domingo, 28 de fevereiro de 2010

O estilo baço




Enquanto não encontro o tempo devido para retomar as discussões do momento, deixo aqui um trecho de um ensaio de Auden que diz respeito a uma antiga preocupação minha, e que também vai como um acréscimo a um antigo post de Érico Nogueira. Interessante é observar que Érico fala em "poesia dramática", que Ezra Pound decerto diferenciaria de "teatro em versos". O encontro entre a poesia e o drama, senhores, é mais raro do que se imagina (ou quiçá impossível).

Uma outra observação, lamentando que no momento eu só possa mesmo fazer observações, é que a solenidade parece ter-se tornado inviável. As tragédias contemporâneas — penso em Tennessee Williams e Nelson Rodrigues — não têm personagens "elevados", mas pessoas comuns. Creio que isso se deva à própria dessacralização da política. Hoje é impossível não imaginar uma aula de literatura em que não se diga que a promessa feita por Édipo no início de Édipo Rei de livrar a cidade da peste é uma espécie de "populismo". Não esqueçamos ainda de que é mais fácil um rico entrar no Reino dos Céus do que um comentarista conseguir não reduzir Antígona a uma espécie de dissidente política. Sempre tenho a impressão de que ainda vão querer julgar Creonte na Corte de Haia por violações de direitos humanos. Se você acha que estou exagerando, pode ficar sabendo que o nobelizado Seamus Heaney, ao ser convidado para fazer uma versão de Antígona , declarou ter encontrado a motivação para o trabalho em George Bush...

(Não digo isso para reclamar da dessacralização da política, pelo contrário. Prefiro mil vezes o Lula a um sujeito que se ache descendente dos deuses ou ungido por Deus. O que não posso é fingir que isso não tenha conseqüências para a literatura.)

Agora que escrevo, percebo que essa versão de Heaney provavelmente encarna tudo aquilo a que Auden se refere; e que provavelmente os tragediógrafos gregos já evidenciam essa dessacralização, ao menos em suas atitudes (Ésquilo sendo "mais sacro" e Eurípides menos). Mas a arte é longa, a vida é curta, e vou deixar vocês com Auden.

A julgar pelos poemas que escreveram, todos os poetas modernos que admiro parecem compartilhar minha convicção de que, na época atual, a poesia que pretende ser falada ou lida não pode mais ser escrita em estilo elevado, nem precioso, mas apenas em estilo baço [drab], usando esses termos no sentido com que C. S. Lewis os usava. Por estilo baço refiro um tom de voz calmo, que deliberadamente evita atrair atenção para si, enquanto Poesia com P maiúsculo, e uma certa modéstia nos gestos. Sempre que um poeta moderno levanta a voz, ele, como se fosse um homem usando peruca ou sapatos de plataforma, me causa um certo desconforto.

Tenho as minhas teorias — e imagino que meus colegas também tenham as deles — sobre por que as coisas são assim, mas não vou entediá-los infligindo-as a vocês. Para a poesia não-dramática, isso não cria nenhum problema; mas, para o drama em versos, cria. Ao escrever suas peças em versos, Eliot tomou, creio, o único caminho possível. Excetuando alguns momentos peculiares, manteve baço o estilo. Não consigo acreditar, porém, que ele tenha ficado muito feliz por ter de fazer isso, pois atuar em público é, como dizemos, “fazer cena”; isso é coisa que um estilo elevado pode fazer despudoradamente, mas um estilo baço é obrigado a fingir que não está “fazendo cena”. O que tentei mostrar foi que, enquanto forma de arte que inclui palavras, a ópera é o último refúgio do estilo elevado, a única arte para a qual um poeta nostálgico daquelas épocas passadas, em que os poetas podiam escrever de modo grandiloqüente por si próprios, ainda pode contribuir, desde que se dê ao trabalho de estudar o métier e tenha a sorte de encontrar um compositor em quem acredite.

W. H. Auden, “The World of Opera”. Secondary Worlds. Faber and Faber: Londres, 1968. p. 102


Leia o trecho no original.

