O processo pelo qual uma política pública ganha legitimidade aos olhos de ao menos uma parte da população pode ser inteiramente distinto do processo pelo qual uma política pública tem legitimidade perante as leis maiores de um país. Na frieza e na calma, as leis maiores são elaboradas com o princípio de evitar a perseguição a bodes expiatórios, e a sociedade ganha uma certa paz porque cada indivíduo acredita que ele mesmo não será vitimado para satisfazer os anseios de ninguém. Assim surge a idéia de delimitar a violência e de uma punição proporcional ao crime. A lei é, ou deveria ser, uma autoconsciência de nossa natureza violenta: é por sabermos que queremos o sangue dos bodes expiatórios que criamos o princípio constitucional de que ninguém será obrigado a produzir provas contra si mesmo. Para sacrificar o bode expiatório, precisamos acreditar na sua culpa; coagi-lo a admitir-se culpado é uma forma tão perversa de maldade que sua negação é mesmo um dos princípios basilares da justiça.
Esta é uma questão de Estado. O problema é que o Estado fica nas mãos de governos, e os governos são comandados por políticos. Os quais são eleitos pelo voto direto. E, para eleger-se e legitimar-se, eles precisam sacrificar bodes expiatórios. Collor era o “caçador de marajás” que ia “matar o dragão da inflação com um único tiro” — acho que nenhuma outra campanha presidencial que eu tenha presenciado se baseou tão fortemente no poder do herói para eliminar o Mal, e decerto isso tem a ver com a transformação posterior de Collor em bode expiatório. (Talvez só a legislação brasileira, com seus direitos de imagem etc. etc. etc., tenha impedido até agora a utilização desse material histórico em obras dramáticas — francamente, poucos episódios são tão interessantes, tão abertamente míticos, tão legitimamente trágicos, mas isso é outro assunto.) O fato é que todo político, para ganhar e manter apoio, precisa criar um bode expiatório e matá-lo, e ajuda muito na criação de um bode expiatório se ele já tiver cara de culpado.
Aí entra o motorista embriagado. Sem bater o carro, sem causar acidentes, sem matar ninguém, ele já tem mais cara de Caim do que o motorista sonolento, do que o motorista que dirige devagar demais. O motorista embriagado causa acidentes — eis uma afirmação que desperta a nossa fúria vingativa e legitima a violência contra ele. Acabamos por esquecer que no Brasil já existem legislação e jurisprudência bastante duras, e, creio, bastante sensatas, contra o motorista embriagado que causa acidentes. Sim, eu mesmo acho que, se você dirigir bêbado e matar alguém, você merece o mesmo tratamento que uma pessoa que tenha saído de casa de revólver na mão, e o Estado brasileiro (corrijam-me, abogados), com a idéia de “dolo eventual”, tem uma opinião semelhante.
O detalhe, nada pequeno, é que você pode dirigir embriagado — e não esqueçamos que, para os padrões draconianos da Lei Seca, ter feito uns bochechos com um produto com álcool para limpar a boca e ter tomado 10 doses de uísque não são coisas substancialmente distintas — e não causar acidente nenhum. O argumento de que, ao beber, você aumenta o risco, também é válido para o sono, para a empolgação com a música no som do carro, para a raiva do motorista que, num Honda ou num Toyota (as pessoas em Hondas e Toyotas sempre dirigem devagar), admira a 40 km por hora o fétido mangue da Linha Vermelha, com sua pitoresca casa flutuante, para a mera imprudência que pode haver em sair de carro no Rio em dia de chuva, para qualquer grande preocupação que perturbe a mente. A escolha do motorista embriagado, ou simplesmente do motorista que bebeu e continua tão capaz de dirigir quanto antes, demonstra a arbitrariedade da escolha e, com isso, a natureza da perseguição ao bode expiatório. Não são as ruas que estão ficando mais seguras: é o prefeito Eduardo Paes que está ficando mais bonito aos olhos das pessoas que, em vez de assumir suas responsabilidades e entender que há um risco em meramente sair de casa de carro, querem transferir o mal para aqueles de quem não gostam.
A fúria vingativa provocada pelo ressentimento difuso leva ao desprezo pelos princípios constitucionais. “Vamos encurralar de surpresa esse bando de bêbados e coagi-los a incriminar-se.” O Estado fica nas mãos do governo. A Lei fica na mão de aproveitadores. A sociedade fica à mercê dos políticos, que dirigem os recursos da polícia para a sublime causa de, indiretamente, angariar para eles votos e a reputação de justiceiros.
