segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sobre a violência unitiva, ou A era das vítimas

Tenho mesmo a impressão de que devo esclarecer algumas coisas a respeito do que falei sobre o efeito apocalíptico do Natal.

Hoje quero chamar a atenção para o poder unitivo da violência e para a violência contra o outro que está na base da identidade coletiva e, quase sempre, na base da identidade individual. Achei por acaso dois trechos que denunciam isso na revista First Things, uma revista católica que é também uma de minhas preferidas. Os dois trechos são exemplos perfeitamente aceitáveis socialmente e ninguém, ninguém vai fazer cara feia se você os repetir nos ambientes mais diversos. Foi exatamente por isso que os escolhi.

Vou traduzir os dois. O primeiro exemplo é o primeiro parágrafo do texto How Pedophilia Lost Its Cool, de Mary Eberstadt:


É simples entender a importância do monstruoso crime da pedofilia: num mundo cada vez mais secularizado, ele é um dos poucos tabus a respeito dos quais pessoas religiosas e não-religiosas conseguem concordar. Ele permanece um sinal do que é certo e do que é errado num mundo em que outros sinais foram suprimidos.


Vamos colocar o aviso de praxe para coibir as ânsias linchadoras dos anônimos iletrados: não estou defendendo sob nenhum aspecto a pedofilia, e acho que puni-la severamente é algo desejável, servindo para unir as pessoas ou não.

Prossigo, pois. A estrutura do discurso é bem clara: nós, pessoas religiosas e não-religiosas, estamos unidas contra os pedófilos. Podemos praticar a violência contra eles. Essa violência é legítima, porque é unânime. Aquilo que mantém nossa identidade intacta é nossa concórdia a respeito de quem deve e quem não deve ser vítima de violência.

Vejam bem que não estou discutindo a moral, o direito natural, nada disso. Estou apenas observando que a autora do texto considera o tabu útil exatamente porque ainda une as pessoas. Na verdade, foi ela quem preferiu falar disso em vez de falar da pedofilia em si mesma.

O que é mais interessante, e também assustador, é que reconhecer a pedofilia como um tabu que une as pessoas dá a ela um caráter de artifício social gratuito que traz algum bem que nos acostumamos a querer. A ironia de Scruton, a capacidade de olhar a si mesmo na terceira pessoa, aqui começa a funcionar como auto-sabotagem. Isso é como dizer que o catolicismo é bom porque nos deu a Catedral de Notre-Dame, e não porque ele é verdadeiro. Não acreditamos em nada, mas reconhecemos os efeitos benéficos de acreditar. Não há verdades, só "ficções úteis" (estou roubando essa expressão de Paulo Henriques Britto).

Outro aspecto fundamental é o estabelecimento do binômio nós x eles. Nós, os bons; eles, os pedófilos. Isso sempre serve para evitar o questionamento de si próprio. Francamente, acredito que a vastíssima maioria de nós nunca sentiu mesmo nenhuma atração por nenhuma criança. Mas nunca olhamos com cobiça, nem por um segundo, uma adolescente? Ao combater o pedófilo que cometeu um ato de pedofilia, sentimo-nos dispensados de combater aqueles instantes de "pedofilia" em nós mesmos. Não precisamos contemplar o nosso próprio mal. Não precisamos tomar a nossa cruz. Claro que essa é a mesma estrutura presente em reclamar da corrupção dos políticos e desprezar a lei.

O segundo exemplo vem do penúltimo parágrafo do texto Be Afraid — Be Very Afraid, de David P. Goldman:


Na Segunda Guerra Mundial, os EUA representaram sua causa como uma cruzada contra as forças do mal.


Longíssimo de mim sugerir que o nazismo não possa ser chamado de "forças do mal". Só não lhe concedo o artigo definido "as" porque há muitas outras forças do mal.

Sem querer que isso pareça uma reportagem da Caras, recordo que em 1998 participei em Nova York de uma sessão de cinema promovida por Richard Brown com Oliver Stone. Ao fim, na conversa com o diretor mais chato do universo, Brown diz que na guerra da dos Bálcãs "não sabemos quem eram os mocinhos e quem eram os bandidos, enquanto na Segunda Guerra Mundial tudo era preto e branco". Stone disse: "Richard, as coisas não eram tão definidas na Segunda Guerra Mundial", o que causou furor na platéia. Claro que se pode lembrar do bombardeio de Dresden pelos aliados e dos campos de concentração para japoneses nos EUA, e, francamente, espero que seja a isso que Oliver Stone estivesse se referindo.