Para um breve resumo do que C. S. Lewis quis dizer com drab style, ver este trecho do livro de Arana sobre Auden.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Mob rule

Eu mesmo defendo até a redução da maioridade penal para 16 anos, mas creio que fico mais assustado ao ver que a justiça brasileira cede ao desejo de vingança (também conhecido como "indignação") da população em vez de manter decisões tomadas dentro do processo legal. Isso, como diziam os lordes ingleses d'antanho, não é lei, é mob rule.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Liberdade, ordem & paz

Li os artigos de Olavo de Carvalho e de Diogo Costa sobre ordem e liberdade e devo dar uma terceira opinião — talvez mais próxima da opinião de Olavo de Carvalho, por fazer com que a ordem de certo modo anteceda a liberdade. Minha opinião, porém, depende de um certo entendimento de “ordem” e de um certo entendimento de “liberdade”. No momento, não tenho os meios de reunir o que os dois disseram e procurar um denominador comum. Esperemos que alguém possa fazê-lo. Quiçá o Bruno Garschagen.

Num texto anterior, falei de como um dos problemas do Brasil era o excesso de competitividade: competimos no trânsito, nas ruas, nas pequenas transações cotidianas, partout. Como o espaço de não-competitividade é muito pequeno, não concentramos nossa inclinação para competir em nenhum terreno em particular — nos negócios, por exemplo — e por isso parecemos dispersivos. Gastamos nossa alma com raiva do sujeito que andou no acostamento, que contou uma mentira para tentar ganhar uma esmola, que simplesmente brandiu a lei e cobrou um imposto abusivo. Estamos nos defendendo o tempo todo, sempre cientes de que o gafanhoto pode vir e comer o pouco que acumulamos. Temos a sensação de ter pouca liberdade.

Por isso é que vou definir “liberdade” como a possibilidade de ação sem revide violento, observando que, por “revide violento”, entendo atos contra a vida, a saúde e as propriedades, e “ordem” como a possibilidade de aplicar uma violência unânime — isto é, “legítima” — contra aqueles que praticam a violência individualmente, em revide ou de motu proprio. Nesse sentido, “garantir a ordem” e “garantir a liberdade” seriam a mesma coisa: aliás, a função primária do Estado. Se existe a possibilidade de ação sem revide violento, posso inventar um produto que destrua indústrias inteiras e acreditar que não serei assassinado. Posso dizer o que penso sem ser linchado; posso até dizer o que não penso e supor que não serei linchado, ou ao menos que os linchadores sofrerão sanções violentas legítimas.

Uma vez que o Estado cumpra a sua função de conter e gerenciar a violência — aquilo que Adam Smith chamou de “uma administração tolerável da justiça” — , as pessoas podem competir de modo frutífero, e não sanguinário. Essa contenção da violência, porém, pressupõe a possibilidade perene de administrar a violência contra o transgressor interno e contra o inimigo externo. Não se pode fingir que os vizinhos não cobiçam o território que se ocupa; eu mesmo creio que os vizinhos do apartamento ao lado ocupariam rapidamente o apartamento onde moro se acreditassem que a minha resistência seria insignificante.

Nesse ponto, é preciso explicitar um pressuposto. Todo o meu raciocínio depende de crer que a violência é o estado natural do ser humano. Sim, eu creio nisso. Falo em garantir a ordem como se isso fosse igual a garantir a liberdade, e creio que as duas coisas estejam muito próximas de garantir a paz. Se você julga que o ser humano é naturalmente pacífico e não violento, um verdadeiro Adão recém-criado, não um filho de Caim, então de fato não temos bases comuns.