Um jornal como O Globo pode posar de razoável ao defender as blitzes da Lei Seca, e qualquer pessoa pode afetar indignação diante deste meu texto que as condena. Essa indignação é estruturalmente idêntica àquela que sentimos ao ver alguém afirmar a inocência do bode expiatório de nossa preferência. “Você defende o capitalismo? Então você é a favor da fome!” “Você defende a religião? Então você é a favor da dominação das consciências!” E no entanto, neste caso aqui, o raciocínio é simples: se você acredita que ninguém deveria ser obrigado a incriminar-se, então deveria defender, ainda que a contragosto, que ninguém seja coagido a usar um bafômetro. Isso sim é ser razoável, usar a razão, e não posar de razoável, que é o que o Globo faz e é aquilo que qualquer um faz, rico ou pobre, sofisticado ou tosco, quando quer praticar a violência e ainda assim parecer limpinho e ponderado. Aliás, a diferença entre a sociedade chique e a sociedade feiosa muitas vezes está apenas nos bodes expiatórios que uma e outra escolhem, e na clareza da arbitrariedade da escolha, com a ressalva de que sempre percebemos que os bodes expiatórios escolhidos pelos outros são arbitrários, e muito raramente chegamos a perceber essa arbitrariedade em nós mesmos. Por isso, não nos espantemos: uma gangue de apedrejadores pode ir de terno para o sacrifício, e outra pode ir em farrapos. O que vão fazer, porém, é a mesmíssima coisa.
domingo, 31 de janeiro de 2010
As bacantes da Lei Seca
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010
O Globo x Twitter da Lei Seca
Já é a segunda ou a terceira vez que leio no Globo alguma coisa contra o Twitter da Lei Seca do Rio de Janeiro.
É fácil perceber que O Globo apenas gostaria de encontrar uma brecha legal que permita derrubar o site. Afinal, O Globo considera que sua missão não é informar, mas civilizar a nós, os bárbaros habitantes cariocas. Um dos traços mais comuns do Brasil é mesmo a divisão entre jesuítas e índios, cada qual se considerando um Pe. Manoel da Nóbrega a catequizar os selvagens.
O Globo não percebe — ou finge não perceber — o seguinte: mesmo que dirigir embriagado seja crime, e que seja melhor cumprir leis idiotas do que desprezar as leis, o cidadão tem o direito de saber onde e quando pode se deparar com agentes do Estado, ainda mais quando estes agentes estão dispostos a coagi-lo a incriminar-se, violando o direito constitucional de não produzir provas contra si mesmo.
O raciocínio que afirma que a sociedade livre e organizada dentro da lei não pode alertar a si própria a respeito da ação estatal também afirma que os agentes da Polícia Federal podem entrar na minha casa, sem meu consentimento, sem um mandado, sem nada, e apreender o meu computador para verificar se não estou violando direitos autorais, armazenando fotos pedófilas etc.
Se antes eu disse que é melhor cumprir leis idiotas do que desprezar as leis, obedecer cegamente a leis que vão contra os princípios constitucionais e os mais elementares princípios morais é infinitamente mais pernicioso. É a tirania do bom-mocismo de terno e gravata, que transfere a sua raiva por não mais poder tomar uma tacinha de vinho no jantar e pegar seu carro para aqueles que continuam com sua tacinha de vinho, lêem o Twitter da Lei Seca, e seguem pelo melhor caminho para sua casa, sem matar ninguém, sem causar acidentes, sem nada.
É fácil perceber que O Globo apenas gostaria de encontrar uma brecha legal que permita derrubar o site. Afinal, O Globo considera que sua missão não é informar, mas civilizar a nós, os bárbaros habitantes cariocas. Um dos traços mais comuns do Brasil é mesmo a divisão entre jesuítas e índios, cada qual se considerando um Pe. Manoel da Nóbrega a catequizar os selvagens.
O Globo não percebe — ou finge não perceber — o seguinte: mesmo que dirigir embriagado seja crime, e que seja melhor cumprir leis idiotas do que desprezar as leis, o cidadão tem o direito de saber onde e quando pode se deparar com agentes do Estado, ainda mais quando estes agentes estão dispostos a coagi-lo a incriminar-se, violando o direito constitucional de não produzir provas contra si mesmo.
