

A boa vontade me parece algo que está um pouco abaixo da caridade e que, no entanto, é o começo desta. Se os homens tivessem a caridade, seriam santos; ter boa vontade, tentar manter a boa vontade, é como que estar à procura da caridade, o que, considerando a provisoriedade da vida humana, o fato de que vivemos no tempo cronológico, é uma posição razoável.

Como reconhecer a boa vontade? Se ela for mesmo uma espécie de primeiro grau da caridade, podemos dizer que ela se caracteriza por uma abstenção do linchamento em todas as suas formas, isto é, por um desejo de não sujar as próprias mãos de sangue. O linchamento pode ser físico, como no caso da mulher adúltera. Jesus perguntou à multidão quem poderia atirar a primeira pedra, e todos desistiram. Se tivessem boa vontade, não estariam prontos a matar uma pessoa inocente e indefesa. Não preciso discursar contra a lapidação, mas não custa observar que, por sua vez, o simples falar mal de um ausente equivale a essa violência coletiva.

Gostamos da violência porque precisamos de auto-afirmação, e, em nossa sociedade incruenta, o linchamento moral é mais comum. Quando me junto com meu amigo para falar mal dos esquerdistas (ausentes da conversa, e por isso tão indefesos quanto a mulher adúltera) que poluem o Brasil, estou afirmando minha identidade de puro liberal. Posso acusá-lo e estar certo. Isso não muda a natureza da minha motivação. O diabo também acusa com a verdade. Também posso ficar reclamando desse mundo mau, sentindo-me uma alma pura e sublime, enquanto os outros são maus, capitalistas, socialistas, gananciosos, luxuriantes, fracos, feios, ridículos, de mau gosto, e querer me alimentar do grande orgulho de me achar melhor do que os meus inimigos. Tudo o que penso deles talvez seja verdade. Mas se eu acusá-los, estarei fazendo papel de diabo, enquanto me acho o anjo vingador, e não poderei resistir quando alguém me dirigir uma acusação semelhante.

Outra maneira de demonstrar a falta de boa vontade está na irreverência. Não acho que esta deva ser confundida com a ironia. Como definiu Roger Scruton, a ironia é um enxergar-se a si mesmo na terceira pessoa e saber rir da própria situação, o que pode (não necessariamente vai; mas isso é outro assunto) ser um bom remédio contra os desejos de super-humanidade e auto-afirmação competitiva. A irreverência de que falo é justamente um pressupor-se superior a tudo, um dar-se ao luxo de reduzir qualquer coisa à sua caricatura projetada. O fundamento dela é a mesma paranóia de sempre: vejam como eles são maus e eu sou bom.

A boa vontade, então, é um misto de verdadeira humildade com o desejo de ver o bem e pressupor o bem. Se os anjos desejam paz aos homens de boa vontade, e não a todos os homens, bem quando Cristo nasceu, então de certo modo Cristo nasceu para estes homens e não para todos. O que, é claro, não significa que não se possa passar a ser um homem de boa vontade; basta querer abdicar da auto-afirmação competitiva.

Cristo nasceu, então, para aqueles que desejam depor as armas e se aproximar da manjedoura com boa vontade. Depor as armas inclui a dolorosa parte de abdicar do próprio desejo de afirmar-se. Agora chega a parte de falar em como a recompensa por isso é grande. Mas é óbvio que é. Mesmo que você seja ateu, e queira reduzir tudo a um componente antropológico, pode perceber até no mercado as vantagens de se reduzir a competitividade violenta, quando um povo aceita especializar-se num trabalho e depender de outro. E, se você não é, sabe do que estou falando. Podemos retirar da alma o escárnio e trocá-la por uma ironia curativa. Em vez de produzir a catarse — a expulsão, o banimento, o linchamento físico ou moral — dos inimigos para seguir afirmando nossa pequenez, como se ela fosse maior que a pequenez alheia, podemos produzir a catarse no sentido da purificação de nós mesmos, sabendo que o olhar com que nos olhamos, e com que os outros a quem chamamos de irmãos nos olham, não é de acusação. Podemos depor as armas, porque não é mais preciso ter medo, e isso se deve apenas à boa vontade. Teremos paz se tivermos boa vontade, e teremos muito mais, se também formos a Belém.