Retornando, e aproveitando para recomendar um post de Mencius Moldbug que toca no assunto, é preciso salientar que a ordem nasce da proteção contra o inimigo externo. A manutenção de qualquer sociedade depende de que seus membros efetivamente acreditem em certos mitos. Ser americano não é simplesmente acreditar na liberdade e no princípio de no taxation without representation, mas acreditar nisso contra o Rei George III. Houve, num dado momento, a possibilidade de atribuir o mal a um inimigo e combatê-lo; se antes ele não era exatamente externo, depois passou a ser. Foi “morto”, banido, sacrificado como bode expiatório. Foi a vitória das colônias na Guerra de Independência que criou a land of the free and home of the brave. Assim, parafraseando Adam Smith, o padeiro e o açougueiro americanos não estão apenas seguindo o seu interesse próprio ao vender pão e carne, estão também seguindo seu interesse comum de manter os ingleses longe e de viver segundo o esquema de diferenciações — a ordem jurídica, com todos os seus títulos de propriedade — que nasceu da violência que os expulsou.

O surgimento da ordem após a violência contra o bode expiatório é perfeitamente “espontâneo”. É um fenômeno universal. Não sei se é desse tipo de “espontaneidade” que Hayek está falando, mas tendo a suspeitar de que ele se refere às ordens espontâneas que surgem uma vez que existam proteções eficazes contra a violência, e a mais eficaz destas é o direito de propriedade. Nunca consegui aceitar a idéia de uma qualidade “metafísica” da propriedade, como se este computador em que escrevo fosse meu por alguma configuração intrínseca à minha pessoa e à natureza deste objeto individual. Não: basicamente, ele é meu porque se alguém tentar tomá-lo de mim a lei brasileira me autoriza a reagir e, em última instância, promete jogar o aparato violento do Estado contra essa pessoa. A propriedade é uma diferenciação social.

***

Reparem em como parecemos ter chegado a uma crítica marxista. Marx dirá que as proteções contra a violência, aquilo que eu e você entendemos como “direitos humanos” — o direito de não ser torturado, escravizado etc. — são meros direitos burgueses. Reduzindo a crítica marxista a termos girardianos, entendemos que há nela a noção de que a proteção contra a violência precisa ser estendida a outras áreas, sobretudo a área do trabalho. Eis a disputa do século XX a respeito da elaboração entre uma Carta de Direitos Humanos no âmbito da ONU, com os países ocidentais querendo incluir os direitos humanos “tradicionais” e a URSS querendo incluir direitos econômicos, sociais e culturais. Liberais (ou conservadores) podem crer que a sociedade é “justa” se os direitos humanos e os direitos de propriedade e igualdade perante a lei estiverem assegurados; marxistas dirão que isto é muito pouco e, na verdade, é apenas uma manipulação da burguesia para assegurar seu status (vide a importância do direito de propriedade). Talvez, aliás, possamos dizer que a diferença entre direita e esquerda é justamente que a direita tem um entendimento limitado da violência e pretende contê-la até um determinado ponto (por exemplo, não seria violência uma empresa vencer outra sem usar roubo e assassinato), e a esquerda tem um entendimento muito mais amplo do que seja a violência e de como ela deve ser administrada. A idéia de que a “história acabou” com a consolidação das democracias liberais seria a idéia de que todos os direitos que deveriam ser assegurados já foram assegurados; a idéia de que a história não acabou é a idéia de que é preciso continuar lutando para assegurar mais direitos e, com isso, uma certa espécie de ordem, “mais justa” que a atual.

É nesse sentido que o esquerdismo parece uma paródia do Cristianismo, um verdadeiro anti-Cristianismo: por esperar que as condutas não-violentas (como oferecer a outra face) que Cristo pediu a cada indivíduo sejam realizadas por lei, por um sistema jurídico, que, com a abolição da propriedade, instalaria uma situação violentíssima, porque aquilo que é de todos não é de ninguém, e pode ser usado de qualquer maneira sem temor de sanção violenta e legítima porque unânime.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Breve nota sobre a primazia do passado

Em “The World of the Sagas”, o segundo ensaio de Secondary Worlds, W. H. Auden propõe a tese de que as sagas islandesas são uma forma de realismo social.