O raciocínio que afirma que a sociedade livre e organizada dentro da lei não pode alertar a si própria a respeito da ação estatal também afirma que os agentes da Polícia Federal podem entrar na minha casa, sem meu consentimento, sem um mandado, sem nada, e apreender o meu computador para verificar se não estou violando direitos autorais, armazenando fotos pedófilas etc.
Se antes eu disse que é melhor cumprir leis idiotas do que desprezar as leis, obedecer cegamente a leis que vão contra os princípios constitucionais e os mais elementares princípios morais é infinitamente mais pernicioso. É a tirania do bom-mocismo de terno e gravata, que transfere a sua raiva por não mais poder tomar uma tacinha de vinho no jantar e pegar seu carro para aqueles que continuam com sua tacinha de vinho, lêem o Twitter da Lei Seca, e seguem pelo melhor caminho para sua casa, sem matar ninguém, sem causar acidentes, sem nada.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
René Girard: Uncommon Knowledge
Eu sei, vocês querem muito mais Girard, e eu não consigo suprir a demanda.
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Judeu, bode expiatório por excelência
Parece que o judeu é a vítima arbitrária por excelência — o que é demonstrado, insisto, pelo fato de que toda pessoa que quer assumir o papel de vítima se compara aos judeus, como que para pegar um pouco de seu “prestígio”. A idéia de que “os judeus mataram Cristo”, usada na Idade Média e até alguns séculos depois para justificar a perseguição aos judeus, é um belo exemplo de como o mecanismo do bode expiatório consegue seqüestrar qualquer coisa, inclusive a mensagem que o denuncia, inserindo uma parcialidade criminosa — ou mítica — no olhar. Só é aceitável dizer que os judeus mataram Cristo se recordarmos imediatamente que os judeus também ajudaram Cristo a carregar a cruz, que os judeus defenderam Cristo, que os judeus espalharam a mensagem de Cristo pelo mundo. Os "judeus" ali não são o povo judeu, mas nós todos: não são eles, os linchadores; somos nós, os linchadores. Essa visão devidamente completa, por sua vez, traria uma honestidade e uma complexidade redentoras: você, quem quer que seja, também fez o mal, também matou Cristo, mas não deixou de fazer o bem, de contribuir com sua obra.
No entanto, se ontem falei de como o nazismo pode ser o último grito da religião arcaica, hoje devo ressaltar um aspecto segundo o qual a perseguição aos judeus é moderníssima. Se a modernidade é a defesa das vítimas, a perseguição aos judeus dentro do próprio cristianismo foi a primeira perseguição “moderna”, isto é, justificada por um mito (o mito é sempre a versão do criminoso) moderno. Em vez de alegar a defesa do interesse nacional, como no caso de uma guerra, ou uma necessidade qualquer, alega-se um crime cometido no passado. “Perseguimos os judeus porque eles perseguiram Cristo primeiro”, o que é diferente de “entraremos em guerra com a Alemanha porque necessitamos da Alsácia-Lorena” ou “vamos dividir 40% do território paraguaio com a Argentina para manter certos interesses políticos e comerciais”. Isso é diferente também porque a perseguição aos judeus não assume a forma de uma guerra contra um povo estrangeiro, mas de uma perseguição dentro do território de um Estado (território esse estendido virtualmente pela guerra ou não). Essa estrutura anuncia as perseguições — decerto infinitamente mais brandas — politicamente corretas, isto é, aquelas que se justificam por uma opressão cometida primariamente no passado, seja ela real e terrível, como a escravidão, ou um tanto psicológica, como “o domínio do patriarcado”.
A passagem, digamos, do “espírito arcaico” para o “espírito moderno” está na persuasividade do mito. O mito anterior encobria a violência. As guerras falam em interesses nacionais. A perseguição contemporânea é justificada desde o ponto de vista de um direito de vingança adquirido pela vítima — direito de vingança que, é claro, é “justiça”. O nazismo combina os dois elementos: de um lado, um mecanismo claramente arbitrário de seleção das vítimas, e por isso tosco e repulsivo aos olhos modernos; de outro, o aproveitamento do povo que primeiro sofreu a violência em nome de um suposto direito das vítimas à revanche.