Feliz Natal a todos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Limites da fotografia de moda

Subitamente percebi que a freqüência de ambientes feios, sujos e destruídos em fotos de moda pode ser facilmente vista como mais uma projeção do que chamo de “complexo de Jesus Cristo” e como maneira de enfatizar o duplo angélico, isto é, tanto a idéia de que o sujeito individual é um puro e inocente cercado de sujeira por todos os lados, quando a idéia de que ele afeta sem ser afetado. Afinal, é a modelo linda no ambiente sujo que confere prestígio a ele, que só serve mesmo para fazer contraste. A modelo afeta o ambiente, sem ser afetado por ele. As diferenças são realçadas e o sujeito nunca questiona a si mesmo, porque está ocupado demais em questionar o mundo.

Seria exagerado, porém, sugerir que a fotografia de moda tenha alguma culpa especial ou maior do que as demais artes em, sem qualquer esquerdismo, que vocês me conhecem, vender mentiras para o famoso grande público. Até porque quase sempre a fotografia de moda está a serviço do propósito de vender roupas, e é muito melhor que as pessoas sejam inspiradas pela beleza na hora de escolher as próprias roupas do que o contrário. É quase que a finalidade própria da fotografia de moda oferecer duplos angélicos no sentido de “a melhor versão daquilo que se pode ser”. Estou apenas dizendo que a freqüência do uso de fundos feios para realçar modelos bonitas parece um sintoma da difusão do sentimento paranóico; todos, afinal, acham que são a reserva moral desse mundo vil.

Curioso é que essa bondade nunca se apresente de forma ativa. Por exemplo, nunca vi uma campanha ou um editorial em que as pessoas lindas e bem-vestidas estivessem realizando atos caridosos, como dar esmolas, servir comida aos pobres, ou mesmo dando as próprias roupas. Seria bom que essa campanha ou editorial trouxesse a bondade verdadeira, não a mera adesão ao cânone politicamente correto do dia, isto é, que mostrasse o amor ao próximo, não aquela pose de quem acha que está “contribuindo para salvar o planeta” — ou seja, de quem se acha mais um Jesus Cristo, um salvador do mundo. Agora, talvez essas fotos de moda não existam porque elas não venderiam roupas, e eu já passei da idade de ficar lamentando esse tipo de coisa.

Por outro lado, não sei se seria possível que uma campanha ou um editorial de moda questionasse diretamente a individualidade e a autonomia do desejo. É muito engraçado que trabalhos fotográficos caríssimos só sejam possíveis porque existe uma indústria da moda, que é a mesma coisa que a massificação. Mesmo que as peças nos editoriais e campanhas de maior prestígio não sejam para todos, a idéia (na verdade por trás de toda propaganda) de vender individualidade e exclusividade para as massas é engraçadíssima, sobretudo porque funciona.

É claro que ter determinados propósitos não impede a fotografia de moda de ser realmente bonita, assim como é claro que existe uma arte verdadeira ali. A qual, como qualquer arte, tem suas limitações. Se a moda é o oferecimento de modelos, talvez só mudando de ramo se possa explorar melhor certas nuances do desejo e das interações humanas. Veja-se por exemplo algumas das obras da artista Marina Weffort, obras que vêm diretamente questionar a individualidade: nelas, as figuras mantêm sua individualidade, ainda que se toquem, se contaminem, questionando suas próprias autonomias. As imagens tendem a um centro que não está exatamente em nenhuma figura específica, mas está nelas todas. Esse centro, parece-me, é o desejo. Na fotografia de moda, ele já se cristaliza como modelos a ser admirados e imitados; nas artes plásticas, pode aparecer numa representação mais direta.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Não virá um mundo novo e lindo

Ora, eu digo-vos que de qualquer palavra ociosa que tiverem proferido os homens, darão conta dela no dia do juízo. Porque pelas tuas palavras serás justificado ou condenado. (Mateus, 12, 36-37)


Antes de começar, quero lembrar a analogia entre o tratamento dado por César Benjamin a Lula e a calúnia de Al Gore por Joseph Farah.

Venho mui tardiamente (porque quem escreve meus textos costuma ser o daimon, que não se manifestou, então hoje sou eu mesmo) reparar algo que falei em meu texto A caixa preta da esquerda. Aparentemente, ainda que com demora, a história do "menino do MEP" foi negada, e com isso boa parte da minha especulação ali desmorona. Registre-se, para os devidos fins.

Aliás, registre-se ainda o ombudsman da Folha de São Paulo acabou por concordar comigo (ou melhor: tivemos a mesma opinião): foi irresponsável da parte do jornal publicar algo de tamanha gravidade sem uma apuração.