Fiquei imaginando que a investigação dessa tese valeria um ensaio interessante, que teria de primeiro encontrar alguma definição socialmente aceita de — redundância inevitável — realismo social. Essa definição deveria ter surgido ou como uma proposta que deu origem a certas obras, ou como uma reunião de características de certas obras que passaram a ser classificadas como “realismo social”. Nos dois casos, porém, o aspecto convencional, isto é, daquilo que é socialmente aceito, teria de prevalecer. Inventar uma definição de realismo social para dizer que as sagas islandesas pertencem a esse gênero seria um mero truque retórico, que se aproveitaria do interesse gerado pelo contraste improvável entre algo tão aparentemente moderno quanto “realismo social” e algo tão aparentemente arcaico quanto “sagas islandesas”, sem, na realidade, demonstrar a semelhança entre os dois elementos.

Logo depois de imaginar isso, recordei que esse é um dos principais métodos de determinação do dogma católico: a determinação daquilo que é aceito há mais tempo e por certas pessoas, de modo a assegurar uma continuidade de crenças. Uma pergunta fundamental, diante de uma dúvida sobre a existência ou a inexistência de uma crença, é se um determinado grupo de pessoas — os apóstolos, os Padres da Igreja — a compartilhariam ou não. Assim, o método para saber se as sagas islandesas são uma forma de realismo social teria alguma semelhança com o método para saber se o Papa é mesmo infalível em questões de doutrina.

A principal diferença, é claro, é que, nesse nível, os gêneros literários só têm existência social, isto é, realismo social é aquilo que for aceito como realismo social. Assim como os autores literários têm de capturar seus leitores, também os críticos têm de convencer o público de suas definições. O dogma católico, porém, se refere a um objeto que existiria independentemente de sua formulação dogmática: se o Papa é infalível, é infalível mesmo que a Igreja nunca formule a doutrina da infalibilidade.

Permanece entretanto a semelhança do método de como chegar a uma determinada tese: a investigação histórica e a comparação literária, com o passado servindo de modelo (isto é, sendo mais do que mera informação) e de perspectiva.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Uma base estratégica para a retórica liberal

Meu texto propondo causas liberais teve uma boa repercussão:

As pautas liberais, de um autor cujo nome não identifiquei;
10 ações de minha agenda política, de Igor Taam;
Quais devem ser nossas prioridades?, de Diogo Costa;
Propaganda governamental, de Luciana Lopes.
Três propostas — e muitos debates, de Flamarion Daia Júnior.

Julgo que ainda preciso me estender sobre a primeira das causas que defendi, e que é, para mim, a mais importante: a discriminação obrigatória entre preço e imposto em todas as notas fiscais.

Muitos liberais querem dar uma de imaculados e equacionam as coisas erradamente. Não creio que exista a escolha de Sofia entre ser um perdedor cheio de razão e um vencedor que precisou corromper-se. Existe, pelo contrário, a escolha entre ficar num mundinho de sonhos, achando-se puro e lindo, e entender a situação imediata e questionar-se sobre o liberalismo possível. Na primeira opção, temos boa parte da situação atual, em que a defesa do liberalismo não passa de um passatempo burguês relativamente inconseqüente, que assume a nobre pose de “defesa de idéias”. Defender idéias é fácil, veja só: a verdade é boa e a mentira é má. Pronto, está defendido. O difícil é convencer as pessoas, e o sucesso da retórica depende da adesão da platéia.

Há muito tempo me pergunto, e não sou nada original nisso, por que posturas liberais não encontram mais interesse no Brasil. As pessoas gostam da prosperidade que o mercado traz, mas por que não juntam A com B? Penso que existem razões diferentes para isso, e agora vou explicar uma delas (e, posteriormente, outra razão).

Aristóteles explica na Retórica que o entimema é o mais poderoso recurso persuasivo. Ok, ele estava falando de discursos dirigidos aos homens livres de Atenas, isto é, uma pequena elite altamente educada. Hoje parece haver uma preferência pelo exemplo enquanto instrumento de persuasão, mas até o exemplo me parece estar baseado num entimema. Explico. O entimema é um silogismo de premissa maior oculta, com a qual o ouvinte já concorda de antemão. Se eu digo “aquele cara é nazista”, você já acredita que o nazismo é mau e você mesmo tira a conclusão de que “aquele cara” deve ser preso ou punido de alguma forma. Os guetos ideológicos, os grupos de amigos e todos os meios relativamente homogêneos compartilham essas premissas maiores de modo implícito. As estratégias de manipulação ideológica, por sua vez, tentam operar no terreno dessas premissas implícitas, e não no terreno das premissas menores e das conclusões. Agora você pode estar pensando que chegamos ao ponto em que vou defender a manipulação ideológica em favor do liberalismo. Nada disso.