No entanto, se ontem falei de como o nazismo pode ser o último grito da religião arcaica, hoje devo ressaltar um aspecto segundo o qual a perseguição aos judeus é moderníssima. Se a modernidade é a defesa das vítimas, a perseguição aos judeus dentro do próprio cristianismo foi a primeira perseguição “moderna”, isto é, justificada por um mito (o mito é sempre a versão do criminoso) moderno. Em vez de alegar a defesa do interesse nacional, como no caso de uma guerra, ou uma necessidade qualquer, alega-se um crime cometido no passado. “Perseguimos os judeus porque eles perseguiram Cristo primeiro”, o que é diferente de “entraremos em guerra com a Alemanha porque necessitamos da Alsácia-Lorena” ou “vamos dividir 40% do território paraguaio com a Argentina para manter certos interesses políticos e comerciais”. Isso é diferente também porque a perseguição aos judeus não assume a forma de uma guerra contra um povo estrangeiro, mas de uma perseguição dentro do território de um Estado (território esse estendido virtualmente pela guerra ou não). Essa estrutura anuncia as perseguições — decerto infinitamente mais brandas — politicamente corretas, isto é, aquelas que se justificam por uma opressão cometida primariamente no passado, seja ela real e terrível, como a escravidão, ou um tanto psicológica, como “o domínio do patriarcado”.
A passagem, digamos, do “espírito arcaico” para o “espírito moderno” está na persuasividade do mito. O mito anterior encobria a violência. As guerras falam em interesses nacionais. A perseguição contemporânea é justificada desde o ponto de vista de um direito de vingança adquirido pela vítima — direito de vingança que, é claro, é “justiça”. O nazismo combina os dois elementos: de um lado, um mecanismo claramente arbitrário de seleção das vítimas, e por isso tosco e repulsivo aos olhos modernos; de outro, o aproveitamento do povo que primeiro sofreu a violência em nome de um suposto direito das vítimas à revanche.
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Uma hipótese sobre por que o nazismo tem fama pior do que o comunismo
Há muito procuro a resposta para a seguinte pergunta: por que o comunismo, tendo matado muito (muito) mais gente do que o nazismo, não tem uma reputação tão ruim quanto este último? De início pensei no mero esforço de propaganda da KGB, na longa marcha da esquerda etc. Também pensei na onipresença de filmes sobre o massacre dos judeus na Alemanha nazista. Nenhuma das duas respostas me parecia suficiente.
Devo dizer, antes de prosseguir, que renuncio, no caso, a qualquer espécie de competição pelo maior número de vítimas. “Ah, foram tantos milhões de judeus? Pois foram tantos mais milhões de cristãos.” O número não torna nenhuma dessas perseguições mais aceitável.
O que penso, hoje, é o seguinte. O nazismo causa uma repulsa mais imediata e visceral porque representa, no Ocidente, a última manifestação grosseira do espírito da religião arcaica, a mesma, aliás, denunciada pelos profetas hebreus e por Jesus Cristo. O comunismo se baseia na seleção de bodes expiatórios de ocasião, escolhidos segundo a conveniência (ou o “pensamento dialético”); o nazismo, ao selecionar os judeus, expõe a arbitrariedade do mecanismo de seleção das vítimas de modo muito mais evidente do que qualquer outro sistema. Culpar os banqueiros / os burgueses / os reacionários / os religiosos é mais sofisticado porque eles são uma classe abstrata de pessoas, as quais podem ser selecionadas a cada dia, em cada circunstância, em cada país onde se trava uma luta comunista. Além disso, elas admitem complexidade; você pode ser banqueiro e amigo do governo, um reacionário que faz concessões, um burguês que ao menos tem a decência de tecer a corda com que será enforcado etc. Mas o judeu é simplesmente judeu e não pode deixar de ser judeu. Um católico pode largar a religião e deixar de ser católico. Mas um judeu, até onde entendo, mesmo que não tenha o menor interesse pela religião, e até seja ateu (e zombe do judaísmo de tal modo que seria chamado de nazista se não fosse judeu) continua tão judeu quanto o mais ortodoxo dos rabinos.
Por isso, quando as pessoas repetem a onipresente acusação de “nazista”, o que elas querem é dizer que alguém está selecionando vítimas de modo totalmente arbitrário e irrelacionado ao problema que se pretende resolver. Acreditar, mantendo o exemplo, que os judeus eram responsáveis pelos problemas alemães era acreditar num mito em sentido estrito, isto é, uma falsa acusação que encobre uma violência: os nazistas queriam era tomar as propriedades judaicas e dirigir o ódio da população a um grupo de pessoas, permitindo que a população se sentisse limpa, inocente, pura, superior, e ainda enriquecesse. Mas o método escolhido para isso já era transparente demais para a sensibilidade cristianizada, que vê as coisas do ponto de vista das vítimas. Por isso, todas as pessoas que se sentem perseguidas vêem um Hitler em seu algoz.