O desejo, e até o dever — ético, não necessariamente legal — de ser responsável com o que se diz é, digamos assim, o fundamento da seriedade. Estou insistindo, há alguns textos, na imagem do linchador, porque acho que ela é que transmite o que pretendo. Se estamos dispostos a acreditar em qualquer coisa que se diga sobre quem não gostamos, não passamos de linchadores. Não há a menor seriedade em linchar. Não tenho pudores de admitir que prefiro um governo bem mais liberal e bem menos afeito a bravatas do que este; mas não é por isso que vou defender que se diga o que for preciso, mesmo que seja mentira.

No Long Telegram de George Kennan, um dos documentos iniciais da Guerra Fria, ele, diplomata americano em Moscou, disse que o comunismo poderia ser derrotado se o Ocidente não se tornasse igual a ele. Com essas palavras, Kennan antecipa a idéia girardiana de que o conflito torna os rivais semelhantes. Claro que, do ponto de vista dos rivais, a diferença é máxima, mas sua conduta vai ficando idêntica — só o que varia é o discurso.

Por exemplo, hoje direita e esquerda, nas suas versões não necessariamente mais radicais, adotam a mesma conduta: atacam as instituições existentes com a desculpa de que o outro lado as despreza muito mais. Na religião, o católico autonomeado tradicionalista (leia-se: eu mesmo há alguns anos) ataca o Papado existente em nome de um Papado inexistente. O direitista despreza o presidente dizendo que ele é que despreza a presidência. É rigorosamente a mesma coisa que o católico "progressista" faz, a mesma coisa que o esquerdista faz. O nome disso é hybris. Isso equivale a atribuir a si mesmo o poder de legitimar as instituições do mundo em torno. Isso é o contrário da humildade e é o começo do terrorismo.

Está claríssimo que os representantes das instituições brasileiras cometem abusos. No entanto, uma recusa sistemática de aceitar a legitimidade das instituições brasileiras e uma filosofia do tipo "tudo já foi para o brejo" não vão criar um mundo novo de sabedoria e amor. Vão levar à tosquice e à violência. O que não falta na internet são covardes anônimos e iletrados que acham que, por ter as opiniões "corretas", estão dispensados de analisar qualquer complexidade. A complexidade é uma ofensa! E depois, é claro, acusa-se o outro lado de pensar assim.

Pessoalmente, interessa-me mais a direita porque sou liberal. Mas o negócio está difícil. Já existem os equivalentes dos emirados sáderes da direita, e eles são vastos. Enquanto o desejo de dar crédito a qualquer boato e a falta de estudo rigoroso imperarem, a pata do elefante esquerdista esmagará a formiga da direita.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Os políticos não querem olhar para si mesmos

Como descrever esta declaração do senador Valdir Raupp, do PMDB de Roraima, ao jornal O Globo?

— O problema é que o videogame descambou para uma liberalização geral.


Devo dizer, antes de prosseguir, que eu mesmo não tenho nenhum interesse por videogames e, pior, tenho até uma incompatibilidade cognitiva com eles: sequer consigo entender o que está acontecendo na tela quando vejo um.

A matéria ainda lista alguns videogames de mau gosto e, bem, blasfemos e contrários ao catolicismo. Deus do céu, começamos sendo jogados aos leões no Coliseu, e agora vamos nos abalar com videogames e ter como paladino de defesa um senador desocupado e liderado por Sarney? How the mighty have fallen. Obrigado, senador. Não quero não.

Diz ainda a matéria:

Na justificativa do projeto, Raupp cita um estudo da Universidade de Michigan que afirma que os "videogames mudam as funções cerebrais e insensibilizam os jovens diante da vida".


Tem um estudo da Universidade da Pedrolândia que diz que o Senado é um órgão público e por isso seus atos são públicos. Mas, quando o líder do seu partido é o presidente do Senado, você fica insensível diante da vida e acho que atos secretos para nomear parentes são a coisa mais normal do mundo.