Quando escrevi defendendo a discriminação obrigatória entre preço e imposto nas notas fiscais, meu objetivo era sugerir que isso contribuiria para explicitar e questionar uma premissa maior que parece onipresente no Brasil: a idéia de que o Estado é uma espécie de força mágica, movida a “vontade política”, capaz de resolver qualquer problema. Você não tem essa sensação em relação à sua vida privada. Você sabe que tudo tem um custo. Mesmo que você seja muito rico, tudo tem um custo de tempo: fazer algo é não fazer outro algo. Ainda assim, você pode acreditar que o Estado, como Deus, é capaz de abolir a fome, a doença, o crime e a pobreza, e ainda promover o turismo, criar filmes e programas de TV, tudo ao mesmo tempo. As pessoas que defendem esse grande e sensacional Estado onipresente nunca são obrigadas a responder à seguinte pergunta: “Tudo isso é muito lindo, mas quanto você quer pagar por esse Estado que já existe? Ah, você não sabe que já paga um bocado? Acha pouco? Quer pagar mais? Mas além de você querer que o Estado acabe com a fome no Brasil, você não achava que ele ainda deveria pagar operações de mudança de sexo? Acha que isso não custa nada, é?” E assim as pessoas começariam a medir o quanto pagam por ruas esburacadas, por segurança deficiente, por burocracias infindas, e saberiam que cada uma de suas idas ao cinema com jantar depois poderia custar talvez metade do que custa... Mais importante, talvez elas entendessem que achavam que o Estado era uma força mágica e, quando vissem na TV que agora o governo vai dar isso ou aquilo, perguntassem: “E quanto custa esse negócio?”

O fato é que não é possível discutir a sério como é o Estado que se quer, mínimo, médio, empresário, regulador etc. enquanto existe a possibilidade de um Estado máximo e divino que depende apenas da boa vontade para nos levar aos vales onde jorra o leite e o mel. É claro que esse Estado divinal é preferível, e é sua impossibilidade que precisa ser sentida, mais do que demonstrada, para que as pessoas excluam as opções inviáveis de suas mentes. Querer o Estado divinal é como recusar as mulheres que existem porque só Helena de Tróia seria uma opção aceitável. Esse é o sentido político imbecil da frase "sejam realistas, peçam o impossível". (E Helena de Tróia não apenas não existe como, se existisse, ainda fugiria com outro sujeito.)

Não creio que haja jeito mais eficaz de promover o questionamento dessa premissa, que na verdade seria o primeiro passo para a maturidade do eleitorado em geral, do que tornar obrigatória a discriminação entre preço e imposto nas notas fiscais. Porque o povo brasileiro pode ter pago um trilhão de reais em impostos, mas isso me dói muito menos do que os poucos reais que deixei hoje em impostos no supermercado.

Os movimentos revolucionários em grande parte opuseram a religião ao Estado, fazendo daquela o bode expiatório a ser sacrificado pelo grande herói do secularismo. A questão política que se coloca é saber se temos maturidade para duvidar do Estado, questionar sua divindade, e ainda assim mantermos a ordem. A experiência americana sugere que isso é possível. A consciência de estar pagando muitos impostos, sempre, aumentaria o desejo de autonomia e, espera-se, de responsabilidade própria. Aqui, me parece, está o início de um programa liberal possível, a causa que pode abrir espaço para outras causas, as mais variadas, e para uma cultura política mais adulta, menos poluída pela crença no Estado-babá.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Canção do Narciso maduro

Qual Narciso maduro prestes a vingar-se,
abre os olhos, enxerga nada além do espelho,
e pergunta ao chão, teu destino e teu disfarce,
se aquilo na parede é um escaravelho.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.