O comunismo, por sua vez, com suas perseguições, é, nesse sentido muito mais moderno, ou até pós-moderno. É uma ideologia que fala de um inimigo difuso, que atende mais à sutileza do mal-estar romântico, das pessoas que acham que têm direito a tudo e são oprimidas pelo mundo. Sacrificar esse bode expiatório não será suficiente; será preciso continuar sacrificando, e cada vez mais. Claro é que, se o nazismo não tivesse sido derrotado, teria chegado à mesma conclusão. O comunismo começou um ou dois passos adiante. Não custa lembrar que mesmo que Stálin cause repulsa a um anticomunista, ele não parece tosco como um oficial nazista. O assustador nessa sensibilidade é que isso demonstra que precisamos apenas de desculpas melhores, de mitos mais sofisticados, para praticar a violência. O nazismo é um assassino que sai de casa já sabendo quem vai matar e anuncia isso. O comunismo é um assassino que vai decidindo pelo caminho, justificando depois. Aparentemente, há muito mais tolerância para o segundo do que para o primeiro, porque queremos nos reservar o direito de selecionar nossas vítimas segundo nossas conveniências.
Devo dizer, antes de prosseguir, que renuncio, no caso, a qualquer espécie de competição pelo maior número de vítimas. “Ah, foram tantos milhões de judeus? Pois foram tantos mais milhões de cristãos.” O número não torna nenhuma dessas perseguições mais aceitável.
O que penso, hoje, é o seguinte. O nazismo causa uma repulsa mais imediata e visceral porque representa, no Ocidente, a última manifestação grosseira do espírito da religião arcaica, a mesma, aliás, denunciada pelos profetas hebreus e por Jesus Cristo. O comunismo se baseia na seleção de bodes expiatórios de ocasião, escolhidos segundo a conveniência (ou o “pensamento dialético”); o nazismo, ao selecionar os judeus, expõe a arbitrariedade do mecanismo de seleção das vítimas de modo muito mais evidente do que qualquer outro sistema. Culpar os banqueiros / os burgueses / os reacionários / os religiosos é mais sofisticado porque eles são uma classe abstrata de pessoas, as quais podem ser selecionadas a cada dia, em cada circunstância, em cada país onde se trava uma luta comunista. Além disso, elas admitem complexidade; você pode ser banqueiro e amigo do governo, um reacionário que faz concessões, um burguês que ao menos tem a decência de tecer a corda com que será enforcado etc. Mas o judeu é simplesmente judeu e não pode deixar de ser judeu. Um católico pode largar a religião e deixar de ser católico. Mas um judeu, até onde entendo, mesmo que não tenha o menor interesse pela religião, e até seja ateu (e zombe do judaísmo de tal modo que seria chamado de nazista se não fosse judeu) continua tão judeu quanto o mais ortodoxo dos rabinos.
Por isso, quando as pessoas repetem a onipresente acusação de “nazista”, o que elas querem é dizer que alguém está selecionando vítimas de modo totalmente arbitrário e irrelacionado ao problema que se pretende resolver. Acreditar, mantendo o exemplo, que os judeus eram responsáveis pelos problemas alemães era acreditar num mito em sentido estrito, isto é, uma falsa acusação que encobre uma violência: os nazistas queriam era tomar as propriedades judaicas e dirigir o ódio da população a um grupo de pessoas, permitindo que a população se sentisse limpa, inocente, pura, superior, e ainda enriquecesse. Mas o método escolhido para isso já era transparente demais para a sensibilidade cristianizada, que vê as coisas do ponto de vista das vítimas. Por isso, todas as pessoas que se sentem perseguidas vêem um Hitler em seu algoz.