O que interessa é que a estrutura do pensamento é idêntica à do primeiro exemplo: esta violência nos uniu contra o Mal.

A frase seguinte do texto é (ao que tudo indica, involuntariamente), uma explicação de todo o processo:


Hoje enviamos soldados mulheres cobrindo a cabeça por baixo do capacete para demonstrar sensibilidade cultural aos afegãos.


"Será que ficamos molengas?" Parece que é isso que o texto quer perguntar. "Naquela época, não tínhamos problemas em ir estourar os miolos dos nazistas, e agora vamos respeitar um costume primitivo desse Talibã ridículo?"

Não ficamos exatamente molengas, mas ficamos hamletianos. Não conseguimos acreditar na violência. Conseguimos denunciar a violência em todos os seus aspectos, incluindo as sutis violências de um "Feliz Natal" dirigido a um público geral entre os quais se incluem não-cristãos que se sentem ofendidos. Todas as expressões do politicamente correto são denúncias de violência, em nível cada vez mais sutil. A mensagem é profundamente cristã: devemos nos abster da violência. "Se você é cristão, não me diga feliz Natal, porque isso é uma violência para mim". Não conte piadas de gays, negros etc. E eu não estou dizendo nada disso ironicamente. Quem define o que é violência é quem a sente.

Agora, como ninguém denuncia a violência em si mesmo, mas só nos outros, há uma hipersensibilidade a ela. Individualmente, todos nos sentimos vítimas, sentimos que temos o direito — dependendo do seu ressentimento, alardeado como "vontade de afirmar sua autonomia", até o dever — a uma justa revolta contra os outros. Coletivamente, há uma inversão. Quando se fala que o Ocidente está esclerosado, quer-se dizer que o Ocidente não crê mais em suas instituições, porque percebeu a sua origem violenta. A Revolução Americana, por exemplo, começou com uma guerra e se aprofundou com outra. E seus valores são protegidos com mais guerras. Ora, uma guerra é uma violência unânime. É dessa violência que se quer abdicar. Aos olhos das vítimas, "Feliz Natal" não é um ato de violência individual, é um símbolo de violência cultural prolongada.

Isso é o que René Girard chama de apocalipse. Não conseguimos mais crer no poder unitivo da violência. Não conseguimos acreditar que somos bons, puros e inocentes como antes acreditávamos. Tudo está sendo desmistificado. Nossos modelos não eram paladinos da bondade. Eram seres humanos falhos. Eles não nos inspiram mais. Assim, já olhamos nossos tabus com distanciamento, e questionamos nossos interditos. Mary Eberstadt tem toda razão: se existe horror à pedofilia, ao menos isso une as pessoas, porque ela está intuindo que, quando todos praticam uma violência unânime, não praticam violências uns contra os outros.

Não é bom que tenhamos denunciado a violência? É, claro. Podemos nos abster de certas coisas. Só que não deixamos de ser violentos, competitivos. Queremos linchar o pedófilo e nunca admitir que o mal está em nós. Quando não conseguirmos linchar o pedófilo, também não teremos enfrentado o mal em nós mesmos, não teremos ficado bons. Perderemos o poder coesivo da violência, o poder de Satanás para expulsar a Satanás, mas não teremos estabelecido o reino de Deus dentro de nós, e por isso não poderemos estabelecê-lo fora. Haverá um grande consenso universal a respeito da natureza da violência, mas não teremos deixado de ser violentos. Por isso ficamos com a violência aleatória: balas perdidas, crime, terrorismo. Porque queremos denunciar a violência nos outros, e nunca assumi-la. Queremos que os outros deixem de ser violentos, não nós mesmos. "O mundo é mau por causa da SUA violência, não da minha." A denúncia da violência assume graus de imensa sofisticação e nunca houve tantos argumentos, e tão bons (mesmo: insisto que isso não é ironia), para que alguém se sinta uma vítima.

A "soldada" com véu é um dos grandes paradoxos do Apocalipse. "Vim te matar, se necessário, mas não quero ferir a sua sensibilidade." Ela vem praticar a violência sem acreditar nela. O exército americano demonstra, assim, não crer na sua superioridade moral.

O texto de onde esse exemplo saiu fala de filmes de terror. O título é muito apropriado. Tenham medo. Tenham muito medo.