Eu não estou dizendo isso para bater pé, nem apenas para questionar a autoridade moral do senador. Estou afirmando que se trata de um caso de projeção. Eu acredito que a classe política quer proibir o povo de fazer o que quiser porque ela não agüenta olhar para si mesma. Analisar isso pela ótica do "paternalismo" já me parece ultrapassado; o paternalismo é um pretexto, e a verdadeira motivação é a culpa reprimida, que leva à paranóia, a ver um mal difuso, materializado aqui por um baseado, ali por um videogame. Tudo para evitar olhar para o mal premente e imediato: o desprezo que os representantes das instituições demonstram pelas mesmas instituições.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Ainda cânon x obra: a era da paranóia

Recordo que nas primeiras vezes em que fui a grandes museus tive a mesma sensação de quando me aproximei pela primeira vez de grandes obras literárias sancionadas pelo cânon: parecia que eu tinha contato direto com uma celebridade. De um lado, pensava: “então é isso.” De outro, “por que é bom?” E pensava que, assim como pessoas treinadas podem descrever os sabores de um vinho, ou dizer quais os problemas e virtudes de um automóvel, alguém tinha selecionado aquelas obras para o cânon. A questão que se coloca para quem quer sair da condição (nada pejorativa, por favor) de “público em geral” para a de apreciador mais qualificado é como apropriar algo daquela experiência que motivou os selecionadores do cânon — seja para concordar ou discordar deles.

Não posso deixar de observar que o modelo do desejo mimético está presente aqui. De um lado, o modelo é o juiz do cânon; por ele é que apropriaremos as obras de arte. Quando repetirmos sua experiência, o juiz do cânon pode se tornar nosso rival, e a deferência com que um dia o tratamos pode sumir, mas penso que é justo que seja transformada, em muitos casos, em gratidão. Afinal, o modelo foi imitado antes de ser derrubado. Não digo “todos os casos” porque acho que há maus modelos, ou modelos deliberadamente maus, que pretendem usurpar o lugar de prestígio no cânon para promover suas modinhas pessoais - esse parece o caso das vanguardas do século XX, que insistem em não perceber seu esgotamento. Agora, outro aspecto do desejo mimético aqui presente é o desejo de auto-afirmação, de diferenciação da maioria, de poder sentir que não se é um qualquer que entra num museu como mero turista que vai visitar celebridades “culturais”, ou que fica citando textos bobos como se fossem de Shakespeare, Machado de Assis ou Fernando Pessoa (ou, pior ainda, Arnaldo Jabor).

Assim, o desejo de ser um consumidor qualificado de arte comporta os aspectos positivo —mediação externa, com modelo distante: o selecionador do cânon — e negativo — mediação interna, de rivalidade com as pessoas próximas: os turistas dos museus — do desejo mimético. O aspecto negativo obviamente explica as rivalidades entre as tribos e as rotulações mútuas, sobretudo com aspectos pejorativos, como no caso onipresente de conservadorismo x progressismo. Ele não passa de um desejo de diferenciar-se, de afirmar-se único etc. Por outro lado, sempre que se fala em “crise da arte”, é o aspecto positivo que está em jogo, ou melhor, em xeque: se a modernidade é marcada por uma recusa de modelos, enão não há modelos a imitar, e portanto não há guias. Há o vazio, o tédio e, como René Girard apontou em Desordens alimentares e desejo mimético (o link vai direto para o PDF do texto, em inglês), a bulimia da arte contemporânea, que passa por ecletismo, mas que não passa de um vômito de influências adquiridas aleatoriamente e devolvidas sem um projeto unificador, isto é, sem um modelo.

Por sua vez, a ausência de modelos amplia a rivalidade. A ausência de modelos é também uma ausência de critérios comuns; um efeito disso é que os critérios fiquem cada vez mais sutis, tão sutis que chegam a ser ininteligíveis. O artista tem de ser isso ou aquilo; tem de ser as antenas da raça, psicografando o Zeitgeist, mas, sem modelos comuns, cada pessoa tem um Zeitgeist distinto. Há quem julgue que o mundo progride a passos lentos, quem viva em pleno apocalipse, quem não esteja nem aí. Até eu tenho a minha opinião sobre o Zeitgeist, ainda que lute para não participar desse espírito em particular: creio que todos os grupos são unidos pelo que chamo de “complexo de Jesus Cristo”, que posso descrever assim: “eu sou bom, inocente; se fiz o mal, tive minhas razões; os outros é que são maus; o mundo é mau; o mundo precisa ser salvo; salvo por mim, ou por pessoas parecidas comigo, que devem existir.” Isso fica bem claro na lamentação pela “morte das utopias”, isto é, meia dúzia de professores universitários simplesmente não conseguem enxergar que só eles acreditavam nas tais das utopias; em suma, tanto os professores quanto os demais grupos partilham uma visão “eu-cêntrica” do mundo que pressupõe a inocência do eu. É a era da paranóia. Ninguém se pergunta: “será que eu sou bom para meu semelhante?”, apenas “será que os outros estão sendo bons?”