O comunismo, por sua vez, com suas perseguições, é, nesse sentido muito mais moderno, ou até pós-moderno. É uma ideologia que fala de um inimigo difuso, que atende mais à sutileza do mal-estar romântico, das pessoas que acham que têm direito a tudo e são oprimidas pelo mundo. Sacrificar esse bode expiatório não será suficiente; será preciso continuar sacrificando, e cada vez mais. Claro é que, se o nazismo não tivesse sido derrotado, teria chegado à mesma conclusão. O comunismo começou um ou dois passos adiante. Não custa lembrar que mesmo que Stálin cause repulsa a um anticomunista, ele não parece tosco como um oficial nazista. O assustador nessa sensibilidade é que isso demonstra que precisamos apenas de desculpas melhores, de mitos mais sofisticados, para praticar a violência. O nazismo é um assassino que sai de casa já sabendo quem vai matar e anuncia isso. O comunismo é um assassino que vai decidindo pelo caminho, justificando depois. Aparentemente, há muito mais tolerância para o segundo do que para o primeiro, porque queremos nos reservar o direito de selecionar nossas vítimas segundo nossas conveniências.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
Um poema ateu de A. E. Housman
Meu interesse por Housman começou com a leitura da peça The Invention of Love, de Tom Stoppard (dê uma olhada no vídeo aí em cima, tem o Dr. Wilson no papel principal). Ainda não li A Shropshire Lad, mas esbarrei com um de seus poemas no finalzinho de um de meus livros favoritos, a coletânea de light verse ("verso ligeiro") preparada por W.H. Auden, um de meus gurus. E, já que o tema esteve presente aqui há pouco, este livro foi um dos melhores presentes que já recebi.
No ano passado, tentei fazer um exercício de empatia com a psicologia atéia, e não fui recebido, digamos, com a boa vontade que esperava. No matter. Até porque o que me interessa mais é observar as reações, e eu fiquei curioso demais para saber como os ateus de hoje reagiriam ao ateu latinista de Cambridge, também poeta.
The laws of God, the laws of man,
He may keep that will and can;
Not I: let God and man decree
Laws for themselves and not for me;
And if my ways are not as theirs
Let them mind their own affairs.
Their deeds I judge and much condemn,
Yet when did I make laws for them?
Please yourselves, say I, and they
Need only look the other way.
But no, they will not; they must still
Wrest their neighbour to their will,
And make me dance as they desire
With jail and gallows and hell-fire.
And how am I to face the odds
Of man's bedevilment and God's?
I, a stranger and afraid
In a world I never made.
They will be master, right or wrong;
Though both are foolish, both are strong.
And since, my soul, we cannot fly
To Saturn nor to Mercury,
Keep we must, if keep we can,
These foreign laws of God and man.
A. E. Housman
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
O caso brasileiro não é especial
Mui acertadamente, Paulo Polzonoff comenta um problema da literatura brasileira:
Sergio Rodrigues pode observar que nessa "provocação" há "generalizações indevidas". Mas toda generalização é indevida... E eu não vou me dar ao trabalho de mencionar as exceções.
Recentemente a UFRJ me obrigou a ler um livro desses. Um romance contemporâneo que já valeu muitos mestrados. No meu trabalho a respeito, limitei-me a observar que ele não passava da mesma velha versão requentada do futurismo de Marinetti, que desde 1922 é vendida como a mais ousada das vanguardas literárias.
Os problemas já foram diagnosticados mil vezes. De um lado, os artistas são prejudicados pela crença no progresso. É mais importante jamais repetir algo do que fazer algo de bom, de interessante. Interessante no sentido de "algo que prenda a sua atenção". Obras de arte podem ser profundas e até profundíssimas. Mas não podem ser chatas. Se só existe a parte profunda e profundíssima, o único leitor possível é o sujeito que já ganhou bolsa de mestrado e agora tem a opção de entregar a tese ou devolver o dinheiro ao Ministério da Educação.
Isso é que leva à estratificação da cultura brasileira. O povo vê Zorra Total e novela. A classe média vê séries americanas e inglesas e lê romances estrangeiros (ou, no meu caso, poesia e teatro). A suposta elite intelectual universitária consome coisas produzidas por ela própria. Lembro daquela terceira parte do Gulliver em que as pessoas tinham servos cuja função era despertá-los de suas conversas idiotas e hipnotizantes.
O efeito colateral disso é que até a parte interessante da produção cultural é malvista. Eu mesmo já observei a total irrelevância da poesia no Brasil. Poesia só interessa a quem escreve ou faz tese. O romance pelo menos encontra algum público naquela classe média de que falei.
E, no entanto, nada disso é novo na História. Como já se lembrou, vejamos o que diz Otto Maria Carpeaux:
O que significa: não é o apocalipse. Já estivemos melhor, mas o que temos hoje é apenas um fase. Não tenha também a vaidade de achar que a sua situação é pior do que todas as outras.