Coisas há que apenas se praticam, jamais
são mencionadas; nem são feitas escondidas,
mas sempre à plena luz, e sem quaisquer sinais
que as apontem, perpetuamente protegidas.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.


Eis que vai sumindo a cidade na distância;
o caminho, somos nós que o vamos inventando;
nós podemos; sim; não queremos ambulância;
a certeza, somos nós que a vamos inventando.
Foi ontem que matamos nosso amigo,
e hoje nós o amamos mais que nunca.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Peleguismo contra o caos

No dia 29 de janeiro, O Globo trouxe um artigo de Thamy Pogrebinschi que era, como direi?, um primor de entrelinhas, tão rico que o senso de prioridades me fez desistir de analisá-lo. Hoje o mesmo Globo traz a notícia de que o PT pretende criar um Conselho Nacional de Política Externa, paralelo ao Itamaraty. E há, entre o conteúdo dos dois textos, uma interseção interessante demais para não ser observada.

Thamy Pogrebinschi falava sobre as conferências de direitos humanos, todas “convocadas pelo Executivo”. O Conselho Nacional de Política Externa teria a mesma liderança do Executivo, que pagaria as contas, estabeleceria a pauta, redigiria as conclusões e, mais uma vez, diria que tudo foi um “processo democrático”, no grau máximo de ternura sem endurecimento.

Agora, o governo não é burro e sabe tanto quanto seus opositores que sua estratégia contém o uso de elementos caóticos e desestabilizadores, como o MST. Suponho que pouca gente de terno e grava em Brasília realmente acredite que os movimentos radicais sejam uma fonte de ordem. No entanto, são uma excelente arma de intimidação, que pode ser contida e, portanto, utilizada, por meio do velho peleguismo de Vargas.

Getúlio Vargas, presidente da república, criou sindicatos e neles colocou seus aliados, os “pelegos” para “conter o avanço do comunismo”. Aliás, até senti a tentação de dizer que somente a perspectiva de uma estratégia de contenção do comunismo é que pode explicar a formação de sindicatos pelo próprio governo, mas uma vista mais ampla me lembrou que, no Brasil, nada nunca sucedeu de baixo para cima, da pequena comunidade para o país, e que o peleguismo de Vargas assume uma proporção mais razoável quando visto contra esse fundo.

Revivendo Vargas, o PT se vale desses “movimentos sociais” e os controla por meio de iniciativas que nascem no Executivo e são pagas pelo Executivo. Faz-se um documento, que, se for aprovado por omissão ou distração, agradará a todos. Se não for, é sempre possível culpar a sociedade conservadora, o próprio jornal O Globo etc. De todo modo, meia dúzia de líderes radicais ganham viagens internacionais em comitivas, ficam em bons hotéis, fazem apresentações e assim passam a achar-se líderes revolucionários celebrados pelas pessoas inteligentes do mundo inteiro. Trocam a sua revolução pelo prato de lentilhas do afago, e ainda se acham muito espertos. De volta à casa, eles seguram as forças caóticas que têm nas mãos e as alinham ao programa oficial.

Quando isso era feito por Vargas, era chamado “peleguismo”. Hoje é “democracia”, “socialismo do século XXI”.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Fosse eu o marqueteiro do PSDB...

...diria que Dilma Roussef vai trazer de volta a inflação. Para ser bem sincero, eu acho que a inflação era o grande flagelo do Brasil, que a única coisa que traz satisfação a todos os brasileiros (até uma certa idade) é o controle da inflação. A inflação era a peste negra, a praga do Egito. Sei que essa percepção também faz de FHC uma espécie de herói que matou o dragão (ah, era o Collor que falava em “matar o dragão da inflação”), mas consigo suportar com a maior boa vontade com o culto da figura de um ex-presidente se isso ajudar a manter a inflação controlada. Afinal, muitas liberdades foram preservadas nos EUA graças ao culto das figuras de meia dúzia de senhores de escravos que tiveram o apoio da monarquia absolutista francesa. Bem-vindos ao mundo real, amigos liberais idealistas. E não me chamem de cínico, que eu creio em Deus, não no homem.