Retomarei o assunto, como parte de uma meditação para o tempo do advento. Por ora, vale observar que não parece ser de outra coisa que Yeats fala em seu famoso poema “The Second Coming”:

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Cânon x obra

É verdade que agora, mais do que nunca, tendo escrito uma peça de teatro, que espera uma montagem, sou parte interessada, e o leitor pode aceitar tudo que eu disser com alguma reserva, mas lá vai.

A qualidade de uma obra e o fato de ela ser popular ou entrar para o cânon são duas coisas distintas, que seguem regras distintas, ainda que o resultado final possa coincidir. Acredito que, quanto maior a escala de tempo, menor a chance de o cânon deixar entrar alguma coisa ruim, ainda que nada impeça que algo bom não esteja devidamente canonizado – para mim, o exemplo paradigmático disso, na poesia brasileira, é o livro Ausência viva, de Octavio Mora, que nunca passou da primeira edição em 1956. Por outro lado, quanto mais regredimos, mais difícil é encontrar obras cuja consagração é indefensável. E, quanto mais próximos estivermos do presente, mais sentiremos a presença de modas passageiras. Custa-me crer que Paulo Leminski e Ana Cristina César venham a estar no capítulo seguinte a Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade nas obras de crítica literária brasileira do século XXIV.

Há muito me preocupo com a percepção da qualidade literária segundo critérios, digamos, naturais. Economia, unidade, clareza, por exemplo. Tudo isso aumenta a força da obra, ainda que precise ser qualificado. Economia diante de quê? Claro que Os Lusíadas não pode ser econômico no mesmo sentido que um epigrama. Unidade de quê? Onde estaria, por exemplo, a unidade em “The Love Song of Alfred J. Prufrock”? Não nos elementos “tradicionais”. Clareza para quem? Para ficarmos em Eliot, sua apreciação pode depender de uma certa erudição... Mas são critérios tangíveis, que podem ser aplicados pelos homens de boa vontade, por pessoas adultas o suficiente para distinguir aquilo de que gostam daquilo é digno de admiração. Eu mesmo admiro T. S. Eliot, mas acho que nunca vou amar sua poesia como amo a de W. B. Yeats.

Claro que boa parte da crítica literária deve se dedicar a explicar por que algo é bom. Mas, como já disse, isso não nos impede de gostar mais de algumas coisas do que de outras. Isso não impede uma obra de ter uma determinada repercussão. É aí que o cânon começa a se formar.

O cânon é basicamente a opinião dos outros, a opinião que confere prestígio o suficiente a um objeto para que você o deseje e, numa grande medida, o respeite. Se você tentar ler Crime e castigo e não conseguir, vai presumir que o problema está em você, não em Dostoiévski. E por quê? Como você mesmo não tem qualquer contato direto com Dostoiévski, você vai respeitá-lo apenas porque outras pessoas o respeitam. Não que isso não seja razoável, claro. Mas estou falando da motivação, não do que é razoável. É a mesma coisa que entrar numa exposição de um artista novo e sentir-se à vontade para achar tudo ruim, mas entrar no Louvre com temor e reverência. As obras do Louvre estão no Louvre, foram sancionadas pelo cânon, seu consumo é permitido e recomendável. Aliás, mesmo que você não perceba nada daquilo que viu no Louvre, só ter ido lá lhe confere o prestígio das pessoas cultas, uma espécie de capital social. O mesmo idêntico raciocínio vale para qualquer outra obra de arte. Um livro de poemas do Zé das Couves pode ser melhor do que Mensagem, de Fernando Pessoa, mas você não vai ler o livro de das Couves com o mesmo entusiasmo com que lê um de Pessoa.

Idealmente, um crítico de arte seria uma pessoa capaz de apreender a qualidade das obras e conferir prestígio àquilo que merece, isto é, viabilizar a existência social (e em muitos casos material) do artista. Assim, o crítico iria formando o cânon a partir de critérios mais esmerados do que “gostei” ou “não gostei”. Na verdade, todos nós acreditamos que os críticos fazem isso, assim como acreditamos que eles se equivocam quando não concordam conosco, e que isso acontece quase sempre etc.

Não vou dizer que deveríamos dar um jeito de ter uma máquina mais confiável de concessão de prestígio. Meu objetivo é simplesmente chamar a atenção do consumidor de arte para o fato de que seu consumo quase sempre vem não de uma apreciação própria e sua das obras, mas do simples prestígio que a obra recebe de determinadas instâncias.