...literatura brasileira, em geral, não é livro que se queira ler. É livro que se pretende estudar, analisar, discutir. Aquilo que parece um romance é, na verdade, um objeto de estudo — um livro praticamente didático.
Logo, convém mesmo deixar a literatura brasileira bem separadinha daqueles livros que a gente compra porque quer lê-los à noite, antes de dormir, ou na praia. Minha sugestão é que o mercado editorial comece a lançar promoções do tipo “Compre este livro e ganhe uma tese”. Pode dar certo.
Sergio Rodrigues pode observar que nessa "provocação" há "generalizações indevidas". Mas toda generalização é indevida... E eu não vou me dar ao trabalho de mencionar as exceções.
Recentemente a UFRJ me obrigou a ler um livro desses. Um romance contemporâneo que já valeu muitos mestrados. No meu trabalho a respeito, limitei-me a observar que ele não passava da mesma velha versão requentada do futurismo de Marinetti, que desde 1922 é vendida como a mais ousada das vanguardas literárias.
Os problemas já foram diagnosticados mil vezes. De um lado, os artistas são prejudicados pela crença no progresso. É mais importante jamais repetir algo do que fazer algo de bom, de interessante. Interessante no sentido de "algo que prenda a sua atenção". Obras de arte podem ser profundas e até profundíssimas. Mas não podem ser chatas. Se só existe a parte profunda e profundíssima, o único leitor possível é o sujeito que já ganhou bolsa de mestrado e agora tem a opção de entregar a tese ou devolver o dinheiro ao Ministério da Educação.
Isso é que leva à estratificação da cultura brasileira. O povo vê Zorra Total e novela. A classe média vê séries americanas e inglesas e lê romances estrangeiros (ou, no meu caso, poesia e teatro). A suposta elite intelectual universitária consome coisas produzidas por ela própria. Lembro daquela terceira parte do Gulliver em que as pessoas tinham servos cuja função era despertá-los de suas conversas idiotas e hipnotizantes.
O efeito colateral disso é que até a parte interessante da produção cultural é malvista. Eu mesmo já observei a total irrelevância da poesia no Brasil. Poesia só interessa a quem escreve ou faz tese. O romance pelo menos encontra algum público naquela classe média de que falei.
E, no entanto, nada disso é novo na História. Como já se lembrou, vejamos o que diz Otto Maria Carpeaux:
A crítica literária alemã [...] era puramente jornalística, era a pior da Europa, desdenhando, com incompetência, mas com certa razão, a indústria escolar dos universitários, chamados na Alemanha de então "os mais estúpidos dos homens". (História da literatura ocidental, Introdução.)
O que significa: não é o apocalipse. Já estivemos melhor, mas o que temos hoje é apenas um fase. Não tenha também a vaidade de achar que a sua situação é pior do que todas as outras.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Eric Rohmer est mort

Há muito tempo vi um filme, acho que foi A história de Adèle H. (e será que Isabelle Adjani já esteve mais bonita?*), que terminava com a morte de Victor Hugo. O espectador então ouvia vozes sem rosto que gritavam: "Victor Hugo est mort! Victor Hugo est mort!" Pois quando um artista como Rohmer morre, gostaria que daqui do meu apartamento eu pudesse também ouvir gritos, fossem em francês, em português ou em qualquer idioma cujo sentido eu conseguisse discernir, e soubesse que as pessoas estão gritando porque Eric Rohmer morreu. Foi ontem, eu sei. Mas ontem eu estava amordaçado e cercado por canibais de ossinho amarrado na cabeça, preso na Ilha de Bonga-Bonga, e só hoje consegui me livrar deles e reencontrar meu Aston Martin voador para voltar para cá.