Enfim. Eu mostraria filmes com pobres tendo perda real de renda por causa da inflação, sem poder pegar ônibus, sem poder fazer nada. O governo diz que vai desenvolver e transforma o país em paraíso de especuladores. O governo é cúmplice dos especuladores e vai trazer a peste de volta, para aniquilar o povo. Entra então uma cena de Dilma Roussef rasgando a “Carta ao povo brasileiro”, do próprio PT. Pronto, aí está o bode expiatório, o Judas Iscariotes.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Invictus e as causas liberais

Fui ver Invictus. É um filme excelente. É um filme que segue o princípio que enunciei ontem: os inimigos se unem em torno de um outro inimigo que lhes seja comum. Mandela une brancos e negros na África do Sul por meio da vitória da seleção nacional de rugby contra as seleções estrangeiras. A vitória esportiva é uma espécie de violência de mentirinha que tem um efeito similar à violência coletiva verdadeira. As competições esportivas se baseiam nisso. Os torcedores delegam sua identidade aos jogadores e, por meio da vitória destes, sentem sua identidade coletivamente afirmada. Creio, aliás, que os jogos da seleção brasileira exerçam tanto efeito sobre a população exatamente porque não temos a memória de uma violência real que nos unisse contra um inimigo externo. Por isso, de quatro em quatro anos os brasileiros vão em busca de afirmação.

Tornando à história do filme, que vou presumir que é fundamentalmente verídica, um liberal como eu poderia pensar que não é função do presidente da república ficar apertando mão de jogador, nem pedindo a capitão de time que vá vencer a Copa de rugby, mas uma pessoa sensata como eu espero ser não pode negar que o primeiro problema da África do Sul pós-apartheid e pós-eleição de Mandela era evitar uma tensão racial permanente que se transformasse numa guerra civil ou numa violência alastrada à la Zimbábue. A questão não é abstrata, não é decidir se cabe a um presidente fazer isso ou aquilo, mas entender que se o governo, os representantes da violência legítima (isto é, unânime, como a violência contra criminosos), não apaziguar as tensões internas da África do Sul não vai haver federação, não vai haver direitos, não vai haver nada. Seria o apogeu da idiotice dizer que as manobras de Mandela não passam de um abuso de seu cargo.

E aqui chego às causas que propus ontem. Elas seriam causas, não exatamente “idéias”. Não seriam maneiras de fazer com que os liberais concordassem entre si, porque não creio que isso seja possível, e não tenho muito interesse no impossível. Elas não devem ser analisadas pela ótica da competição pelo Maior Grau de Pureza Libertária. Elas representariam apenas um passo estratégico, de retórica coletiva, e ficaria feliz se elas fossem discutidas assim. Acho que a discriminação entre preço e imposto traria às pessoas uma consciência de que carecem imenso: a consciência de que o governo lhes custa muito mais, individualmente, do que imaginam. Na hora em que todo mundo começasse a sentir no bolso o quanto as coisas custam, talvez começassem a achar excelente que o governo não oferecesse tantas coisas. A supressão de propagandas estatais, além de economizar muitos recursos (por que não perguntar, ainda que de modo pouco libertário, quantos doentes deixam de ser atendidos a cada vez que passa um comercial na TV?), daria ao cidadão uma percepção mais seca do governo, cuja função, certamente, não é a de seduzir as pessoas. A adoção de algo como a probable cause melhoraria até as relações raciais — o policial seria obrigado a dizer que está parando um sujeito porque ele tem excesso de melanina e pensaria duas vezes.