Meu filme favorito é Conto de verão, embora talvez o melhor seja A inglesa e o duque. Na verdade, estou dizendo que meu filme do coração é Conto de verão, mas acho que pessoas que vêem dois filmes por dia e sempre escrevem sobre cinema talvez digam que A inglesa e o duque é melhor. Ou talvez eu esteja totalmente errado. O fato é que todos os filmes de Rohmer são bons e que, quanto mais velho ele ficava, melhores os filmes também ficavam. É verdade que nos filmes dele as pessoas falam muito, mas também é verdade que elas estão sempre representando um tipo. Conto de verão é, nas palavras de um amigo, "Malhação que deu certo, a prova de que é preciso ter 80 anos para filmar uma boa história de romance de férias". E é isso que o filme é: um rapaz confuso se divide entre três meninas, sem ter o controle da situação em nenhum momento, mas se achando muito profundo. É verão, as meninas querem se divertir, e toda a atmosfera de relaxamento do filme se impregna até na sua roupa e você sai do cinema (eu me lembro de quando saí do cinema) como se tivesse ido à praia. E, é claro, há a Amanda Langlet, a moça da foto aí de cima (a mesma de Pauline na praia, que mostra que é possível envelhecer 13 anos como se fossem 3; ok, exagero, mas mesmo assim... Veja). Se você não se apaixonar por ela 300 vezes durante o filme, tem coração de pedra e discute bandas semi-conhecidas como se isso fosse um assunto relevante. É claro, porém, que boa parte do charme dela no filme vem de ela se fazer de difícil; o gostoso seria tentar vencê-la sem jamais revelar verbalmente seu estado perpétuo de blefe.
E olha que nem falei dos outros filmes.
*Sugiro que o leitor não procure fotos atuais dela.
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Eric Rohmer
sábado, 9 de janeiro de 2010
Antinomias
This thing of darkness I acknowledge mine.
— Prospero
Tudo aquilo de que gostamos é complexo, único, irredutível e cheio de nuances. Não pode ser perfeitamente rotulado. Tudo aquilo de que não gostamos pode ser perfeitamente rotulado, explicado e reduzido.
O passado sempre pode ser uma fonte de memórias gloriosas, o futuro pode ser o depositário das mais sublimes esperanças. O presente, este momento que se possui imediatamente, é banal e comezinho. É apenas você e um computador.
Desde a Ilíada já encontramos quem diga — no caso, o velho Nestor — que “no meu tempo as coisas eram bem melhores, vocês não viram nada”. Você já ouviu isso dos seus avós, dos seus pais, e eu tenho vontade de estapear 120% das pessoas que começam a falar que “infância tem de ter bodoque e bola de gude”, ainda que eu mesmo pense que hoje em dia, essas crianças, sei lá. E já querem me estapear. Com razão, provavelmente.
Quando você faz algo bom, espera no mínimo uma medalha. Quer dizer, você conta para alguém o seu bom ato e espera a aprovação. Quando outra pessoa faz algo de bom, nunca é mais do que a obrigação. O seu bem é um ato de graça; o dos outros é simplesmente devido.
Quando você faz algo mau, foi compelido pelas circunstâncias. Quando outra pessoa faz algo de que você não gosta, ela é simplesmente malvada.
Quando você defende uma coisa pura e boa – a verdade! a vida! a democracia! a igualdade! a liberdade! as bolsas ecológicas! - , sempre faz isso pelas mais puras razões imagináveis, nunca jamais porque sua vida é chata, você está com raiva e, em vez de mostrar que é um ressentido, quer assumir o papel do anjo vingador, da promotoria do juízo final, alertando para a destruição iminente se os homens não endireitarem suas veredas. Quando outra pessoa defende alguma coisa de que você não gosta, ela é má, tem objetivos escusos, ou, na melhor das hipóteses, é uma tolinha iludida que merece a sua magnânima condescendência.
Você se reúne com seus amigos num clima de amizade e confraternização. Os outros de quem você não gosta só sabem falar mal das pessoas. Coisa que você nunca faz, claro.
Você não tem inveja. Por definição, esse é o sentimento que só pode ser atribuído aos outros. Você só sente no máximo aquela “boa inveja” afrescalhada, uma maneira de confessar admiração e demonstrar uma vulnerabilidade charmosa.
Não foi você quem começou. Foram eles. Você está só reagindo.
A diferença fundamental entre você e os outros, enfim, é que você está certo; suas motivações são puras.
Isso é o que me interessa agora. A formação dos duplos. Todo mundo pensa a mesma coisa a respeito de todo mundo e todo mundo está simultaneamente certo e errado. Todo mundo tenta demonstrar que é único e individual enquanto seus adversários são joguetes de forças maiores. Isso leva a uma denúncia universal, não a uma percepção da sua própria relatividade.
Girard cita um trecho de Proust que diz que “todo escritor só se torna verdadeiramente grande quando interrompe em sua mente o monólogo de suas próprias justificações”. Ou algo assim. Você entendeu — espero.
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