Talvez estas não sejam as melhores causas (talvez sejam infactíveis), nem as mais prioritárias. Mas a questão não é essa. A questão é que alguma causa é prioritária, e sua prioridade vem do mero fato de estar entre as opções disponíveis, aliado ao fato de ser aquilo que mais contribui para uma estratégia de longo prazo. Não vai existir uma vanguarda leninista liberal que tome o poder, dissolva o governo e grite: “Privatizai o mundo!” Todavia, há algo que se pode fazer. Um belo dia foi possível optar entre o Plano Real e o desenvolvimentismo à antiga. Será o Plano Real um sonho libertário? Essa questão é menos relevante do que escolher entre aquilo que o cardápio oferece, a relativa estabilidade e a inflação galopante associada a maluquices do governo. Ficar no sonho é entrar no restaurante e não comer nada, indignado, esperando que o pé-sujo em que você se encontra se transforme na alta gastronomia que você só consegue imaginar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Causas importantes para os liberais brasileiros

Fico pensando se não há causas prioritárias para o movimento liberal no Brasil, prioritárias porque ajudariam na consecução de outros objetivos. Os liberais nunca vão se unir positivamente, os retardados sempre vão achar que eu sou socialista só porque sou católico (já vi isso, mas quem falou também já tinha escrito que a existência de uma hipótese valia como refutação, então ele está protegido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e não deve ser mencionado), os rothbardianos vão achar que eu sou socialista porque acho que o Estado deve existir, e os sociais-democratas mais liberais sempre vão achar que eu sou um maluco radical anarquista.

No entanto, somos unidos por aquilo que sempre une as pessoas que têm desavenças e discordâncias e diferenças de identidade: um inimigo comum. O que será que é mais urgente, e traz menos discordâncias, até mesmo entre não-liberais, e que poderia servir para dar norte ao movimento? Aqui vão três propostas, selecionadas por esse critério. Não coloquei coisas como “liberdade de expressão” porque até agora não temos nada de muito relevante sendo proibido ou “fim do alistamento militar obrigatório” porque o número de pessoas que não quer servir às forças armadas e vai contra a vontade é pequeno demais (até onde sei).

São só três causas. Vejamos.

1. A instituição obrigatória da discriminação entre preço e imposto em todas as notas fiscais, em todas as instâncias. Claro que não estariam discriminados os impostos em cascata, mas apenas os impostos que incidem sobre aquela operação. Digo isso porque saber que o Estado brasileiro consome 37% do PIB tem muito menos impacto sobre a minha vida do que saber que, ao gastar R$50 no posto de gasolina, deixei uns R$26 na mão do governo. Isso é o que podemos chamar de “efeito da piada do mineiro”:

Dois mineiros caminhavam pela estrada.

— Cumpadi, se ocê tivesse seis fazenda, ocê me dava treis?
— Dava, cumpadi, claro.
— E se ocê tivesse seis boi, ocê me dava treis?
— Dava sim, cumpadi.
— E se ocê tivesse seis camisa, ocê me dava treis?
— Não, camisa eu num dava não.
— Pur quê, cumpadi? Fazenda, boi cê dava...
— É que seis camisa eu tenho!


Por isso, bem, eu não tenho bilhões de reais, mas R$50 eu tenho.

2. A abolição de toda e qualquer propaganda estatal, inclusive de empresas estatais. A razão é simples. Propaganda é parte de uma estratégia de concorrência. Governo não concorre. Logo, não tem de anunciar. Não posso escolher morar no Rio e usar a prefeitura de São Paulo, nem morar no Brasil e me submeter às leis americanas. Logo, anúncio de governo é sempre, invariavelmente, e em 100% dos casos um mero instrumento de favorecimento de empresários. Tem de acabar. Eu até acho meio curioso que a direita brasileira não perceba que há uma ligação estreita entre um ex-editor e um ex-prefeito de São Paulo que, quando deixou a prefeitura e foi disputar o governo, secou a fonte publicitária de uma certa revista...

3. Uma emenda constitucional que fale, à americana, em probable cause, isto é, algo que acabe com o poder da polícia de parar pessoas a esmo e extorqui-las, ou, como preferem dizer, procurar criminosos. Isso é importante por uma razão simples: para que o país funcione melhor, os cidadãos não podem odiar a polícia, ao menos não tanto assim. Antes de ser parado pela polícia, o sujeito tem de ao menos exibir algum comportamento claramente suspeito (como dirigir erraticamente).